Tecnologia

Clube do trilhão

Microsoft, Apple, Amazon, Google e Facebook apresentam resultados trimestrais históricos. Mas período pós-pandemia preocupa.

Crédito: Divulgação

SEDE DA APPLE: Companhia famosa por seus produtos icônicos começa a ampliar participação dos serviços na receita. (Crédito: Divulgação)

Nem mesmo a Covid-19 consegue abalar a performance deste quinteto. Sob o acrônimo Gafam (Google, Amazon, Facebook, Apple e Microsoft), as gigantes de tecnologia batem recordes atrás de recordes nas receitas. E o valor de mercado acumulado das cinco é de US$ 5,3 trilhões. Muita grana. Para ter ideia do que significa, pense que apenas a menor delas, a empresa de Mark Zuckerberg, equivale ao valor do mês de abril de todas as 330 empresas listadas na B3 – U$S 579 bilhões se usarmos a mesma cotação para o dólar. Microsoft, Apple e Amazon, então… Navegam de maneira sem sobressaltos na casa de organizações que valem mais que o trilhão de dólares. Google, que chegou lá pela primeira vez em janeiro e caiu, bate nos US$ 911 bilhões. A resposta para essas corporações continuarem ascendentes enquanto a economia global desaba está no segmento de atuação – o da tecnologia. Um mundo em isolamento apenas amplifica o mundo conectado provido em boa parte por essas cinco marcas.

Mesmo assim o fluxo de receitas surpreendeu. “Vimos dois anos de transformação digital em dois meses”, escreve Satya Nadella, CEO da Microsoft, em sua carta aos investidores. No trimestre encerrado dia 31 de março (o terceiro no ano fiscal da empresa), a receita foi recorde – atrás apenas do tri outubro-dezembro de 2019 – e cresceu 15% sobre o período janeiro-março do ano anterior (somando US$ 35 bilhões), o lucro operacional aumentou 25% (para US$ 13 bilhões) e o lucro líquido subiu 22% (a US$ 10,8 bilhões). “Nosso modelo de negócios, nosso portfólio diversificado e nossas soluções tecnológicas diferenciadas nos posicionam bem para o que está à frente.”

“Nosso modelo de negócios e nosso portfólio nos posicionaram bem para o que está à frente” Satya Nadella Ceo Microsoft. (Crédito:Gabriel Bouys )

Nomeado por Bill Gates, o indiano Nadella assumiu o posto há seis anos e substituiu Steve Ballmer. Entre suas decisões orientou a companhia para fluxos de entrada de dinheiro recorrentes e serviços em nuvem. No terceiro trimestre fiscal da empresa, terminado em março, dos US$ 35 bilhões de receita US$ 19,1 bilhões (54,6%) vieram da linha de Serviços, contra US$ 15,9 bilhões de Produtos (45,4%). No mesmo período do ano anterior, as receitas atingiram US$ 30,5 bilhões, mas o segmento Serviços respondeu por US$ 15,1 bilhões (49,5%) e o de Produtos, por US$ 15,4 bilhões (50,5%). Foi um turning point. Amy Hood, a vice-presidente executiva e diretora financeira, diz que as receitas de Commercial Cloud alcançaram entre janeiro e março US$ 13,3 bilhões. “Aumento de 39% sobre o ano anterior.”

APPLE Na companhia, com seu DNA de produtos icônicos, é difícil mergulhar de vez na linha Serviços. Mas ela foi elogiada. “Crescemos no trimestre impulsionados por um recorde de todos os tempos em Serviços”, diz o CEO Tim Cook ao apresentar os resultados aos acionistas. A receita total atingiu US$ 58,3 bilhões, com leve alta de 0,5% sobre o mesmo período de 2019 – na empresa, janeiro-março equivale ao segundo trimestre fiscal. O executivo ressaltou os tempos de guerra. “Nesse ambiente difícil, nossos usuários dependem dos produtos da Apple de maneiras renovadas para permanecer conectados, informados, criativos e produtivos”, afirma. Mas quem revelou a surpresa com a resiliência foi o CFO, Luca Maestri. “Estamos orgulhosos de nossas equipes e da resistência dos nossos negócios durante esses tempos.”

Mesmo tenda receitas 67% superiores à Microsoft – US$ 58,3 bi contra US$ 35 bi –, a dependência da venda da sua linha de Produtos em relação a de Serviços é muito distante da virada realizada na companhia fundada por Bill Gates. Numa época em que cadeias de suprimentos se tornam tênues e de risco, isso pode ser um problema.

No trimestre da Apple, o volume gerado por Produtos somou US$ 45 bi (77,2% do total), ante US$ 13,3 bi com Serviços (22,8%). De toda forma, a relação encurtou se comparada ao mesmo trimestre de 2019, quando responderam respectivamente por US$ 46,6 bilhões (80,3% do total) e US$ 11,4 bi (19,7%).

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“No trimestre crescemos impulsionados por um recorde em todos os tempos em serviços” Tim Cook Ceo Apple. (Crédito:Josh Edelson )

AMAZON Na sequência desta luta de gigantes, como valor de mercado, aparece a Amazon. É a terceira integrante do trio do trilhão. E entre as três, a caçula. Tem 26 anos, contra 44 da Apple e 45 da Microsoft. No resultado do trimestre encerrado em março, a empresa fundada por Jeff Bezos, homem mais rico do planeta, as vendas líquidas totais somaram US$ 75,4 bilhões, resultado 26,3% acima dos US$ 59,7 bi de 2019. E como aconteceu com Microsoft e Apple a linha Serviços ganha share interno em relação à linha Produtos – o que é uma dica a empresas de todos os segmentos, porque é mais fácil modelar assinaturas, garantindo receita recorrente. A unidade Produtos rendeu US$ 41,8 bilhões (55,4% do total), contra US$ 33,6 bi (44,6%) de Serviços. .

