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Em meio a combates dispersos, Turquia ameaça reiniciar operação na Síria

Em meio a combates dispersos, Turquia ameaça reiniciar operação na Síria

Feridos são levados para um hospital de Tal Tamr, nordeste da Síria - AFP

Combates dispersos ocorriam nesta sexta-feira no nordeste da Síria, apesar da trégua acertada, enquanto o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, ameaçava reiniciar a ofensiva contra as forças curdas que permanecerem na zona.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, informou que Erdogan lhe informou sobre “pequenos disparos de franco-atiradores e disparos de morteiro” na região, que “foram eliminados rapidamente”.

O líder turco também garantiu a Trump que “realmente deseja que o cessar-fogo funcione”.

Mas Erdogan, que considera as forças curdas “terroristas”, declarou que “se as promessas forem cumpridas até a noite de terça-feira, o problema da zona segura se resolverá, mas se fracassar, a operação recomeçará no minuto seguinte às 120 horas” da trégua.

Os curdos denunciaram uma violação do cessar-fogo. “Os bombardeios e disparos continuam tendo como alvos combatentes, a população civil e o hospital” de Ras al-Ain, denunciou Mustafá Ali, porta-voz militar curdo.

Combates esporádicos continuam em Ras al-Ain. Uma correspondente da AFP, presente do lado turco da fronteira, escutou explosões e tiros de artilharia, e viu colunas de fumaça do lado sírio da fronteira.

O senador americano Lindsey Graham, severo crítico da retirada das tropas dos EUA da região, conversou com o comandante das FDS, general Mazlum Abdi, que “está preocupado com o cessar-fogo e disse que jamais aceitará a limpeza étnica dos curdos que Ancara pretende”.

“Uma zona de amortecimento é aceitável para os curdos, mas uma ocupação militar que desloca milhares de pessoas não é uma zona segura, e sim uma limpeza étnica”, denunciou Graham.

No terreno, as operações militares prosseguem. Os ataques da aviação turca e disparos de morteiros de seus aliados sírios mataram 14 civis e 8 combatentes curdos na cidade de Bab al-Kheir e seus arredores, segundo o Observatório Sírio para os Direitos Humanos (OSDH).

A ofensiva permitiu a Ancara conquistar uma faixa de 120 km na fronteira, indo de Tal Abyad a Ras al-Ain.

A ONG Anistia Internacional acusou o Exército turco e os rebeles pró-turcos de “desprezar a vida dos civis”, citando “provas claras de crimes de guerra”.

As autoridades curdas já acusaram Ancara de utilizar armas não convencionais, como napalm, o que a Turquia negou.

A operação turca já matou 86 civis e 239 combatentes das Forças Democráticas Sírias (FDS, compostas principalmente pelas forças curdas), segundo o último balanço do OSDH, que informa a morte de 187 combatentes pró-turcos. Cerca de 300.000 pessoas foram deslocadas pelos combates.

“A situação é bastante óbvia. Esse chamado ‘cessar-fogo’ não é o que esperávamos. Na verdade, não é um cessar-fogo, é uma exigência de capitulação”, disse o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk.

O presidente francês Emmanuel Macron anunciou que “em breve” a chanceler alemã Angela Merkel, o primeiro-ministro britânico Boris Johnson e ele próprio se encontrarão com Erdogan.

Nesta sexta, Donald Trump disse que Erdogan garantiu a ele que aplicaria o “cessar-fogo”.

“Ele realmente quer que o cessar-fogo ou a trégua funcione. Os curdos também querem que isso aconteça. Há boa vontade de ambos os lados e uma chance muito boa de sucesso”, escreveu no Twitter.

“Alguns” países europeus, disse o presidente sem mencioná-los, “agora estão dispostos, pela primeira vez”, a repatriar os combatentes do EI detidos na Síria. “São boas notícias, mas deveriam ter ocorrido depois que NÓS os capturamos”, ressaltou.

O Pentágono, contudo, advertiu que não está disposto a verificar o respeito da zona de segurança de 32 km de largura que a Turquia deseja estabelecer no norte da Síria.

Na quinta-feira, Trump comemorou a trégua anunciada, antes de explicar que ele havia deixado os turcos e os curdos se lançarem nessa batalha, “como dois garotos” que “precisam brigar um pouco” antes de serem “separados”.

O acordo turco-americano prevê o estabelecimento de uma “zona de segurança” de 32 km de extensão em território sírio, da qual as forças curdas devem se retirar. O objetivo é afastar a milícia curda das Unidades de Proteção do Povo (YPG), mas também instalar parte dos 3,6 milhões de refugiados sírios que vivem na Turquia.

Sob um acordo com as forças curdas, o regime de Damasco retornou a áreas que havia perdido há anos para os curdos e Moscou preencheu o vazio deixado pelas forças americanas.

Quanto aos países ocidentais, eles temem o ressurgimento do EI, que se beneficiaria do caos de segurança provocado pela ofensiva.