Especial

Clima acirra disputa entre ricos e pobres

Ao desmatar suas florestas, países em desenvolvimento alimentam uma briga que só fortalece o discurso dos líderes mundiais. Nesse cabo de guerra, EUA, China e Europa lucram a maior parte dos trilhões de dólares que a economia verde já movimenta.

Crédito: Evandro Rodrigues

De um lado, países ricos. Estados Unidos, China e França somam um PIB de US$ 40 trilhões e, aliados, comandam a narrativa global pela luta contra as mudanças climáticas. Do outro, Brasil, Bolívia e República Democrática do Congo. Com economias bem mais modestas (US$ 1,42 trilhão, US$ 40,9 bilhões e US$ 12,2 bilhões), os três são os campeões do desmatamento. Aos olhos do mundo, representam o grupo de países sobre os quais recai a pressão para entrarem em conformidade com a economia de baixo carbono. O caminho para isso é a proteção de suas florestas. Resistem. O argumento para continuar a derrubada de árvores é o de que países abonados já destruíram suas reservas florestais e agora usam a agenda da sustentabilidade para impedir o desenvolvimento dos mais pobres. Com essa visão míope, deixam de enxergar na economia verde uma grande oportunidade de desenvolvimento. “O mercado de carbono pode ser o maior programa de redistribuição de renda do planeta”, afirmou à DINHEIRO o CEO da Fama Investimentos,å Fábio Alperowitch.

O valor da economia verde ainda é uma incógnita. Em seu último relatório, divulgado em 2019, a Global Sustainable Investment Alliance (GSIA) estima que os investimentos sustentáveis já movimentam US$ 31 trilhões por ano no mundo. Apesar do número causar espanto, afinal representa 35% do PIB mundial (US$ 88 trilhões), está sendo usado pelo mercado financeiro e empresas de consultoria e auditoria como referência. Caso da PwC. “O mundo está vivendo momento de grande liquidez e o ESG é muito amplo”, afirmou Mauricio Colombari, sócio da empresa. Para o executivo, esses trilhões de dólares estão buscando bons projetos alinhados aos pilares sociais, ambientais e de governança, mas sobretudo aos relacionados à transição energética. “O capital quer substituir o investimento que fazia em combustíveis fósseis por fontes limpas como as elétricas; e renováveis como a solar e eólica”, disse.

A dica veio na carta de Larry Fink, CEO da BlackRock. Entre as iniciativas para posicionar a sustentabilidade na sua estratégia de investimento, a gestora, que administra US$ 8 trilhões em ativos, aconselhou seu grupo de clientes a “desinvestir em setores com alto risco de sustentabilidade, como os produtores de carvão para termelétricas”, e a buscar “novos produtos de investimento que substituam os combustíveis fósseis”, trazia o documento de janeiro de 2020. Naquele mesmo ano, a emissão de títulos verdes, sociais e de sustentabilidade alcançou a marca de US$ 700 bilhões no mundo. No acumulado desde 2006, ano da primeira emissão mundial, o mercado de dívida sustentável movimentou US$ 1,7 trilhão, sendo US$ 1,1 trilhão apenas em green bonds.

35% do pib global. É o que representam os US$ 31 tri movimentados por investimentos verdes no mundo por ano

OPORTUNIDADE O Brasil, se bem administrado, poderia sair do lado dos pressionados e se estabelecer como uma das principais lideranças da nova ordem mundial. Condições não faltam. A matriz energética brasileira é uma das mais limpas do mundo, com 46% de fontes renováveis. A média global é 14%. As técnicas de agricultura regenerativa, como Integração-Lavoura-Pasto-Floresta e Plantio Direto, tiram a produção de commodities do papel de emissora de carbono para o de sequestradora. E finalmente, a Floresta Amazônica de pé tem um valor econômico ainda não estimado tanto pela sua megabiodiversidade, como pelo seu potencial de geração de riqueza com atividades sustentáveis.

Ser o líder da nova era talvez não garanta ao Brasil o status de maior potência mundial. Mas certamente faria o País subir alguns degraus no ranking das nações mais ricas. Estudo promovido pela WRI Brasil e pela The New Climate Economy indica que práticas sustentáveis e de baixo carbono poderiam gerar ganho total acumulado de R$ 2,8 trilhões no PIB brasileiro até 2030. Se o valor fosse computado hoje, seria suficiente para que o Brasil pulasse da 12a para a 8a posição entre os mais ricos do mundo. Além disso, as novas atividades poderiam gerar 2 milhões de empregos e reduzir as emissões de carbono acima da meta de 37% prometida pelo País para 2025. Para Roberto Schaeffer, um dos autores do estudo, o impacto pode ser ainda maior, já que o levantamento foi feito antes da Covid-19. “A única maneira de reverter a crise econômica pós-pandemia será via sustentabilidade”, disse.

Junte o modelo de desenvolvimento atual e o fortalecimento da luta contra o aquecimento global e o resultado será um só: no Dia Mundial do Meio Ambiente, comemorado em 5 de julho desde sua criação na Convenção de Estocolmo (1972), a busca pela sustentabilidade que deveria unir líderes mundiais em torno de um só objetivo está criando um verdadeiro cabo de guerra entre quem tem árvores em pé e quem já as derrubou. Azar do planeta.

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