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Clube do bilhão

E por que o estado moderno tem a ver com isso.

Clube do bilhão

Amazon e Apple chegaram a um estágio inimaginável até para o mais otimista dos seguidores de Adam Smith. O de faturar diariamente na casa do bilhão de dólares. Na companhia criada e comandada por Jeff Bezos a cifra alcançou os dez dígitos em 2020 — está agora em US$ 1,2 bilhão. Por dia! Dá mais de R$ 66 milhões a cada 15 minutos. A Apple vem um pouco atrás. Com vendas de US$ 89,6 bilhões no primeiro trimestre, ela faz US$ 955 milhões/24 horas. As outras três big techs que formam o acrônimo Gafam seguem o caminho, e uma delas já superou o meio bilhão diário: Google-Alphabet (US$ 614 milhões). Microsoft vem a seguir(US$ 463 milhões) e Facebook fecha a fila (US$ 291 milhões).

Esse é o lado fascinante da história.

Particularmente a história de Bezos. Ele inventou um novo formato de vender tudo, ressignificou a palavra concorrência, revolucionou o varejo, tornou-se o cidadão mais rico do planeta e emprega 1,2 milhão de pessoas, número que exclui terceirizados e temporários. Fez tudo isso baseado nas regras do jogo e na tríade Foco-no-cliente + Foco-na-inovação + Foco-no-longo-prazo. Há senões, claro. Tenta corrigir um desvio inicial em relação ao tratamento dispensado a funcionários, em especial os da base da pirâmide. Por outro lado, passou também a se preocupar com clima global, viagens espaciais e mídia profissional, temas que devem dominar sua agenda ao deixar a presidência da Amazon.

O lado menos fascinante da história é igualmente brutal.

Tem a ver com essa concentração in [domável?…decente?…cômoda?] de dinheiro em poucos players. Quebra a espinha dorsal de um modelo que em tese deveria se autoequilibrar. Distorce o espírito clássico previsto pelos melhores teóricos. Mesmo dentro das regras do jogo, criou-se uma força tão desproporcional que torna a sobrevivência de muitos uma façanha. Ou algo improvável. Num primeiro momento, caem empresas do mesmo segmento. Num segundo momento, saem de cena indiretos – como as corporações de mídia em relação às gigantes da tecnologia na briga por verbas publicitárias, ou o risco que correm grupos de ensino, talvez ainda sem terem percebido. Num terceiro momento, baila a esfera pública em todas as suas dimensões. Incluindo o poder de dar ou não voz a personas e marcas. Uma loja ser “cancelada” num marketplace ou um político ser barrado nas redes sociais pode significar, nos dois casos, a morte.

De certa forma, a era de empresas com poder de Estado não é nova. Mas diferentemente de outras situações, agora elas agem globalmente, têm muito mais dinheiro e impactam muito mais pessoas. Bilhões de pessoas. E deixaram de ser apenas empresas de produtos ou serviços para se tornarem também instituições financeiras. E isso é novo. Não à toa a China barrou como deu os supergrupos ocidentais e vira e mexe tromba com os gigantes internos. Nunca o enfrentamento foi tão explícito e frontal.

Big techs são países. É isso. A receita da Amazon no primeiro trimestre (US$ 108,5 bilhões) supera em 30% a arrecadação federal no mesmo período do guloso Estado brasileiro (US$ 83,9 bilhões). Concentrações desse porte assustam governos e são inerciais na multiplicação de outras distorções. Alguém falou em aumento da desigualdade? Bingo. Não se trata de relação causal direta — uma gigante tecnológica aumentar a desigualdade —, mas há indícios suficientes para mostrar que na dinâmica do jogo do capitalismo algo anda muito errado. Sorry, mestre Adam.

Mentes mais ligadas já perceberam que isso pede a discussão do modelo. Aí entram em cena economistas donos de uma visão crítica do capitalismo na versão Século 21. Não questionam sua existência. Debatem suas inconsistências. Apontam outros caminhos. Nesse time um nome pop (173 mil seguidores no Twitter) acaba de lançar boas provocações em novo livro. Mariana Mazzucato. A economista nascida na Itália e criada nos Estados Unidos é professora da University College London. Para muitos, uma esquerdista. Tolice. Em sua obra recém-lançada, Mission Economy (2021), afirma que governos devem assumir a liderança de grandes desafios: respostas a mudanças climáticas, o combate a pandemias e, em especial, a grande crise da economia – a desigualdade, que deve se acentuar com a Covid, segundo ela.

Citar Mazzucato num País como o Brasil, o único lugar do universo em que a esquerda e a direita defendem um Estado maior e fiscalmente anárquico, chega a ser temerário. Mas a pergunta que ela deixa na mesa é feita sob medida aos brasileiros: “Para que serve um governo?” Em sua resposta, ela diz que serve para estabelecer grandes objetivos nacionais e definir os caminhos (as tais missões do título do livro) que levem a alcançá-los. Em última instância, seu papel na economia e na sociedade é recuperar o senso de propósito público. O oposto do que temos. Mazzucato parece esfregar nossa cara no chão. Dá até vergonha.

Edson Rossi é redator-chefe da DINHEIRO.