Negócios

Cada um para o seu lado

Como o veto do Cade à fusão entre Kroton e Estácio, maior negócio da história do mercado brasileiro de educação, vai influenciar o futuro das duas gigantes e de outros grupos do setor

Crédito: Paulo Vitale  |  André Lessa (Istoé)  |  Divulgação

No páreo: maior acionista individual da Estácio, Chaim Zaher (à esq.) não descarta ampliar sua fatia na empresa. A Kroton, do CEO Rodrigo Galindo, já teria mudado o foco para aquisições de pequeno e médio porte (Crédito: Paulo Vitale | André Lessa (Istoé) | Divulgação)

Desde quando foi anunciada, em junho de 2016, a fusão entre a Kroton e a Estácio ficou sob os holofotes. Avaliada em R$ 5,5 bilhões, a união criaria uma gigante do ensino superior privado, com valor de mercado de cerca de R$ 30 bilhões, uma receita combinada de R$ 8,4 bilhões e uma base de 1,6 milhão de alunos. No entanto, o fato de o negócio figurar como o maior da história do mercado brasileiro de educação não foi o único ponto a chamar a atenção. Após meses de negociações para que os conselhos de administração das duas empresas aprovassem a fusão, uma série de episódios deixou claro que o caminho para que o casamento fosse sacramentado seria tortuoso.

A contestação de concorrentes e as extensas tratativas com o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) foram algumas das tramas paralelas desse roteiro. Os exemplos mais emblemáticos, porém, envolveram conflitos entre executivos, acionistas e conselheiros da Estácio. Maior acionista individual da companhia, com uma fatia de 9,7%, o empresário Chaim Zaher fez uma proposta para assumir o controle da Estácio. Outro capítulo dessa difícil parceria incluiu uma troca de e-mails no qual Pedro Thompson, CEO da Estácio, supostamente tramava contra o acordo. Seu antecessor, Gilberto Melzi, foi acusado de ter liderado a clonagem do computador do executivo e de ser o autor da denúncia anônima que trouxe o caso à tona. O caso acabou gerando um inquérito policial.

Na quarta-feira 28, essa novela da vida real chegou ao fim. Depois de quase sete horas de sessão, o acordo foi rejeitado pelo Cade, por cinco votos a um, sob a alegação de que as contrapartidas propostas pela dupla não resolveriam “os potenciais impactos concorrenciais identificados durante a análise da operação”. Em fato relevante, Kroton e Estácio informaram que, conforme previsto nos termos da transação, a aprovação “tornou-se sem efeitos”. Na prática, o negócio foi encerrado, sem multas e obrigações de ambas as partes. “A Kroton respeita a decisão final do órgão regulador em não aprovar a transação e, assim, as companhias seguem atuando de maneira independente”, escreveu a companhia liderada pelo CEO Rodrigo Galindo, em outro comunicado.

A postura não surpreendeu o mercado. Nos dias que antecederam a sessão, os rumores de que o acordo seria rejeitado eram crescentes. Porém, assim como o tom que marcou toda a negociação, a decisão dividiu opiniões. “O Cade fez justamente aquilo que a matemática manda”, diz um executivo do setor. Contudo, esse caráter estritamente técnico, pelo qual o órgão é conhecido, também foi colocado em xeque. O fato de o Cade ter sido citado nas investigações relacionadas à J&F, por conta de um suposto favorecimento em uma disputa da Âmbar Energia, uma das empresas da holding, com a Petrobras, teria influenciado o julgamento.“A decisão foi política. Eles precisavam reforçar sua imagem de seriedade”, diz outro executivo.

Em conversa com jornalistas após a fusão ser negada, João Paulo de Resende , conselheiro do Cade, recorreu ao relatório da Superintendência-Geral do órgão, divulgado em fevereiro e que já sinalizava o veto, para rebater a acusação. “Essa análise foi feita muito antes de qualquer escândalo. A reprovação era um curso natural do processo”, disse. O papel exercido pela Kroton na condução das negociações é outra questão controversa. A demora em apresentar contrapartidas ao Cade e a aposta no conhecido histórico de aquisições bem-sucedidas da empresa, como Anhanguera e Unopar, teriam sido os principais equívocos. “Eles não desdenharam do processo, mas também não achavam que o Cade seria tão duro na negociação”, diz um executivo do setor.

De volta ao jogo: a Ser Educacional, do CEO Jânyo Diniz, avalia uma nova investida na Estácio (Crédito:Léo Caldas / AE)

Uma fonte com conhecimento do processo afirma, porém, que a estratégia da Kroton foi esperar uma sinalização do Cade para, aí sim, definir sua proposta. E que essa oferta teria chegado ao limite, ao envolver a venda de ativos que representavam 258 mil alunos e boa parte da marca Anhanguera, de sua propriedade. “Nos últimos dias, a sensação deles era de que os remédios tornaram-se bastante amargos e de que o valor do negócio tinha ficado pelo caminho.” Com o acordo negado, agora, as atenções estão totalmente voltadas para os impactos da negociação frustrada e os próximos passos das duas companhias.

