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Chanceler alemã faz visita histórica ao campo de Auschwitz

A lembrança dos crimes nazistas é “inseparável” da identidade alemã – declarou a chanceler Angela Merkel, nesta sexta-feira (6), em sua primeira visita ao campo de extermínio de Auschwitz.

A visita coincide com a ascensão do antissemitismo e da extrema direita na Alemanha, assim como com o desaparecimento das últimas testemunhas dos horrores de Auschwitz, o que dificulta a transmissão da memória.

“Recordar os crimes, nomear seus autores e prestar uma homenagem digna às vítimas é uma responsabilidade que nunca pode parar. Não é negociável. E é inseparável do nosso país. Ser consciente desta responsabilidade faz parte da nossa identidade nacional”, disse Merkel, a primeira chefe de Governo alemão a visitar o icônico campo do Holocausto desde 1995.

Com a voz embargada, ela insistiu na importância de dar a Auschwitz “seu nome completo”.

Localizado na atual Polônia, o campo ficava em uma região “anexada em outubro de 1939 pelo Reich” e “administrada pelos alemães”. “É importante nomear claramente os criminosos. Nós, alemães, devemos isso às vítimas e a nós mesmos”, frisou.

Em seu discurso, Merkel alertou contra “a ascensão do racismo e a disseminação do ódio”, além do antissemitismo que ameaça comunidades judaicas na Alemanha, na Europa e em todo mundo.

No início da manhã, Merkel atravessou o portão do campo de concentração, onde ainda há o sinistro slogan nazista: “Arbeit macht frei” (“O trabalho liberta”).

A chanceler estava acompanhada do primeiro-ministro polonês, Mateusz Morawiecki; de Stanislaw Bartnikowski, um sobrevivente de Auschwitz de 87 anos; e de representantes da comunidade judaica.

Falando antes de Merkel, Bartnikowski deu um testemunho comovente. Deportado aos 12 anos com sua mãe, sentiu-se humilhado quando foi forçado a se despir em meio a uma multidão de mulheres, também nuas.

Ele lembra que perguntou aos prisioneiros quando seriam libertados. E recebeu a resposta dos kapos, os prisioneiros promovidos a guardas auxiliares: “há uma única saída para a liberdade, a que passa pelas chaminés” dos crematórios.

O primeiro-ministro polonês ressaltou, por sua vez, que as testemunhas dos crimes cometidos em Auschwitz estão desaparecendo.

“Somos ainda mais obrigados a preservar a memória. Porque se a memória desaparece, é como se feríssemos pela segunda vez as pessoas que viveram o inferno aqui, que atravessaram sofrimentos indescritíveis”, alegou.

– “Aumento do racismo” –

Na quinta-feira, Merkel anunciou a concessão de 60 milhões de euros à Fundação Auschwitz-Birkenau para a manutenção do local onde mais de 1,1 milhão de pessoas foram mortas entre 1940 e 1945.

A maioria morreu pouco depois de chegar ao campo de concentração e extermínio nazista, localizado na atual Polônia.

A visita da chanceler, nascida nove anos após a Segunda Guerra Mundial, ocorre pouco antes da comemoração do 75º aniversário da libertação de Auschwitz pelo Exército Vermelho russo, em 27 de janeiro de 1945.

Merkel observou um minuto de silêncio em frente ao Muro da Morte, onde dezenas de milhares de detidos foram fuzilados, e visitou Birkenau, a três quilômetros do campo principal.

Na Alemanha, a memória do Holocausto está no centro da reconstrução de sua identidade pós-guerra, mas as autoridades estão preocupadas com o aumento de atos antissemitas.

Ontem, a chanceler reiterou que a “luta contra o antissemitismo e contra todas as formas de ódio” é uma das prioridades de seu governo.

Em outubro, um ataque fracassado a uma sinagoga em Halle chocou o país. O autor, que matou duas pessoas aleatoriamente, é um jovem seguidor das teses negacionistas.

O partido de extrema direita AfD, que entrou no Bundestag (Parlamento) há dois anos, defende o fim da cultura do arrependimento.

– Últimas testemunhas –

O nome de Auschwitz se tornou um símbolo do mal absoluto. Judeus de toda Europa, da Hungria à Grécia, foram exterminados neste lugar.

Muitos detidos, incluindo crianças, foram submetidos a experiências hediondas pelo dr. Josef Mengele, o “Anjo da Morte”. Também neste campo, que continha três câmaras de gás e quatro crematórios, o gás Zyklon B foi usado pela primeira vez, em 1941.

Para o presidente do Conselho Judaico Central da Alemanha, Josef Schuster, “não há outro lugar de memória que mostre tão nitidamente o que aconteceu no Holocausto”.

“O assassinato industrial em massa continua a abalar os visitantes”, disse Schuster à AFP.

Mas as últimas testemunhas dessa infâmia humana, conhecidas ou menos conhecidas, estão desaparecendo.

Leon Schwarzbaum, de 98 anos, e um dos últimos sobreviventes vivos, lembra as “chaminés que cuspiam fogo quando as pessoas eram queimadas e os gritos horríveis” das vítimas durante o extermínio dos ciganos em agosto de 1944.

Antes de Merkel, seus antecessores Helmut Schmidt, em 1977, e Helmut Kohl, em 1989 e 1995, visitaram Auschwitz.

Em 14 anos no poder, a chanceler visitou Ravensbrück, Dachau, Buchenwald e o Museu do Holocausto Yad Vashem em Jerusalém.

Em 2008, foi a primeira chefe de Governo alemão a proferir um discurso no Knesset, o Parlamento de Israel. Na ocasião, lembrou a “vergonha” que mancha os alemães.

Há 23 anos, o dia 27 de janeiro é a data de Recordação das Vítimas do Nazismo na Alemanha.

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