No comunicado a seus investidores, o CEO Jeff Bezos diz que a crise atual está demonstrando a adaptabilidade e a durabilidade dos negócios da Amazon. “Mas também é o momento mais difícil que já enfrentamos”, afirma. “O serviço que prestamos nunca foi tão crítico.” Bezos foi de longe o mais duro dos líderes das empresas de tecnologia. Em parte, talvez, por ser entre as três o único fundador ainda à frente do negócio. “Se você é um acionista da Amazon, talvez seja melhor se sentar, porque não estamos pensando pequeno. Em circunstâncias normais, no próximo trimestre esperaríamos cerca de US$ 4 bilhões ou mais em lucro operacional”, afirma.

“Mas estas não são circunstâncias normais. Esperamos gastar a totalidade desses US$ 4 bilhões, e talvez um pouco mais, em despesas relacionadas à Covid-19, levando produtos aos clientes e mantendo os funcionários seguros.”

Isso inclui investimentos em equipamentos de proteção individual, limpeza aprimorada de instalações, processos menos eficientes, mas que permitem melhor distanciamento social, salários mais altos para equipes e mesmo centenas de milhões para desenvolver os próprios recursos de teste contra a doença. Responsabilidade social é isso. Bezos alivia, ou pelo menos tenta: “Estou confiante de que nossos acionistas, orientados a longo prazo, entenderão e adotarão nossa abordagem e que, na verdade, não esperariam menos.”

Entre março e abril a corporação contratou 175 mil – sim, 175 mil – pessoas para a rede de atendimento e entrega em resposta ao aumento da demanda. E no âmbito da plataforma de vendas a empresa aperta o cerco para eliminar vendedores que aumentaram preços de produtos relacionados ao combate à Covid-19. Foram removidas mais de 1 milhão de ofertas por causa da variação de preços e mais de 10 mil contas foram suspensas globalmente. Não é fácil ser um market place e zelar pela curadoria do que acontece em seu quintal.

GOOGLE Na companhia mãe do Google, a Alphabet, os resultados do trimestre janeiro-março seguiram Microsoft, Apple e Amazon e tiveram alta em relação ao mesmo período do ano anterior. De US$ 36,3 bilhões para US$ 41,1 bi, elevação de 13,2%. Na empresa, essencialmente de Serviços, as receitas são melhor lidas quando comparam três linhas: marcas proprietárias do Google, o canal de vídeos YouTube e a rede de parceiros em que o Google veicula publicidade e faz repasses. Respectivamente, no trimestre, elas somaram em 2020 US$ 24,5 bi (Google), US$ 4 bi (YouTube) e US$ 5,2 bi (parceiros), totalizando US$ 33,7 bi. Em relação ao mesmo trimestre de 2019, cujas receitas foram de US$ 22,5 bi (Google), US$ 3 bi (YouTube) e US$ 5 bi (parceiros), com total de US$ 30,5 bi, a maior alta porcentual foi do YouTube, de 33,3%. A performance foi superada pelo serviço em nuvem, ainda pequeno para os padrões da empresa, mas que cresceu 50% no trimestre a trimestre, de US$ 1,8 bi para US$ 2,7 bi.

“Dada a profundidade dos desafios que muitos enfrentam, é um enorme privilégio poder ajudar neste momento”, diz Sundar Pichai, CEO da Alphabet e do Google, aos acionistas. A frase protocolar passa a fazer mais sentido quando a mulher do dinheiro, a CFO Ruth Porat, afirma que o trimestre foi bom, mas não todo ele. “O desempenho foi forte nos dois primeiros meses, mas em março experimentamos significativa desaceleração nas receitas de anúncios.” Algo à beira do ineditismo na história de 22 anos da empresa.

“Sente-se se você for acionista. Usaremos o lucro operacional do próximo tri contra a Covid-19”Jeff Bezos Ceo Amazon. (Crédito: Mark Wilson)

FACEBOOK O grupo de Mark Zuckerberg até que tem voado abaixo do radar neste primeiro trimestre do ano, escapando muitas vezes das polêmicas sobre conteúdos veiculados em suas plataformas ou na rede de mensagens WhatsApp. É preciso reconhecer que a empresa concentrou os esforços em minimizar a propagação de fake news durante a pandemia. Paralelamente, seu primeiro trimestre encerrou com receitas 17,2% superiores ao mesmo período do ano passado: de US$ 15,1 bilhões para US$ 17,7 bilhões. Zelar pelo que aparece em suas plataformas continua sendo a pedra no sapato de Zuckerberg. “Estamos focados em manter as pessoas seguras, informadas e conectadas”, diz. Apesar de ser a mais distante do clube do trilhão, a marca é também a mais jovem das cinco: tem 16 anos.

 

Mesmo com tanto bom resultado, em todos os balanços houve a manifestação de um sinal de alerta e preocupações no curto prazo. Na prática, as empresas comemoram, mas deixam sinais claros e fortes de que o mundo pós-pandemia está em aberto. E que não há qualquer garantia de que as performances se manterão. O segundo trimestre será chave para a economia global decifrar o futuro. Isso vale também para gigantes do trilhão.

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