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Brumadinho: Especialistas contratados pela Vale dizem que liquefação causou ruína

Um painel de especialistas contratados pela Vale concluiu que a barragem de Brumadinho se rompeu quando os rejeitos sofreram súbita e rápida perda de resistência, processo conhecido como “liquefação estática”. Investigações policiais já apontavam a liquefação como principal hipótese para explicar o colapso que aconteceu em janeiro e deixou 257 mortos e 13 desaparecidos. Segundo o grupo de experts, problemas na construção da estrutura também contribuíram para o rompimento.

Para os especialistas, o rompimento ocorreu por deformações da estrutura da barragem. Eles apontaram ainda redução de resistência em determinadas áreas da estrutura por causa da infiltração das chuvas fortes que haviam caído na região nos dias anteriores à tragédia. “A barragem era essencialmente muito íngreme e úmida, e o material retido pela barragem era fofo, saturado, e muito pesado e de comportamento muito frágil”, destacou o PhD em Geotécnica pela Universidade British Columbia (Canadá) Peter Robertson, que liderou o grupo contratado pela Vale, em vídeo sobre o relatório.

O relatório feito por quatro especialistas, de 88 páginas, foi contratado pela área jurídica da Vale em fevereiro para relatar as causas técnicas do rompimento. A Vale ressaltou que o painel de especialistas não avaliou responsabilidades da empresa nem de envolvidos na tragédia.

As conclusões dos especialistas, destacou a mineradora, são exclusivas dos integrantes do painel. Além disso, o Conselho de Administração montou um comitê para investigar, em paralelo, as causas do acidente, cujo relatório ainda será divulgado.

Tipo de construção piorou cenário

Ainda conforme os especialistas, o projeto e a construção da estrutura tiveram contribuições para seu rompimento. “Especificamente, o projeto resultou em uma barragem íngreme, com falta de drenagem suficiente, gerando altos níveis de água, os quais causaram altas tensões de cisalhamento dentro da barragem”, diz trecho do relatório.

A barragem foi construída usando o método de construção a montante a partir de 1976, tendo realizado dez alteamentos, o último em 2013. A Vale comprou a mina ao adquirir a Ferteco, em 2001. O último lançamento de rejeitos das atividades de mineração foi feito em julho de 2016. Para os especialistas do painel, a barragem não continha drenagem interna suficiente e, portanto, alto nível de água no talude a jusante. “Isso fez com que uma parte significativa dos rejeitos permanecesse saturada, o que é um pré-requisito para a liquefação estática não drenada.”

Eles apontaram que nenhum sistema de drenagem com maior capacidade foi instalado ao longo da construção dos dez alteamentos posteriores. Adicionalmente, houve mudança na configuração do projeto a partir do terceiro alteamento, tornando a estrutura mais íngreme e empurrando as partes superiores para cima dos rejeitos mais fracos.

O excesso de carga ao longo da barragem gerou um fenômeno conhecido como creep, que é quando um material sob carga constante acaba sofrendo uma deformação. Isso favoreceu à instabilidade no local, na medida que o aspecto cimentado dos rejeitos tornou os materiais depositados na barragem quebradiços e com pouca resistência, indicou o painel.

Em fevereiro, o governo de Minas sancionou uma lei com a previsão de proibir a instação de barragens por meio do método a montante. As empresas que já possuíam essas estruturas em funcionamento deveriam apresentar um plano ao governo para substituir ou desativar as barragens. No mesmo mês, a Agência Nacional de Mineração (ANM) baixou medida com teor similar, a construção ou alteamento de barragens com essas características.

Mineradora tinha ciência do excesso de água

O geotécnico Peter Robertson, afirmou que a Vale tinha ciência do excesso do volume de água, um dos fatores que contribuiu para o acidente. “Eles sabiam do alto nível de água na estrutura e estavam tomando medidas para resolver isso. A empresa também estava adotando outras soluções para aumentar a estabilidade da barragem.”

Outro motivo de surpresa na análise, segundo Robertson, foi o alto teor de ferro nos rejeitos, o que tornou o material mais pesado. Além disso, os estudos indicaram a presença de cimentação nos rejeitos, os tornando os materiais mais frágeis e menos resistentes.

Outro fator considerado foi a técnica de construção e ampliação da barragem. O trecho inicial da barragem, construída a partir de 1976, continha características técnicas que impediam a drenagem pelo seu pé. Com isso, a combinação de rejeitos pesados e, ao mesmo tempo, frágeis, a falta de drenagem de água adequada e a características técnicas do projeto criaram as condições de instabilidade da barragem, deixando o local suscetível a pequenos eventos sucessivos que poderiam funcionar como gatilho para o colapso. As análises de tensão indicaram que partes significativas da barragem estavam sob carregamentos muito elevados.

Sobre o fato de os rejeitos estarem com alto teor de ferro e com cimentação, Robertson isentou a Vale de culpa. “Como o rejeito estava enterrado, não havia como a Vale saber desta característica. Hoje, sabemos mais sobre a barragem do que a Vale conhecia na época”, disse Robertson.

Especialista evita aponta responsabilidade de empresa brasileira

Ao ser questionado se o relatório isentava ou mostrava que a Vale havia sido negligente na gestão da barragem, Robertson disse que o estudo não visou apurar as responsabilidades pelo acidente.

Ao afirmar que o excesso de chuvas e o efeito creep dispararam o gatilho para o rompimento da barragem, o especialista descartou a hipótese de que a perfuração de sondagem no dia do acidente teria provocado o colapso da estrutura. Outra hipótese desconsiderada foi o incidente na instalação do décimo quinto dreno horizontal profundo (DHP), uma semana antes do rompimento no local.

Robertson afirmou que terá reunião nesta sexta-feira, 13, com a Vale para apresentar as conclusões do relatório do painel, composto pelo professor e outros três especialistas. O relatório também será enviado às autoridades envolvidas na investigação do acidente. O valor pago para a realização do estudo por parte dos especialistas não foi revelado.