Estilo

Campari. O mundo em vermelho

Grupo italiano aposta na mistura de bebidas para ganhar mercado pelo Brasil no verão.

Crédito: Fernando Ctenas

VERSÁTIL Um senhor de mais de 160 anos, Campari invade a coquetelaria para ganhar combinações e novos adeptos. (Crédito: Fernando Ctenas)

Todo apreciador do mundo da bebida respeita o Campari. Ele está para o universo etílico como um grande pintor está para o mundo das artes. É único. Com a diferença de que continua vivo. Vivíssimo.

O que não é pouco para uma marca que tem mais de 160 anos — nasceu em 1860, um ano antes da própria unificação da Itália, que é de março de 1861. O sabor amargo e o tom avermelhado intenso são características indefectíveis da bebida feita a partir da infusão de 60 ingredientes. Uma fórmula secreta criada três décadas antes de a Coca-Cola nascer, mas que no mercado brasileiro enfrenta um desafio.

Mesmo tendo caído no gosto de gerações por aqui, precisa perder um pouco a percepção de que se trata de bebida para gente mais velha. Para isso vai usar uma onda forte entre millenials, a da coquetelaria. “Dentro do segmento de spirits (destilados), somos o player número 1 em mixologia”, afirmou à DINHEIRO Gustavo Rela Bruno, diretor-geral da bandeira no País.

O Grupo Campari — que ainda possui outros dois ‘velhinhos’ respeitados, Cinzano e Cynar — aposta em suas bebidas como base nos drinques para ganhar mercado em 2022. Serão investidos “25% acima do nosso histórico”, disse o executivo, sem citar números consolidados.

Ele acredita em um verão cheio de cores, sabores e tendências nas mesas dos bares e restaurantes na retomada dos negócios no pós-pandemia. Além da temperatura elevada, a alta cotação do dólar em reais é vista como importante aliada. “O dólar é um fator limitador, que vai fazer os brasileiros não viajarem internacionalmente”, afirmou. “Principalmente a classe AB, que já tem contato com a mixologia.”

CELEBRAR Na avaliação de Rela Bruno, as pessoas vão ficar no Brasil e consumir mais os produtos do portfófio do grupo, que detém ainda marcas como Aperol (aperitivo), Sagatiba (cachaça), Skyy (vodca) e Wild Turkey (uísque), e outras 50 entre destilados, vinhos e refrigerantes. Para ele, outro ponto importante é a confiança de dias melhores com o avanço da vacinação contra a Covid-19 — até terça-feira (14), 75% da população havia recebido a primeira dose e 65,6%, as duas doses. “Depois de quase dois anos enclausurados, os brasileiros querem celebrar, querem brindar.”

O executivo já identifica esse retorno com o aumento de consumo dos produtos da companhia em patamares superiores aos de antes da crise sanitária. “Vemos Campari e Aperol com crescimento dois dígitos acima de 2019”, disse. O volume total de vendas do grupo Campari deve crescer por aqui, na previsão dele, acima da média do mercado, de 10,6% na comparação com 2020, de acordo com a IWSR, empresa de análise do setor de bebidas. Para Rela Bruno, a mixologia está sendo consolidada no mercado brasileiro.

E nisso ganha junto uma dupla decisiva de stakeholders em seu ecossistema, os bares e restaurantes. A mistura de bebidas é uma forma de trazer margem adicional. “Se você pega uma cachaça em um bar, custa R$ 1. Se você pega o Cynar, custa R$ 1. Se misturar os dois e vender o drinque conhecido como Rabo de Galo, pode cobrar R$ 3,50”, afirmou. Confiante na tendência, a companhia criou o Campari Academy. “Damos cursos para construção da mixologia e também para consolidação técnica do bartender.”

A bandeira tem dois drinques entre os três mais consumidos no planeta: o Aperol Spritz, em segundo lugar, e o Negroni, em terceiro. A liderança pertence ao Gim Tônica. “As pessoas começaram a refletir que o Campari não é só para tomar puro, que o Aperol Spritz é para receber os amigos e que o Negroni é uma bebida mais introspectiva, para um momento mais individualizado.” Com outra descoberta, segundo ele, por parte dos consumidores: que a mixologia, a exemplo do que acontece com o vinho, harmoniza muitos pratos. “Tem muita comida com o drinque perfeito para acompanhar.” A depender da marca, ele espera ver o mercado no vermelho.

