China, Irã, eleição americana: segue o jogo em 2020

China, Irã, eleição americana: segue o jogo em 2020

Começo de ano sempre é um momento de revisão e reflexão. Olhar o que ficou para trás e passar a limpo erros, acertos e aprendizados. Para os investidores em Value Investing, 2019 deixa saudades – mas é claro que 2020 promete ser um belo ano. O ambiente global de taxas de juros baixas ainda vai dar muita alegria para os investidores em ações, e em particular para os value investors. Acredito, porém, que 2019 foi efetivamente o ano da virada.

Ao final de 2018, a situação parecia bastante precária. O Federal Reserve dos EUA seguia com sua política de “normalização” de juros, em direção a 3%, esperando uma inflação que até agora não apareceu. Na ponta contrária, o mercado acreditava em uma recessão iminente: a expectativa era de que o Federal Reserve induziria uma desaceleração da economia por meio de uma política contracionista. Para completar o quadro, o comentário geral era que, depois de dez anos de valorização das bolsas após a Grande Recessão de 2008, o mercado estava maduro para sofrer uma correção significativa.

O começo de 2019 foi turbulento. Boa parte da tal correção já havia ocorrido em novembro e dezembro, e o ano começou com perspectivas bastante desfavoráveis. Ao longo de 2019, o sofrimento e a volatilidade foram constantes. No dia 7 de janeiro, o S&P500 negociava ao redor de 2.500 pontos. Subiu até quase 3.000 em abril para corrigir aos 2.750 e flutuar nesse intervalo até meados de outubro, quando enfim conseguiu subir até o patamar de 3.200. Uma valorização de 28%.

Toda essa movimentação teve como pano de fundo dois eventos de características bastante diferentes, mas profundamente impactantes: o ambiente de taxas de juros e a guerra comercial EUA X China. Ao longo do ano, o FED inverteu completamente seu discurso. Trocou uma política monetária apertada visando combater inflação por um discurso de acomodação, com o objetivo de não prejudicar o crescimento da economia – e, ainda por cima, cortou juros. O mercado deixou de precificar uma curva de juros negativa (onde as taxas de curto prazo eram maiores que as taxas de longo prazo, indicando cortes de juros no futuro), um claro indicador de recessão, e passou a operar com uma curva positivamente inclinada. Houve quem dissesse que o Banco Central Americano estaria cedendo às pressões de Trump, mas a verdade é que tecnicamente não havia como justificar altas de juros para conter uma inflação não existente.

Ao início de um ciclo de corte de juros, o correto a fazer é comprar ações. Quem seguiu esse mantra, ganhou. Talvez essa seja uma das grandes lições de 2019. Há ações, especialmente no campo de Value Investing, que pagam mais dividendos do que a taxa de juros dos bonds americanos de dez anos. E essas taxas baixas, vieram para ficar ou são temporárias? O mercado parece aos poucos estar se convencendo de que taxas de juros globalmente baixas são o “novo normal”. E, se isso é verdade, como acredito que é, ainda há espaço de sobra para valorização das ações, especialmente no campo do Value Investing.

Em relação à guerra comercial entre Estados Unidos e China, pode-se falar de tudo a respeito de Trump, mas não se pode acusá-lo de não saber negociar. O presidente norte-americano consegue ver (e explorar) o lado fraco do seu oponente em uma negociação, e tolera até alguma parcela de ‘dor’ – desde que ela seja maior do outro lado.

Trump também é muito bom em identificar o que, nas disciplinas de negociação, é chamado de BATNA (Best Alternative to a Negotiated Agreement). Ou seja, entre sair da mesa de negociação e fechar o acordo que está na mesa, o que é melhor? No caso EUA X China, Trump viu claramente o BATNA dos Chineses: no caso deles, melhor fechar um acordo do que enfrentar as tarifas americanas e o rearranjo da cadeia de suprimentos que isso causaria.

As tarifas de Trump foram contra-atacadas com a desvalorização do Yuan, que desencadearam mais tarifas. O presidente norte-americano aguentou o tranco das críticas, inclusive de sua base eleitoral. Disse que não tinha o menor interesse em fechar um acordo com os chineses. Chegou a dizer que deixaria o tema para depois das eleições de 2020. Tudo isso via Twitter ou em alguma entrevista rápida, geralmente encoberta pelo barulho do helicóptero Marine One pouco antes da decolagem.  Um verdadeiro exemplo de tortura chinesa, não somente para os chineses, mas também para nós, investidores.

Aparentemente, Trump conseguiu o que queria: a fase 1 de um acordo comercial está no forno, envolvendo, ao que parece, uma série de metas de importação pela China de produtos agrícolas americanos, além de temas relacionados à propriedade intelectual. A lição que fica é que Trump sabe avaliar muito bem o seu BATNA e o BATNA do seu adversário. Quem fez essa análise durante o ano de 2019, ganhou.

O ano de 2020 começou de maneira surpreendente, com um ataque ordenado por Trump que resultou na morte do general iraniano Qasem Soleimani. Loucura? Impetuosidade? Populismo? Ou uma leitura muito bem-feita do BATNA dos iranianos? Tendo a ficar com a última opção. Nesse contexto, o que resta aos iranianos? Bloquearão o estreito de Ormuz, prejudicando as suas (míseras) exportações, e as dos seus principais aliados, Iraque e Qatar? Bombardearão alvos americanos além das bases de Al-Asad e Erbil, correndo o risco de sofrerem uma retaliação ainda mais contundente? Talvez a única saída segura que lhes resta é gritar “morte à América” antes de voltar à mesa de negociação para reformar o acordo fechado em 2016 com bases mais favoráveis para os Estados Unidos. Se isso acontecer, Trump sai ainda mais forte para enfrentar a eleição de novembro. Não é sábio subestimar sua capacidade de negociação.

A boa notícia de 2019 para os value investors é que o mercado voltou a privilegiar empresas com sólida geração de caixa e boa gestão. Para quem quer sair da renda fixa, com maior retorno e risco calculado, esta é a resposta. As ações de bancos, especialmente, se beneficiaram dessa percepção.

O ano de 2020 tem tudo para ser uma sequência lógica de 2019 – e isso pode não ser tão óbvio quanto parece. Há grandes riscos pelo caminho: o maior deles, na minha opinião, é a eleição americana. Mas também há boas oportunidades: alguns varejistas; um produtor de alimentos industrializados que tem gente bem graúda entre os acionistas; um conglomerado industrial que se atrapalhou; um produtor e distribuidor de fragrâncias que comprou muita coisa muito caro; um banco de investimentos que vive uma crise de identidade; e, quem sabe, até um produtor de aeronaves. O setor de energia também promete.

2019 deixa saudades, mas o dia 31 de dezembro é somente uma data no calendário.  Os ciclos das empresas, assim como os ciclos econômicos, são fluídos: não se contêm no reservatório gregoriano. E 2020 tem tudo para continuar mostrando essa fluidez.

Feliz Ano Novo.

 

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