Semanal

Carta aberta de Bolsonaro: mentiras sinceras interessam ao mercado

Crédito: Marcello Camargo / Agência Brasil

O presidente Jair Bolsonaro, que divulgou sua "Declaração à Nação": o mercado entendeu o gesto como uma bandeira branca e espera que a paz seja mantida (Crédito: Marcello Camargo / Agência Brasil)

Depois de vivenciar uma verdadeira ressaca após o episódio golpista de Jair Bolsonaro no dia 7 setembro, o mercado financeiro resolveu engolir a “Declaração à Nação” assinada pelo atual presidente (mas redigida pelo ex-mandatário Michel Temer). E o efeito foi imediato: o Ibovespa subiu 1,78% após o tombo do dia anterior e o dólar caiu 1,96%.

Ainda que uma boa parcela do Legislativo e do Judiciário tenha aceitado o recuo de Bolsonaro com ressalvas, o mercado entendeu o gesto como uma bandeira branca, e espera que a paz seja mantida – pelo menos até o próximo rompante do Messias.

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Analistas consultados pela reportagem afirmaram que o motivo do fôlego, além da carta, foi a sinalização de arrefecimento da greve dos caminhoneiros que. “A inflação subiria e o abastecimento da indústria e.do comércio desidrataria a retomada da atividade econômica”, disse Leonardo Vieira Bagarollo, professor de finanças aplicadas da Universidade Federal do ABC. Na greve da categoria, em 2018, a produção industrial encolheu 10%.



Outro ponto que pode ter aliviado os agentes do mercado foi a perspectiva de retomada de pelo menos parte da agenda liberal do governo, em especial a solução para os precatórios. Essa perspectiva, porém, segue embrionária, já que depende de um acordo costurado com o Supremo Tribunal Federal e o Supremo Tribunal de Justiça.

E ainda que o acordo aconteça e viabilize os recursos que Bolsonaro busca para financiar a nova versão do Bolsa Família em ano eleitoral, a verdade é que o mercado finge não ver que projeto de poder de Bolsonaro nunca envolveu as grandes reformas econômicas defendidas pelo ministro da Economia, Paulo Guedes. Em 2018, quando dizia que iria “mudar tudo que tá aí” caso virasse presidente, Bolsonaro falava a verdade. Era evidente que ele tentaria deturpar a Constituição e a democracia no primeiro sinal de divergência.

No livro O Cadete e o Capitão – A Vida de Jair Bolsonaro no Quartel, do jornalista  Luiz Maklouf Carvalho, o coronel e ex-superior de Bolsonaro, Carlos Alberto Pellegrino aponta a dificuldade do capitão reformado em lidar com hierarquia. “[Ele] tinha a intenção de liderar os oficiais subalternos, no que foi sempre repelido, tanto em razão do tratamento agressivo dispensado a seus camaradas, como pela falta de lógica, racionalidade e equilíbrio na apresentação de seus argumentos”.

Segundo um militar de alta patente que conversou com a reportagem, “a passagem de Bolsonaro no Exército foi um exemplo claro do que ele é hoje: insubordinado, mimado, intrépido e paranoico.”

Povo com Bolsonaro? Se agentes do mercado tentam não olhar a constante incitação ao golpismo de Bolsonaro por uma escolha financeira, ainda resta entender porque parte da população optou por abstrair os problemas econômicos e marchar ao lado do capitão. Célia Gaspar Toledo, PhD em psicologia social e  pesquisadora do comportamento da massa de manobra tem se dedicado ao assunto. Historicamente, o termo “massa de manobra” (criado pelo sociólogo Pierre Bourdieu) se define pela dominação de um determinado grupo que aceita uma ideologia terceirizada e se anula enquanto ser histórico. Por muitos anos essa estratégia de condução moveu cultos, religiões, presidentes populistas e até revoluções armadas da direita e da esquerda.

Na era da internet, esse comportamento continua existindo, mas com novos contornos. “Ao invés de anular a capacidade crítica da massa, a internet dá às pessoas a falsa sensação de domínio do conhecimento, então acredita em fake news [como a fraude nas urnas eletrônicas] faz o cidadão se sentir parte da história”, disse. Essa relação é chamada de viés de confirmação e se caracteriza pelo empoderamento da desinformação, garantindo um espaço frutífero para quem se propõe a produzir conteúdo falsos ou distorcidos mas que são “alinhados” com as “convicções” de uma parcela da sociedade civil. Esse ambiente, potencializado pela frustração política, cria uma cortina de fumaça que envenena a economia e mingua a democracia.

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