MARKETING DESDE SEMPRE, E ANTES DE TODOS

Gaspare Campari (1828-1882) criou aos 32 anos, em 1860, a bebida que leva seu sobrenome e ganhou o mundo. Ele tocava em um bar, o Caffè Dell’ Amicizia, em Novara. Um par de anos depois, já estava instalado junto à monumental Catedral de Milão, na Piazza del Duomo. Uma reforma na praça levou a um golpe de sorte e seu bar (o então Caffè e Ristorante Campari) se instalou na entrada da luxuosa Galleria Vittorio Emanuele II. Recebia artistas, intelectuais, empresários e políticos.

Todos movidos àquela bebida de vermelho intenso. Sucesso. Mas ele não seria o mesmo sem a genialidade de Davide (1867-1936), um de seus filhos. Aos 21 anos, em janeiro de 1889, foi quem decidiu publicar no jornal Corriere dela Sera, com circulação de 65 mil exemplares à época, um anúncio da bebida infusionada criada pelo pai.

Sob o título Cordial Campari, a peça prometia “uma delicadeza de aroma” em harmonização com “famosos licores estrangeiros, como (o francês) Chartreuse”. Puro branding, muito antes da Coca-Cola – que só nasceria em 1892. Cinco anos depois de seu primeiro anúncio, Davide inaugura o que se tornaria icônico para a marca: a cultura dos pôsteres. O primeiro (abaixo, à esq) foi feito pelo ilustrador italiano Giacomo Mora, em 1894, e retrata uma Milão pujante. Ali Davide teve a ideia de buscar artistas renomados para criar suas peças.

O primeiro grande nome foi o alemão (nascido na Rússia) Adolf Hohenstein, que acabou reconhecido como o pai da arte em pôster e um dos grandes nomes do chamado Stile Liberty, o Art Noveau italiano (segunda imagem abaixo). Nunca mais a Campari descolou a bebida do mundo da arte e da vanguarda criativa. Na virada do século 19 para o 20, Davide percebeu que seus pôsteres tinham se tornado objetos de culto e lançou um pioneiro calendário (terceira imagem abaixo).

Ficou a cargo do célebre retratista italiano Cesare Tallone — que chegou a pintar a rainha Margherita, a mesma que deu nome à pizza. Para a Campari, Tallone recheou o calendário com cantores, atrizes e outras celebridades da época. Mais um sucesso.

E assim foi. Desde movimentos como o Futurismo ao Grafismo, a Campari nunca mais se desvencilhou da arte. Em 1984, cinco décadas depois da morte de Davide, o cineasta italiano Federico Fellini (1920-1993) quebrou um tabu e dirigiu seu primeiro comercial de TV (abaixo, à dir). Colocou um homem e uma mulher num trem, dividindo a cabine num passeio entediante, que muda com a bebida. Só dura um minuto. E é mágico. Puro Fellini. Um puro Campari.
Edson Rossi

NEGRONI É OUTRO PATAMAR

Drinque italiano por excelência, o Negroni beira a perfeição entre amargor, doçura e álcool. E nasceu com pedigree. É neto, por assim dizer, do Milano-Torino, combinação de bitter (o milanês Campari) com vermute (o torinense Punt e Mes/Carpano).

Antes de ser criado, nos anos 1860, era muito comum aos lombardos beber amaro com soda. E aos piemonteses beber vermute com soda. Gaspare Campari, inventor do Campari, que nasceu em Novara, entre Turim e Milão, foi provavelmente dos primeiros a misturar vermute e amaro, sem a soda.

A bebida pegou. Décadas mais tarde, conta-se que soldados americanos achavam o Milano-Torino muito forte e pediam que se adicionasse água com gás. Nascia o drinque Americano. Filho do Milano-Torino e… Pai do Negroni.

Este é de Florença, criado no Bar Casoni. Ali, o conde Camillo Negroni, cansado da suavidade de seu Americano, pediu ao bartender Fosco Scarselli que deixasse a bebida mais forte. Scarselli trocou a soda por gim: Negroni. Era 1919. O mundo dos drinques mudou para sempre. Para a receita de três partes iguais assista no YouTube ao clipe da música Negroni, da banda punk feminina Quarteta. (https://bit.ly/3m7qIrr).
Edson Rossi