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Cego pelo fanatismo, Brasil de Bolsonaro não se enxerga

Por qualquer indicador social, econômico e ambiental, o retrocesso do país é alarmante. Além de aniquilar conquistas recentes, gestão desastrosa coloca o futuro do país em risco.

Cego pelo fanatismo, Brasil de Bolsonaro não se enxerga

Por falta de uma imagem melhor para abrir este artigo, recorro a um surrado clichê: contra fatos não há argumentos. Ainda mais quando os fatos podem ser quantificados e comparados. Um retrato do Brasil atual publicado pelo jornal O Globo no domingo (19) a partir de indicadores econômicos e sociais fornecidos em sua maioria pelo IBGE e pela FGV revela que recuamos em quase todas as dimensões mensuráveis. Em alguns casos, o retrocesso é de anos. Em outros, de décadas. O PIB está no patamar de 2013. A evasão escolar dos 5 aos 9 anos é a mesma de 2012. A renda média dos trabalhadores equivale hoje à de 2011. A proporção de brasileiros na pobreza voltou à de 2010. E o número de pessoas que passam fome, 33 milhões, já supera o de 1992. Soma-se a isso uma escalada recorde no desmatamento da Amazônia. Em 2012, a área de floresta derrubada somou 4,571 mil km2. Em 2021, quase o triplo: 13,235 mil km2. Estamos sem dinheiro, sem comida, sem educação — e praticamente sem futuro.

Nada disso aconteceu por acaso. Na Amazônia, a destruição ocorre de forma intencional por meio de um pacto entre o governo Bolsonaro e criminosos que o apoiam com motosserras e armas. Em texto publicado no blog da editora Companhia das Letras, em fevereiro deste ano, bem antes dos assassinatos do indigenista Bruno Pereira e do jornalista britânico Dom Phillips, o escritor Claudio Angelo fez um diagnóstico preciso: “A economia da fronteira amazônica só prospera porque é enormemente subsidiada. A terra é de graça; os nutrientes do capim que engorda o boi são de graça; e os efeitos climáticos do desmatamento, a mãe de todas as falhas de mercado, não são abatidos do preço da arroba de carne nem da saca de soja (…) e a teta nunca foi tão generosa quanto na era Bolsonaro”. A conta do “subsídio” vem na forma de secas que reduzem os reservatórios de usinas hidrelétricas e nos obrigam a pagar uma tarifa extra pela escassez hídrica. Ou nas enchentes como as que mataram mais de uma centena de pessoas nos estados de Pernambuco e Alagoas no final de maio.

O desprezo do atual governo em relação à ciência é aviltante sob qualquer aspecto, mas se torna trágico quando o recorte se dá no âmbito do clima. O incentivo ao desmatamento e ao garimpo ilegais repele investimentos estrangeiros, faz do Brasil um pária global e torra bilhões de dólares que a economia verde poderia proporcionar. Retornar aos níveis de desmatamento da Amazônia de uma década atrás é péssimo para a saúde do planeta, e tão ruim quanto para a economia brasileira.

Em 2006, o Brasil ocupava a décima posição no ranking global do PIB, com US$ 1,1 trilhão. Em 2011, ao atingir US$ 2,6 trilhões (mais que o dobro em apenas cinco anos), o PIB brasileiro foi o sexto maior, superando o do Reino Unido. Só ficamos atrás de França, Alemanha, Japão, China e Estados Unidos. Em 2021, com US$ 1,6 trilhão, saímos do Top 10. Parte dessa queda se deve à pandemia. Ela afetou todos os países , mas por aqui os estragos do negacionismo foram dos mais tenebrosos. Até a noite da terça-feira (21) havíamos perdido 669.436 vidas, com 31,82 milhões de casos confirmados. Em janeiro de 2021, um estudo global do think tank australiano Lowy Institute analisou a gestão da pandemia em 98 países. O Brasil ficou em último lugar. Isso tem um preço. E ele está sendo cobrado com juros na casa de 13,25% ao ano.

Uma projeção sobre os resultados do PIB global para 2036, feita com base em dados do Banco Mundial, coloca o Brasil na nona posição, com US$ 4 trilhões, acima da Rússia, Canadá e Coreia do Sul. Parece promissor, ainda mais quando se leva em conta que voltamos ao patamar de 2013. Mas há um dado interessante nessa projeção. Até 2035, o PIB mundial terá dobrado. E a China, sozinha, responderá por US$ 55,1 trilhões — cerca de 20 vezes a soma de suas riquezas em 2006. O Brasil jamais teve um crescimento chinês e qualquer comparação nesse sentido será sempre fajuta. O ponto aqui é outro. Estamos andando para trás em ritmo acelerado. Não conseguimos desatar os nós que travam o desenvolvimento, a começar pela educação. Sem política industrial, a produção de bens de consumo duráveis voltou ao nível de 18 anos atrás. E isso não será superado enquanto perdurar uma inflação de 11% ao ano, que corrói o poder de compra, posterga investimentos e conduz à recessão. Que há uma crise global, não resta dúvida. Mas se os dados sobre o Brasil são piores hoje que os dos demais países, isso se deve à incompetência ou à estupidez de quem nos governa. Ignorar essa realidade só pode ter uma explicação: o fanatismo que impede uma parte dos brasileiros de enxergar o País em que vive.

Celso Masson é diretor de núcleo da DINHEIRO