Finanças

Cheque em branco cobiçado

Conheça os Spacs, empresas que nascem grandes e com apetite para aquisições. Elas são um sucesso no mercado americano e começam a chegar ao Brasil.

Crédito:  MANDEL NGAN/AFP

Escritório do WeWork em Nova York: Spac foi solução para o IPO mais atrapalhado da história. (Crédito: MANDEL NGAN/AFP )

A empresa de aluguel de escritórios WeWork é um exemplo de manual do que não fazer no mercado de capitais. A companhia floresceu entre 2017 e 2019 com sua proposta de atender os empreendedores que precisavam de um espaço para trabalhar e gostavam da ideia de coworking. O crescimento rápido levou a planos de abertura de capital em 2019. Porém, quando os analistas começaram a analisar os números, perceberam que a empresa gastava demais, lucrava pouco e suas avaliações eram exageradas. O IPO naufragou, o CEO Adam Neumann foi mandado para casa e a companhia se dedicou a cortar custos. Depois desse fiasco, abrir capital parecia impensável, não fosse uma nova estrutura desenvolvida por Wall Street que começa a chegar ao Brasil, as sociedades de aquisição de propósito específico (Special Purpose Acquisition Companies, ou Spac).

Eis a explicação mais didática: uma Spac é um cheque em branco com (muitos) fundos. Essas empresas são criadas por grandes gestores de recursos. Não empregam ninguém, não produzem nada, mas já nascem listadas em bolsa, e com um só objetivo: captar recursos para adquirir companhias promissoras. É o caso da WeWork. Um ano e meio após o IPO fracassado, a companhia anunciou, no dia 26 de março, sua abertura de capital por meio de uma fusão com a Spac BowX Acquisition Corp. Na operação, a WeWork foi avaliada em US$ 9 bilhões. É uma cifra bem menor que os US$ 47 bilhões da avaliação de 2019. No entanto, Sandeep Mathrani, que sucedeu Neumann na presidência e teve de cortar US$ 1,6 bilhão em custos, foi pragmático. “Às vezes você não escolhe o caminho, é o caminho que escolhe você.”

A WeWork não é um exemplo isolado. Os juros baixos e a liquidez elevada estimularam os Spacs no ano passado. Em 2020 foram realizadas 248 aberturas de capital de Spacs, um crescimento de 320% ante 2019 e metade das aberturas de capital “convencionais” realizadas em Wall Street. A animação prosseguiu neste ano. No primeiro trimestre já ocorreram 296 lançamentos, captando US$ 96,6 bilhões.

IARA MORSELL

“A combinação entre a segurança legal e a agilidade para fazer aquisições vem garantindo bons resultados” Ermínio Lucci, CEO da corretora BGC Liquidez.

MERCADO BRASILEIRO Esse movimento começa a captar recursos de olho em empresas brasileiras. Os Spacs vêm sendo preparados para o mercado americano, onde há mais dinheiro disponível e um arcabouço legal que sustenta essas emissões. Um exemplo é o Spac Itiquira Acquisition, que captou US$ 200 milhões com uma emissão na Nasdaq no início deste ano. A meta da empresa, liderada pelo executivo carioca Paulo Gouvea, em parceria com um family office argentino, é investir em empresas brasileiras com alto potencial de crescimento, ou com uma pegada sustentável. “O Brasil tem histórias fantásticas de sucesso por lá”, disse Gouvea no lançamento.

Virão mais lançamentos por aí. Para o CEO da corretora BGC Liquidez, Ermínio Lucci, os investidores de mercados maduros, como o norte-americano e o europeu, vêm sendo atraídos pelos Spacs devido ao retorno potencialmente maior dessas emissões. “A combinação entre a segurança legal e a agilidade para fazer aquisições vem garantindo bons resultados”, disse Lucci. Os investidores apostam na capacidade dos gestores de encontrar boas oportunidades. Pelas regras, quem recebe os recursos tem, em média, 24 meses para fazer as aquisições. Se o investimento realizado for bem-sucedido, as empresa comprada tem suas ações listadas em bolsa, os recursos voltam ao Spac e o ciclo recomeça. No entanto, se os gestores não conseguirem fechar nenhum negócio, os investidores recebem seu dinheiro de volta, corrigido pelo rendimento dos títulos do Tesouro americano.

Ter acesso a dinheiro abundante por dois anos é o sonho de qualquer gestor brasileiro. Segundo o advogado especialista em direito societário Helder Fonseca, do escritório Guimarães e Vieira de Mello, isso só é possível porque as regras são claras. “Por enquanto, os brasileiros podem investir no mercado americano, que é bem regulado pela SEC e que dá toda a proteção aos investidores”, disse ele, referindo-se à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) americana. No entanto, ele avalia que isso é questão de tempo. “Tanto a B3 quanto a CVM já estudam formas para regular isso no País”, afirmou. No início do ano, a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) criou um grupo de executivos de bancos de investimento, de gestoras e que também reúne advogados de mercado de capitais para elaborar uma regulamentação para os Spacs brasileiros. A ideia é apresentar uma proposta à CVM, que pediu sugestões sobre o tema na audiência pública sobre as mudanças nas regras de ofertas de ações. A audiência começou em março, e deve receber comentários e sugestões até julho.

Mesmo que haja um arcabouço legal, porém, ainda deve demorar para que o mercado brasileiro se equipare ao americano nesse aspecto. A diferença é estimada em uma década. “Lá fora eles já convivem com juros baixos há mais tempo e a regulação é muito bem feita para garantir toda a operação. Mas aqui só ganharia espaço se fosse liderada por grandes gestores”, acredita o CEO da Veedha Investimentos, Rodrigo Marcatti.