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Cadê o rendimento que estava aqui?

Os ativos de renda fixa perderam atratividade diante da taxa básica de juros mais baixa da história. Mas para o investidor que aceitar tomar um pouco mais de risco, há oportunidades


Diante do histórico de juros elevados, o brasileiro ficou mal-acostumado. Habituou-se a ganhar 1% ao mês com uma carteira formada somente por produtos da renda fixa, que são a base dos investimentos no País. Agora, a taxa referencial Selic está em 6,5% ao ano e deve permanecer nesse patamar por bastante tempo. Assim, é preciso buscar meios de chegar mais perto desse ganho do passado. A boa notícia para os investidores conservadores é que isso é possível sem ter de migrar para a renda variável. Mas, para isso, será preciso aceitar correr um pouco mais de risco. “Há boas oportunidades em crédito privado, que pagam taxas superiores às do CDI”, diz Sandra Blanco, consultora da plataforma de distribuição de investimentos Órama.

O momento está propício para diversificar a carteira. A melhora na atividade econômica e a diminuição de empréstimos subsidiados pelo governo incentivaram as empresas a buscar recursos no mercado de capitais. A opção preferencial tem sido a emissão de debêntures, que têm baixo custo. Não por acaso, os lançamentos de 2018 totalizaram o recorde de R$ 147 bilhões. “As pessoas físicas adquiriram 3% desse montante, o que significa R$ 4,3 bilhões”, diz Fábio Zenaro, diretor de Produtos de Balcão, Commodities e Novos Negócios da B3.

Energia: títulos de empresas de infraestrutura são isentos de Imposto de Renda (Crédito:iStock)

Parece pouco, mas é um avanço em relação aos anos anteriores, uma vez que esse mercado é tradicionalmente acessado por investidores institucionais, como bancos e fundos de pensão. “As plataformas de investimento facilitam o acesso do pequeno investidor a uma prateleira diversificada de produtos, inclusive as debêntures”, diz Zenaro. De olho na demanda, a Órama incluiu esses papéis em seu cardápio em março do ano passado. “A procura vinha aumentando gradativamente”, diz Blanco. Ela recomenda a compra das debêntures incentivadas que, por financiarem projetos de infraestrutura, são isentas de Imposto de Renda.

OPORTUNIDADES Um dos títulos dessa categoria mais atrativos é o da Ventos de São Jorge, empresa cearense com foco em energias renováveis. Com investimento inicial de R$ 1.488, essa debênture rende 5,5% ao ano mais a variação do IPCA. Os especialistas recomendam alguns cuidados nessa negociação. “Antes de comprar os títulos, o investidor deve sempre avaliar o histórico das empresas e o perfil de crédito”, diz Edson Hydalgo Junior, diretor comercial da Intrader DTVM. Há ferramentas que ajudam nessa avaliação, como a nota de crédito emitida pelas agência de classificação de risco no momento das emissões. A Fitch atribuiu à Ventos de São Jorge a nota “A”, o que significa que ela é boa pagadora. Outro fator de atenção é a falta de liquidez. “Esse é um desafio. Pois diferente do CDB, sair desse papel dá um pouco mais de trabalho”, diz Zenaro. “Geralmente é preciso apelar para o mercado secundário, o que podetrazer desvantagem financeira”.

Fábio Zenaro, diretor da B3: “A demanda por debêntures tende a crescer” (Crédito:Ana Paula Paiva/Valor)

Para aqueles que preferem contar com a experiência do gestor na escolha e avaliação das debêntures e fazem questão de alguma liquidez – geralmente mensal – os fundos são uma opção. Com R$ 100 é possível comprar, por meio de plataformas, uma cota do Devant Debêntures Incentivadas FIRF, administrado pela Devant Asset, que tem como objetivo render 110% do CDI e cobra uma taxa de administração de 1,3% ao ano. “A carteira é formada por 30 empresas, e uma das vantagens é o acesso a esses títulos, pois 90% deles estão disponíveis somente para o investidor qualificado”, diz Bruno Eiras, sócio e gestor da Devant.

Há também outras opções que oferecem rendimento superior ao CDI e são isentos de Imposto de Renda, como os Certificados de recebíveis Imobiliários (CRI) e os Certificados de Recebíveis Agrícolas (CRA). “Outra oportunidade são os CDBs de bancos pequenos, que pagam até 128% do CDI com vencimento de cinco anos”, diz Fabio Macedo, diretor comercial da Easynvest. Nesse novo cenário da renda fixa, os títulos do Tesouro deixam de ser uma opção para quem busca rendimento atrativo e se tornam apenas um instrumento para manter o valor da reserva de emergência, aquele dinheiro que representa seis meses de salário e deve ficar alocado em ativos que tenham liquidez.