Negócios

A era do vegetal com sabor animal

Com o Rebel whopper, Burger King e Marfrig entram de cabeça no mercado de hambúrgueres à base de plantas — tendência que pode revolucionar o mercado global de alimentos. Outras empresas também estão de olho nesse consumidor que busca opções saudáveis

Crédito: Fotomontagem

Terça-feira, 3 de setembro. A cada tilintar dos ponteiros do relógio, um grupo de consumidores ávidos se forma à frente de um restaurante Burger King localizado no Itaim Bibi, bairro nobre de São Paulo. O dia é de festa. O motivo de tamanha comemoração, no entanto, seria algo inimaginável há pouco tempo para uma rede de fast food. O Burger King Brasil lançava o Rebel Whopper, um sanduíche de hambúrguer à base de vegetais, e a primeira centena de clientes que pediu o lanche na unidade pôde experimentá-lo de forma gratuita. A Marfrig Global Foods, maior produtora de hambúrguer animal do mundo, desenvolveu o produto por meio de uma parceria firmada com a companhia americana Archer Daniels Midland (ADM). “A Marfrig, maior fabricante global de hambúrgueres, tem tudo para liderar globalmente esse novo segmento de proteína similar à carne.

Na nossa história, sempre inovamos para atender a tudo o que os clientes querem. Em parceria com a ADM, conseguimos criar um hambúrguer 100% vegetal, com o verdadeiro sabor animal”, afirma Marcos Molina, fundador e presidente do conselho de administração da Marfrig. “É importante dizer que a parceria da Marfrig com a ADM é a única capaz de produzir no Brasil o hambúrguer vegetal em larga escala. Isso foi determinante para que o acordo que fizemos com o Burger King fosse concretizado”, diz Eduardo Miron, CEO da Marfrig.

Marcos Molina, controlador da Marfrig: “Como maior fabricante global de hambúrgueres, temos tudo para liderar globalmente esse novo segmento de proteína similar à carne” (Crédito:Divulgação)

O Rebel Whopper é uma variação menos calórica em relação ao tradicional Whopper, carro-chefe da rede. O sanduíche emula sabor, aroma e textura de seu precursor feito a partir de carne animal. A composição do hambúrguer vegetal, no entanto, é guardada a sete chaves. Uma das poucas coisas que se sabe é que ele contém proteína de soja livre de transgênicos. “Só podemos falar que existe bastante tecnologia para se chegar num produto com esse gosto e sabor. Conseguimos fazer um sanduíche mais suave, com menos calorias e sem colesterol, mas com o mesmo gosto do Whopper tradicional”, diz Iuri Miranda, CEO do Burger King Brasil. Até outubro, todos os 461 restaurantes da rede em São Paulo e no Rio de Janeiro contarão com a novidade. O intuito do Burger King é que o sanduíche vegetariano esteja presente em toda a rede, que hoje conta com 811 pontos de venda, até o fim de novembro. O hambúrguer feito com proteínas à base de plantas já havia sido lançado nas lojas do Burger King dos Estados Unidos, em abril, por meio de uma parceria com a startup Impossible Foods; e na Suécia, onde foi firmado um acordo com a fabricante holandesa Vivera.

Engana-se, porém, quem pensa que esta é a primeira tentativa do Burger King de atrair esse público no Brasil. Em 2015, a companhia lançou o Veggie Burger, sanduíche feito com empanado à base de batata, cogumelos e queijo. A ideia não é descontinuar a opção, muito pelo contrário. Espera-se que o lançamento do Rebel Whopper ajude a impulsionar as vendas de seu irmão mais velho. “O Veggie hoje tem uma venda bastante ‘nichada’. Muitas pessoas nem sabem que nós trabalhamos com esse produto vegetariano. Não fizemos uma divulgação para ele como vamos fazer agora para o Rebel Whopper”, afirma Miranda. Em 2018, o Burger King comercializou um milhão de Veggie Burgers. O combo com o produto custa R$ 25,90 nas unidades. A composição do Rebel Whopper com batata frita e bebida, por sua vez, pode ser adquirida por R$ 29,90. O CEO da empresa ainda ressalta que o objetivo não é atrair especificamente o público vegetariano, mas dar opções para os consumidores que queiram reduzir a quantidade de calorias ingeridas ao longo do dia. “Quando uma sociedade vai amadurecendo, que é o que acontece no País, a preocupação com a qualidade do que você consome aumenta”, comenta.