Um primeiro sinal da percepção do mercado foi dado no próprio dia do veto. Enquanto as ações da Kroton encerraram o pregão com uma alta de 5,67%, os papéis da Estácio fecharam com uma queda de 0,68%. À parte dessa reação inicial, o consenso é de que o novo cenário vai acelerar o processo de consolidação no setor. “A fusão tirou dois grandes players desse contexto no último ano. Agora, esse cenário está totalmente aberto”, diz uma fonte do setor. A dúvida, no entanto, é de qual será o papel da dupla e de outros atores nesse contexto.

E AGORA? A Kroton parece disposta a dar essa resposta ao mercado rapidamente. Na manhã seguinte à reprovação, a empresa realizou uma reunião de quatro horas com 70 diretores, que formam a cúpula da companhia, para começar a discutir o planejamento para o período de 2018 a 2020. Após o encontro, Rodrigo Galindo reforçou essa mensagem a outros 500 executivos por meio da TV Kroton. Conforme apurou a DINHEIRO, o principal impacto com a negativa do Cade é uma mudança na estratégia de aquisições. A ideia agora é focar os ativos de pequeno e médio porte, especialmente em regiões nas quais ela ainda tem pouca ou nenhuma presença, como Nordeste, Norte e Centro-Oeste.

“Esse modelo está sendo adotado para fugir justamente dos conflitos com o Cade”, diz uma fonte próxima à empresa. Outra frente que pode envolver aquisições e que ganhará peso é a educação básica. No segmento, a Kroton já atua na oferta de sistemas de ensino, com a bandeira Pitágoras. O plano é investir na gestão direta de colégios, um mercado que movimenta R$ 57 bilhões no País. “A Kroton tem uma posição de caixa confortável e esse segmento ainda tem muito espaço para consolidação”, diz Bruno Giardino, analista do Santander. Com uma receita de R$ 5,2 bilhões em 2016, a companhia encerrou o primeiro trimestre de 2017 com R$ 1,3 bilhão em caixa. “A Kroton nasceu nessa vertente e tem total condição de ser protagonista nesse processo.”

Já os rumos da Estácio, ao menos nesse primeiro momento, parecem longe de uma definição. Para alguns analistas, a preparação para a fusão fez com que a empresa, que faturou R$ 3,2 bilhões em 2016, alcançasse avanços em sua gestão. Especialmente no que diz respeito às políticas comerciais. “A Estácio deixou de ser tão agressiva em preços e descontos, e passou a privilegiar a rentabilidade”, diz Vinícius Ribeiro, analista do Brasil Plural. “A companhia arrumou a casa e ser uma consolidadora é um dos planos na mesa”, afirma uma fonte próxima à empresa. Em contrapartida, uma parcela do mercado entende que todos esses esforços tiveram como única finalidade a união com a Kroton.

E que o fato de a nova gestão estar há pouco tempo à frente da operação deixa a companhia ainda mais fragilizada para seguir com suas próprias pernas, o que a colocaria como um alvo a ser disputado no mercado. A lista dos candidatos a investir na Estácio inclui dois nomes que já tentaram adquirir o controle da operação no início da negociação da empresa com a Kroton. O primeiro deles é Chaim Zaher. Apesar de ressaltar que está mais focado na educação básica, segmento no qual atua por meio da SEB., com marcas como Pueri Domus e Dom Bosco, o empresário observa que encabeçar uma nova proposta é uma possibilidade. “Quero analisar como o mercado vai se comportar nas próximas semanas”, afirma. “Afinal, preciso proteger meu patrimônio.”

A Ser Educacional é outra pode voltar ao páreo. “Hoje, um ano depois da nossa proposta, tanto a Ser como a Estácio são companhias diferentes”, diz Jânyo Diniz, CEO da Ser Educacional. Com R$ 336 milhões em caixa e uma receita de R$ 1,12 bilhão em 2016, o grupo possui uma base de 160 mil alunos. “Mas vamos avaliar se é possível iniciar alguma conversa. No entanto, no curto prazo, vamos respeitar o momento deles.” À parte dessas movimentações, os analistas consultados pela DINHEIRO apontam um outro fator que deve trazer impactos para a Kroton e para a Estácio. Há duas semanas, o Ministério da Educação publicou uma nova portaria que regulamenta e acelera a oferta de cursos superiores na modalidade de ensino a distância (EAD).

Apesar da tendência de crescimento do “bolo” desse segmento, a perspectiva é de que a Kroton, líder em EAD, com 37,2% de participação, sofra consequências. “Hoje, muito da liquidez da empresa vem desse segmento. A concorrência vai aumentar e a tendência é que ela passe a ser mais baseada no preço”, diz Willian Klein, CEO da consultoria Hoper Educação. Em contraponto, ele enxerga boas perspectivas para a Estácio, dona de uma fatia de 9,3% nessa vertente. “Com o novo marco, a Estácio e outros players vão poder acelerar sua expansão. Para o bem e para o mal, esse é um mercado que as duas empresas terão de olhar com mais atenção.”