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Cinco milhões de mortes por covid, marca simbólica que ainda provoca muitas perguntas

Crédito: AFP

Pessoas de máscara de proteção contra a covid-19 em Hong Kong, em 30 de outubro de 2021 (Crédito: AFP)

A pandemia de covid-19 se está perto de superar a barreira de cinco milhões de mortes oficialmente registradas pela doença (um dado, sem dúvida, subestimado). Por trás do número simbólico persistem muitas perguntas sobre o futuro da pandemia.



– Quantos falecidos?

O número real de mortos por covid-19 em todo o mundo é certamente superior a 5 milhões de pessoas, uma contagem estabelecida a partir dos balanços oficiais diários de cada país. Quando se toma como referência o excesso de mortalidade relacionado com a covid, o balanço poderia ser duas ou três vezes maior, adverte a Organização Mundial da Saúde (OMS).

A partir deste método, a revista The Economist calcula o número de falecidos em 17 milhões de pessoas.

“Este balanço me parece mais confiável”, declarou à AFP Arnaud Fontanet, epidemiologista francês.

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Independente do cálculo, o número de mortes é inferior a outras pandemias como a chamada gripe “espanhola” (1918-1919), que provocou entre 50 e 100 milhões de vítimas fatais; ou os 36 milhões de óbitos provocados pela aids nos últimos 40 anos.

Porém, o coronavírus “provocou muitas mortes em pouco tempo”, recorda o virologista francês Jean-Claude Manuguerra.

“E sem a adoção de medidas como restrições de deslocamentos e a vacinação, o resultado teria sido muito mais dramático”, segundo Fontanet.

– Atingimos o teto?

Como explica Arnaud Fontanet, o surgimento de um novo vírus acontece em duas fases.

Uma “fase explosiva epidêmica” no primeiro momento. O vírus penetra com força em um grupo de população que nunca esteve em contato com ele. Depois acontece a fase de “conformação a um grupo”, quando há imunidade da população: acontece então a circulação endêmica.

No caso do coronavírus, “pela primeira vez na história das pandemias, aconteceu um esforço mundial para acelerar esta transição”, afirma Fontanet.

Uma aceleração favorecida pelas vacinas: “permitiu que a população alcance a imunidade de forma artificial, ante um vírus que não conhecíamos. Em 18 meses conseguimos o que demoraria de três a cinco anos, com um número muito maior de mortos”.

Por isto, o futuro do vírus depende do nível de vacinação dos países e da eficácia das vacinas, prevê Fontanet: “Estamos a poucos meses de um colchão para nos apoiarmos, mas é difícil saber se será grosso o suficiente”.

“O vírus vai continuar circulando. O que se busca agora não é sua eliminação, e sim uma proteção contra as formas mais graves”, completa.

“O objetivo é que a covid-19 não te leve ao hospital ou ao cemitério”, resume Jean-Claude Manuguerra.

– Qual o futuro para cada país?

Os especialistas esperam que a realidade da pandemia mude: de forma geral nos países desenvolvidos (com altos índices de vacinação) as ondas epidêmicas serão menos importantes e regulares, enquanto os países com menos vacinados registrarão aumentos rápidos dos casos.

“Nos países desenvolvidos, acredito que teremos epidemias sazonais de coronavírus, talvez mais importantes que as da gripe (ao menos durante os primeiros anos), até que se normalize”, prevê Arnaud Fontanet, para quem a imunidade global é construída por camadas: a camada da vacinação se soma à camada das infecções naturais.

Países como China ou Índia têm uma grande capacidade de vacinação e poderiam se aproximar desta perspectiva.

Em outros casos, como os da Nova Zelândia e Austrália, que adotaram uma campanha de erradicação do vírus (conhecida como “zero covid-19”), os países foram obrigados a mudar de planos e iniciar a “corrida da vacinação”, diante da variante delta mais contagiosa, destaca Fontanet.

E é ainda mais difícil fazer previsões para regiões que têm capacidade de vacinação incerta, como a África intertropical.

O aumento de casos no leste da Europa confirma que a reduzida taxa de vacinação expõe os países a “graves epidemias, com fortes consequências a nível hospitalar”, prossegue Fontanet.

Por sua vez, o aumento atual de casos na Europa Ocidental, apesar dos elevados níveis de vacinação, mostra a necessidade de prudência.

“Precisamos evitar uma percepção eurocentrista: em uma pandemia é necessário levar em consideração todo o planeta. No momento não parou”, alerta Jean-Claude Manuguerra.

– Novas variantes?

O principal medo é o surgimento de novas variantes, resistentes à vacinação.

A delta, atualmente a variante mais prevalente, superou a alfa sem permitir o avanço das variantes mu ou lambda.

Mas os especialistas preveem que, além do surgimento de variantes diferentes, a evolução da delta pode resultar em variantes mais resistentes às vacinas.

“Delta, a mais difundida, é a que, estatisticamente, tem maior probabilidade de provocar uma variante de uma variante”, explica Jean-Claude Manuguerra.

Por este motivo, as autoridades britânicas monitoram a subvariante da delta chamada AY4.2. No momento, no entanto, não há elementos para afirmar que esta variante deixe as vacinas menos eficazes.

“É importante continuar fazendo uma vigilância genômica” (a localização genética das diferentes versões do vírus), afirma Jean-Claude Manuguerra. Isto permite “encontrar variantes com antecedência suficiente e saber se estas são mais perigosas, mais transmissíveis e se a imunidade continua funcionando”, conclui.


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