Negócios

Centauro veste Nike

Grupo SBF, controladora da rede varejista, assume oficialmente a operação da marca americana por R$ 1 bilhão, adota formato de ecossistema do esporte e se transforma em companhia de R$ 6 bilhões.

Crédito:  Alexandre Schneider

UNIÃO DAS ESTRUTURAS Para Pedro Zemel, CEO do grupo SBF, a compra da Nike vai garantir sinergia com a Centauro, com redução de custos e mais rentabilidade. (Crédito: Alexandre Schneider)

Dizer que a companhia de varejo esportivo Centauro ‘apenas fez’ em 2020 pode parecer pouco para um grupo que enfrentou uma maratona. Mas foi exatamente isso. ‘Apenas faça’ é o significado de Just Do It, slogan global da gigante Nike, que desde o dia 1º de dezembro passou a ter a operação brasileira sob comando do grupo SBF, controladora da Centauro. A aquisição foi concretizada por R$ 1,03 bilhão, justamente num momento em que a rede consolida a retomada nas vendas após o tombo provocado pela pandemia. A proposta, a partir de agora, é criar sinergia entre as duas, reduzir custos e aproximar os canais de vendas. “As duas empresas têm potenciais de crescimento interessantes, por caminhos diferentes”, disse Pedro Zemel, CEO do grupo SBF. “Vou poder prestar um serviço melhor para os consumidores de nike.com, aproveitando a estrutura da Centauro. O cliente comprará no site e vai retirar na Centauro”, afirmou. Com a aquisição, o grupo mais que dobra de tamanho e passa a ser uma companhia de R$ 6 bilhões.

Na operação, estão incluídos o controle das 26 lojas físicas da Nike no País e da plataforma digital nike.com durante o período de dez anos, renováveis, além da distribuição exclusiva dos produtos da marca. Em 2019, a Nike Brasil, que tem base de 2 milhões de clientes em mais de 4 mil pontos de vendas, faturou R$ 2 bilhões. O próximo resultado da unidade brasileira já entrará no balanço do grupo SBF do quarto trimestre. A Centauro registrou, no terceiro trimestre de 2020, receita líquida de R$ 569 milhões, queda de 8,4% sobre os R$ 621 milhões apurados no mesmo período de 2019. Quando analisados os resultados de janeiro a setembro, a queda é maior. A empresa faturou 22,4% a menos, com R$ 1,31 bilhão nos primeiros nove meses de 2020, ante R$ 1,69 bilhão no período do ano anterior. No entanto, a empresa vem registrando crescimento significativo desde que todas as suas 209 lojas passaram a estar com as portas abertas. Em outubro, o crescimento foi de 17,5% em relação ao mesmo mês do ano anterior. Em números históricos, o bolo do faturamento corresponderia a 60% para a Centauro e 40% para a Nike.

ATIVO ESPORTIVO As 26 lojas físicas da Nike e o site da companhia no Brasil faturaram R$ 2 bilhões em 2019; desde dezembro o controle passou para o grupo SBF. (Crédito:LUFE GOMES )

ECOSSISTEMA Mas o grupo quer muito mais do que crescer no pós-crise. A chegada da Nike é a passada larga de corredor que faltava à dona da Centauro para se transformar em um ecossistema do esporte. Na prática, isso significa criar uma rede de interesse para atrair o consumidor antes mesmo da decisão de se tornar, de fato, cliente. Para garantir esse engajamento, a rede comprou recentemente, por R$ 60 milhões, a empresa de conteúdo digital NWB, dona de canais como Desimpedidos, Acelerados, Falcão 12 e Fatality, além de outros que somam cerca de 80 milhões de seguidores no Instagram e 73 milhões de inscritos no YouTube. Desde 2013, a rede de mídias digitais soma mais de 10 bilhões de visualizações em seus canais. E é exatamente esse ponto que interessa à dona da Centauro. “A ideia é que a gente conheça essa audiência, com nível de proximidade muito maior do que qualquer um que apenas queira vender seja capaz”, disse Zemel. No exemplo de um corredor de maratona, a engrenagem do grupo consiste em oferecer conteúdo e conhecer as preferências desse público. Nesse contexto, a venda do produto é consequência de uma rede de conexão.

Ainda que com a sinergia em curso, a entrada da Nike não significará, necessariamente, mais produtos da marca esportiva nas lojas da rede que tem como marca uma pista de corrida desenhada em suas lojas. Ao contrário. Tênis, uniformes da Seleção Brasileira e peças da Nike representam entre 20% e 25% do faturamento da Centauro. “A independência da rede, que é multimarcas, é fundamental. A Centauro precisa da Adidas, da Puma, de outras marcas para ser bem sucedida”, afirmou o CEO do grupo SBF. “Seria muito pequeno comprar a Nike pensando só na Centauro. Não há intenção de aumentar essa participação na rede.”

A concretização do negócio ocorre pouco mais de um ano após a Centauro perder a disputa para a Magazine Luiza pela compra da Netshoes. Na ocasião, a companhia de Luiza Helena Trajano pagou US$ 115 milhões pelo portal de vendas de tênis. E é justamente no comércio on-line que a Centauro registrou salto no crescimento, principalmente durante o auge da pandemia. E vem se mantendo. O aplicativo da varejista, por exemplo, cresceu 52% no terceiro trimestre.

RETOMADA NAS VENDAS Com 209 unidades, a Centauro cresceu 17,5% na receita em outubro, em comparação ao mês de 2019. (Crédito:Marcelo Pereira)

Para o executivo da companhia, o digital será ainda mais interligado com o off-line. Hoje, cerca de 50% que é vendido no site da Centauro é servido por uma unidade física, onde o cliente termina a compra na internet e retira na loja. Essa conexão agora também deverá ocorrer com o portal da Nike, que ainda não oferece esse serviço. A ideia é unir o sistema de logística. “A gente consegue colocar o supply chain misturado com o da Nike, por isso temos a possibilidade de uma oferta muito competitiva”, disse Zemel. “Do ponto de vista da rentabilização, a sinergia será grande.”

RITMO Com posição de caixa de R$ 1,5 bilhão ao fim do terceiro trimestre, o grupo SBF utilizou parte desse recurso para a aquisição da marca americana no País. O final positivo da negociação, com a aprovação definitiva do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), refletiu nas ações da Centauro. O papel fechou em R$ 26,56 no 30 de novembro e saltou 7,49% no pregão seguinte, data do anúncio da conclusão da compra, a R$ 28,55. Na terça-feira (26), a ação foi negociada a R$ 25,08. O analista Ruben Couto, do Santander, afirmou, em relatório, que a companhia deve manter neste ano o ritmo de crescimento dos últimos meses. “Combinada à chegada da Nike, o valuation razoável das ações promete um ganho de 17% até o final do ano.”

Se por um lado a estratégia da compra da Nike é encarada como um gol de placa – ou uma conquista de medalha na maratona –, também mostra, na avaliação do vice-presidente da Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo (SBVC), Alberto Serrentino, a diminuição no interesse da marca global em investimentos no País. “Para a Centauro, foi um grande movimento, mas é triste ver a Nike perdendo o interesse na operação do Brasil. É um sinal claro para médio prazo”, disse. “Ter esse ativo no Brasil é muito estratégico e dá um combustível muito forte para o modelo de negócios da Centauro.” A questão é como a companhia irá chegar ao fim da maratona, se pronta para a próxima corrida de rua ou com a necessidade de recuperar fôlego. Pelo ritmo, há muita linha de chegada para ser cruzada em 2021.

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