Negócios

Chaim volta para a escola

Depois de vender sua participação na Estácio e embolsar R$ 430 milhões, um dos principais investidores do setor de educação redireciona o foco para o ensino básico

Como um bom libanês, Chaim Zaher é um hábil negociador. Com apenas seis anos e recém-chegado ao Brasil, ele aprendeu os primeiros macetes dessa arte ajudando o pai, Zein, no trabalho como mascate. Já adulto, colecionou tacadas ousadas que o levaram do primeiro emprego, como bedel em um cursinho, ao posto de um dos maiores nomes do setor de educação no País, com o grupo Sistema Educacional Brasileiro (SEB). Em junho de 2016, esse talento veio novamente à tona quando o tomou a frente das conversações para a fusão da Estácio com a Kroton. O empresário era o maior acionista individual da Estácio, com uma fatia de 14,13%.



O negócio criaria uma gigante do ensino superior. Conhecido por seu ímpeto por aquisições, Rodrigo Galindo, CEO da Kroton, acabou cedendo às condições impostas por Chaim, mais favoráveis aos aconistas da Estácio do que os termos propostos inicialmente. Depois do veto à transação pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), há cerca de um mês, a expectativa era de que Chaim buscaria assumir o controle da Estácio. No dia 17, porém, ele vendeu boa parte de suas ações para a gestora de private equity Advent, reduzindo sua fatia a 1,25%.

Com o acordo, embolsou cerca de R$ 430 milhões. E, com o caixa reforçado, vai voltar a priorizar o segmento no qual fez boa parte de sua fama: a educação básica. “Vou aplicar tudo no meu negócio”, diz Chaim. Ele já vinha buscando parceiros para a expansão do SEB, que faturou R$ 600 milhões, em 2016. “Minha ideia é investir em todos os segmentos da educação básica.” Um dos principais e mais recentes projetos é o lançamento de uma bandeira com mensalidades mais acessíveis, na faixa de R$ 500 a R$ 600.

Fruto de pesquisas que vêm sendo realizadas há mais de um ano, a iniciativa prevê a montagem de quatro escolas já em 2018. A princípio, a capital paulista e cidades do interior do estado, como Sorocaba, receberão os primeiros colégios. Em cinco anos, a meta é ter ao menos uma unidade em cada capital. A estratégia da nova marca poderá combinar crescimento orgânico e aquisições. O grupo está perto de fechar três aquisições em segmentos nos quais já atua. A primeira, em Florianópolis, abrigará um colégio voltado à aprovação para o vestibular.

As outras duas, no Recife e no Rio de Janeiro, receberão unidades do Pueri Domus, focado em alunos de maior poder aquisitivo. A capital carioca é também um dos próximos pontos no mapa da Concept, bandeira lançada nesse ano, em Ribeirão Preto (SP) e Salvador. Aposta de vanguarda do grupo e com mensalidades entre R$ 7 mil e R$ 8 mil, a escola bilíngue investe em uma metodologia baseada em conceitos como criatividade. Além do Rio, a Concept chegará a São Paulo, em 2018. E já tem um terreno adquirido para a construção de uma unidade no Vale do Silício.

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Os investimentos no exterior também incluem a Maple Bear, rede canadense de escolas bilíngues. Desde fevereiro, Chaim é o principal franqueador da marca na América Latina. Um dos planos é abrir uma unidade em Beirute, no Líbano. No Brasil a estratégia da bandeira passa pelo lançamento de uma escola trilíngue, em São Paulo. Com ensino em português, inglês e árabe, o projeto deve contar com a parceria do Monte Líbano, tradicional clube da comunidade árabe na capital paulista. “Tenho que me defender dos predadores”, diz o empresário. “Agora, todos estão descobrindo essa galinha dos ovos de ouro.”

Vanguarda: com um método baseado em criatividade, a Concept é uma das apostas de Chaim para diferenciar o SEB no mercado (Crédito:Felipe Gabriel)

Com uma receita estimada de aproximadamente R$ 55 bilhões, ao segmento de educação básica vem sendo apontada como a próxima fronteira de consolidação do setor no País. Por trás dessas projeções está o interesse crescente de fundos e empresas estrangeiras, como a Avenues, escola infantil e de ensino fundamental com mensalidades na faixa de R$ 7 mil e que lançou, neste ano, em São Paulo, sua primeira unidade fora dos Estados Unidos. O segmento também vem atraindo cada vez mais grupos brasileiros, como a própria Kroton, que já atua nessa vertente, mas com maior presença em sistemas de ensino. “Chaim está um passo à frente, pois já trabalha com novas ideias e modelos há muito tempo”, diz Carlos Antonio Monteiro, CEO da CM Consultoria, especializada em educação. “Agora, com mais tempo para se dedicar ao grupo, ele vai conseguir colocar muitos desses planos em prática”, afirma o especialista.

A “volta” à educação básica não significa que o ensino superior será deixado totalmente de lado por Chaim. Um dos braços do SEB no setor é a Dom Bosco, em Curitiba, que acaba de aprovar um plano de expansão de 150 polos de ensino a distância. No entanto, o empresário admite que sua grande aposta residia, de fato, na Estácio. “Saí frustrado, porque o grupo tem potencial para ser uma nova Kroton”, diz. Ele conta que, após o veto do Cade, sua ideia inicial era ampliar a participação na companhia.

Para isso, passou a buscar investidores, com a ciência de João Cox, presidente do Conselho de Administração da Estácio, indicado ao cargo pelo próprio Chaim. A medida seria também uma forma de evitar novas ofertas hostis pela empresa. O projeto incluía ainda o seu retorno ao conselho, onde pretendia desempenhar um papel mais estratégico. “Toda empresa precisa de um acionista de referência. O ‘dono’ pensa dez, vinte anos à frente, enquanto o executivo pensa no curto prazo.”

O plano ficou próximo de se concretizar quando ele passou a negociar uma composição com a Advent. Investidora da Kroton entre 2009 e 2013, a gestora vinha comprando pequenas fatias na Estácio. A estratégia da dupla esbarrou, porém, em uma reforma do estatuto do grupo, formulada pelo conselho. O principal ponto foi a cláusula, já existente, de “poison pill”. Ela estabelecia que qualquer acionista que atingisse 20% de participação na Estácio seria obrigado a fazer uma oferta aos demais acionistas. Entre outras questões, a nova proposta tornava obrigatório um ágio de 30% nessas transações.

Outra questão foi a aprovação da entrada do grupo no segmento de ensino médio, o que impedia o retorno de Chaim ao conselho, por conflito de interesses. “Na prática, o que foi proposto foi uma ‘Chaim Pill’”, diz o empresário, que se viu diante de um impasse: ir para a briga na assembleia marcada para o dia 31 de agosto, que irá analisar a reforma, ou vender suas ações à Advent, que definiu como prazo máximo para uma resposta a quarta-feira anterior à conclusão do acordo entre as duas partes. “Não queria me desgastar. Fiz um bom negócio e a Advent vai fazer muito bem para a Estácio.”

Procurado pela DINHEIRO, o grupo carioca não quis se manifestar. “O Chaim entra sempre para ser protagonista”, diz Monteiro, da CM Consultoria. “Quando percebeu que não teria voz ativa, ele achou melhor dar passagem para um fundo que já provou sua competência no setor.” Em setembro, Chaim cortará seus últimos laços com o grupo. O mês marca o fim do prazo das ações alugadas, que representam sua fatia restante na operação. “Vou zerar minha participação”, afirma o empresário. “Não quero mais ter preocupação com os humores do mercado. Minha única obrigação agora é dar satisfação aos meus alunos e seus pais.”


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