Embora esse tipo de ação pareça uma novidade para a indústria frigorífica como um todo, a Marfrig já está familiarizada com a produção vegetal. Em janeiro, a empresa encerrou o processo de compra da argentina QuickFood, numa negociação que movimentou US$ 54,9 milhões. No país vizinho, a empresa já comercializa hambúrgueres à base de plantas nos supermercados por meio da marca Paty. “A Marfrig tem uma mega fábrica de hambúrguer e que poderia receber uma grande capacidade de crescimento na Argentina. O mesmo acontece aqui no Brasil”, diz Miguel Gularte, CEO de operações da Marfrig na América do Sul. “A nossa planta de Várzea Grande também tem uma capacidade de crescimento muito grande. É uma fábrica que tem dez linhas de produção. Estamos usando apenas uma delas para a produção de hambúrguer vegetal”. A empresa investiu R$ 50 milhões para reinaugurar a unidade de Várzea Grande, localizada em Cuiabá (MT). A fábrica, que outrora pertenceu às empresas Minerva e BRF, voltou a funcionar em abril e tem capacidade de abater até 1,5 mil animais por dia.

Parceria: Miguel Gularte (à esq.), CEO da Operação América do Sul da Marfrig Global Foods, celebra o acordo com os executivos do Burger King Brasil: o CEO Iuri Miranda (centro) e Ariel Grunkraut, diretor de marketing e de vendas da empresa (Crédito:Divulgação)

A revolução “flexitariana” Os tempos mudaram. Os consumidores hoje querem saber a origem dos produtos que ingerem e qual é o impacto da cadeia produtiva para o meio ambiente. Com a busca incessante por uma alimentação saudável, gigantes do mundo da alimentação devem voltar, cada vez mais, esforços para esse tipo de consumidor. “Nós estamos vendo a inserção de todas as marcas grandes nesse mercado. A JBS, por meio da marca Seara, e a BRF estão olhando possibilidades para esse público. Eles têm uma rede de distribuição desenvolvida e já sabem trabalhar com produtos refrigerados. Do ponto de vista comercial é algo que faz bastante sentido”, diz Maria Alice Narloch, analista de pesquisas da consultoria Euromonitor. “Todos querem experimentar esses produtos à base de plantas. Alguns por curiosidade, outros por estilo de vida”, diz Cristina Souza, diretora executiva e fundadora da GS&Libbra, consultoria de estratégia e gestão em foodservice.

Além do prazer ligado à refeição, os analistas indicam que o crescimento desse mercado visa combater um mal à saúde que assola os brasileiros. Segundo números de uma pesquisa divulgada em julho pelo Ministério da Saúde, na qual foram ouvidas 52.395 pessoas com mais de 18 anos de idade, o número de obesos no País aumentou 67,8% entre 2006 e 2018. Mais da metade da população brasileira (55,7%) está com excesso de peso. Reflexo disso, as pessoas estão procurando opções mais saudáveis. O consumo regular de frutas e hortaliças entre 2008 e 2018 cresceu 15,5%. “Nunca uma tendência foi implementada no País com tamanha velocidade como o veganismo”, afirma Cristina. “Isso é muito positivo em termos de consumo. O Brasil está num nível de sobrepeso e obesidade cada vez maior. Então, é muito importante esse movimento que as empresas estão fazendo”, complementa. Acredita-se que, com as alternativas lançadas pelo mercado nos últimos meses, o número de flexitarianos, pessoas que comem alimentos vegetarianos ocasionalmente, dispare. Esse é o público que as grandes indústrias deve mirar para o futuro.

A larga escala de distribuição, inclusive para outros mercados, e a capacidade de trabalhar o desenvolvimento de produtos com velocidade são características que não devem ser desprezadas. Os gigantes do agronegócio têm isso. Um exemplo de diversificação no portfólio de produtos é o que a JBS está fazendo. Recentemente, a empresa lançou o produto Seara Gourmet, hambúrguer feito de soja não transgênica e que contém beterra, alho e cebola. A ideia é distribuir em sua vasta rede no varejo. De acordo com Gilberto Tomazoni, CEO global da JBS, o objetivo é atender os consumidores em todas as fases do dia.“Se a tendência de parte dos clientes é substituir a proteína animal pela vegetal, nós vamos fazer”, diz Gilberto Tomazoni, CEO global da JBS (leia mais ao final da reportagem).

