Negócios

C&A à moda da China

Varejista está na mira de investidores chineses e pode mudar de mãos após quase dois séculos. O movimento fortalece os planos da China de dominar o comércio global

Crédito: Shanghai Daily

Cultura oriental: loja da C&A na China, país em que a companhia busca aumentar sua presença, já que vem sofrendo com a forte concorrência na Europa (Crédito: Shanghai Daily)

A revelação de que a varejista de moda C&A, controlada pela holandesa Cofra Holdings, poderia mudar de mãos pegou o mercado de surpresa. Nem tanto pela lógica do negócio. Afinal, a empresa enfrenta um ambiente competitivo cada vez mais acirrado, cenário em que um aporte é sempre bem-vindo. O espanto está no fato de que a companhia está nas mãos da mesma família desde que foi fundada, em 1841. “Seria uma grande ruptura com a tradição”, escreveu a revista alemã Der Spiegel, que publicou a informação em primeira mão, no início da semana passada. No caso, a publicação refere-se aos Brenninkmeijer, clã de origem alemã, que se fixou na Holanda no século 19 e é o segundo mais rico do país germânico, atrás apenas dos Henkel. Até hoje, a família sempre negou qualquer intenção de vender a varejista, a origem do seu poderio econômico. Mas, quando se olha para os interessados em levar a companhia, percebe-se que uma transação do tipo faz todo o sentido.

De acordo com a Der Spiegel, citando fontes internas que pediram anonimato, investidores chineses é que estariam próximos de levar a C&A – o grupo em questão não foi revelado. Em nota enviada à DINHEIRO, a Cofra Holding não negou nem confirmou a informação. Ao mesmo tempo, afirmou que “deu início a um programa de transformação e crescimento”. Esse projeto abrange estudos sobre como acelerar os negócios em áreas prioritárias, no caso “a China, mercados emergentes e o digital”. Isso, potencialmente, “pode incluir parcerias e outros tipos de investimentos externos adicionais.” Tal abertura encontra o apetite de investidores chineses, que vêm buscando formas de expandir seus tentáculos para além dos setores de mão de obra intensiva, como indústria e commodities. “A China já tem um dos maiores varejistas online do mundo, o Alibaba, que, assim como a Amazon, está buscando entrar no comércio físico”, afirma Charles Tang, presidente da Câmara de Comércio Brasil China.

Novo perfil: o extrovertido Alain Caparros assumiu o comando da empresa na Europa, um indicativo de que a tradicional família Brenninkmeijer está disposta a fazer mudanças (Crédito:Divulgação)

Se, por um lado, a C&A está umbilicalmente ligada à identidade dos Brenninkmeijer, por outro, a varejista representa apenas uma pequena parcela dos negócios do clã. A maior parte da riqueza da família está vinculada à empresa imobiliária Redevco e ao fundo de private equity Bregal, responsáveis por € 18,5 bilhões de sua fortuna. Para o setor de vestuário global, no entanto, a empresa é relevante. A C&A possui mais de 2 mil lojas em 21 países e emprega cerca de 60 mil pessoas. Os dados financeiros são escassos, mas estima-se que o seu faturamento global seja da ordem de US$ 10 bilhões, o equivalente a R$ 32,1 bilhões, sendo que o Brasil responde por mais de R$ 5 bilhões. A empresa opera 270 lojas no País, onde atua há 40 anos.

Nos últimos anos, sua operação nacional, comandada por Paulo Correa, vinha passando por transformações. A estratégia é se desvincular do fast fashion, conceito que se baseia na capacidade de entregar as últimas novidades das passarelas o mais rápido possível ao consumidor, adotando um modelo ancorado em coleções atemporais e na ideia de sustentabilidade. Em 2016, no entanto, a C&A perdeu a liderança do varejo de moda brasileiro para a gaúcha Renner, ainda que por pouco: a Renner chegou a 5% de participação, ante 4,9% da C&A, segundo dados da consultoria Euromonitor.

Brasil: sob o comando de Paulo Correa, a C&A está revendo sua estratégia no País, deixando de lado o modelo do fast fashion (Crédito:Stefano Martini)

Esse cenário de concorrência acirrada é uma realidade na maioria dos mercados em que a C&A atua. Na Alemanha, por exemplo, o faturamento da companhia passou de € 3,09 bilhões, em 2011, para € 2,62 bilhões, em 2017, segundo a rede de notícias Deutsche Welle. As dificuldades estariam relacionadas ao avanço de empresas como a sueca H&M e a irlandesa Primark. Para tentar reverter a tendência, a Cofra Holdings decidiu mudar o comando da C&A na Europa: Alain Caparros assumiu no lugar de um dos herdeiros: Philippe Brenninkmeijer. “Estamos no meio de uma fase importante da nossa história”, afirmou Caparros, em carta aos funcionários divulgada pela Der Spiegel.

A chegada de Caparros já foi considerada uma importante mudança na postura dos Brenninkmeijer. Conhecido por sua personalidade extrovertida, o executivo, ex-presidente da rede de supermercados alemã Rewe, não parece ter o perfil da família. O clã, que tem cerca de mil membros, é considerado um dos mais misteriosos da Europa. Eles professam com veemência a fé católica, o que influencia em seu modelo de gestão. Até os anos 1990, mulheres não tinham permissão para atuarem em posições de comando. A frugalidade é outra marca da família, que raramente se deixa fotografar ou ser vista em lugares badalados. Mas, por maior que seja o conservadorismo, o futuro raramente é como se imagina. Neste momento, pode ser melhor para a C&A trocar o tradicionalismo europeu pelo modernismo chinês.