Na briga: com 1,2 mil pontos de venda pelo País, a rede Bob’s investe em novas opções para o consumidor, como o sanduíche Tentador Zero Beef (Crédito:Fabio H. Mendes)

Antes que o Burger King lançasse sua novidade para o mercado, o Bob’s resolveu se antecipar. A rede, que conta com mais de 1,2 mil pontos de venda no País, lançou o Tentador Zero Beef, em 30 de agosto. Trata-se de um hambúrguer à base de plantas que conta com pão brioche, maionese, alface e tomate, e custa R$ 28 no combo. Para isso, foi firmada uma parceria com a foodtech brasileira Fazenda Futuro. “Não é somente uma questão de saudabilidade. É oferecer uma alternativa para os clientes”, diz Antonio Detsi, diretor geral do Bob’s. “Nem todos os consumidores para esse produto são vegetarianos. A ideia é atrair o público que está querendo reduzir a ingestão de proteína animal e carne vermelha. É uma tendência crescente no mundo”, complementa. A rede pretende faturar R$ 1,4 bilhão este ano.

A corrida pelo bolso do cliente O objetivo da Fazenda Futuro, do CEO Marcos Leta, é concorrer com os principais frigoríficos no mercado de carne vegetal. A startup, fundada recentemente, já viu a capacidade produtiva de sua fábrica, localizada no interior do Rio de Janeiro, passar de 115 toneladas por mês para 550 toneladas por mês. “Nós vamos crescer de acordo com o crescimento da nossa demanda. Vimos que esse negócio terá um desenvolvimento exponencial”, diz Leta. Sobre o mercado, sua ideia é competir em pé de igualdade com as grandes do agronegócio. “Os frigoríficos estão apenas diversificando os seus produtos. Eles não desenvolvem tecnologia própria para isso.

O core business deles será continuar matando bois”, dispara. A startup recebeu um aporte de US$ 8,5 milhões pela Monashees, com participação da Go4it Capital, recentemente, e já está firmando parcerias com distribuidores no Uruguai, Paraguai e Chile. Hoje, a empresa trabalha com diversos parceiros comerciais no varejo e no foodservice, por meio de produtos como hambúrgueres e almôndegas à base de plantas. Em breve, carne moída, salsicha e linguiça também serão lançados. ”Nosso foco é criar tecnologias que tornem os frigoríficos cada vez mais obsoletos”, diz. Esses são os indícios de que a briga na ponta pelo bolso do consumidor será cabeça a cabeça.


A JBS contra-ataca

A Marfrig não é a única gigante mundial da carne na busca pelo mercado dos “sem carne”. Em maio, a JBS apresentou suas armas ao lançar seu próprio hambúrguer vegetal com sabor, textura e aparência de carne. O prato, que pertence à linha Seara Gourmet, é feito de soja com componentes de beterraba, alho e cebola — uma fórmula própria, desenvolvida pela empresa após dois anos de pesquisa. A companhia também possui outra opção no segmento, lançada anteriormente, o Hambúrguer Mix de Cogumelos. “Nós produzimos aquilo que as pessoas querem consumir. Se a tendência de parte dos consumidores é substituir a proteína animal pela vegetal, vamos fazer”, diz Gilberto Tomazoni, CEO global da JBS. “Nosso produto, por meio de nossas avaliações de degustação às cegas, tem se mostrado muito superior que o da concorrência”, provoca.

O executivo afirma que a “carne” feita a partir de matéria-prima vegetal é parte de um dos desafios que as empresas de alimentos terão pela frente nas próximas décadas: botar comida na boca das 2,8 bilhões de pessoas que irão se somar à população global até 2050 – o que deverá gerar a necessidade de uma alta de 70% na produção de proteína. Desse modo, Tomazoni não vê a carne vegetal como uma concorrente da proteína animal e sim como uma alternativa para complementar a resposta à demanda. E como fica a questão da distribuição dos produtos vegetais para além da marca própria? “Não posso abrir informações que envolvam parceiros e clientes, mas temos conversas avançadas para fornecer nossos produtos vegetais em escala global para redes de fast food”, garante.