Edição nº 1104 18.01 Ver ediçõs anteriores
Emmanuel Macron

Entrevista

O Brasil precisa de um candidato de centro com sensibilidade social

Simone Marinho

O Brasil precisa de um candidato de centro com sensibilidade social

Priscilla Arroyo
Edição 01/12/2017 - nº 1047

Carlos Langoni é um dos mais respeitados economistas de tradição liberal do Brasil. Doutor em economia pela Universidade de Chicago, ex-presidente do Banco Central (BC) e diretor do Centro de Economia Mundial da Fundação Getúlio Vargas (FGV), ele diz estar otimista com a economia. Para Langoni, a recessão já ficou para trás. Em 2018, a economia deve crescer cerca de 3% e o desemprego, hoje em 12,2%, deve voltar a taxas de um dígito. Defensor de uma renovação política, o economista diz que ela se tornaria realidade caso surgisse um candidato parecido com Emmanuel Macron, eleito presidente da França em maio.
“O Brasil precisa ter um equilíbrio entre o econômico e o social. Essa é a fórmula para ganhar a eleição.”, diz ele. A seguir, os principais trechos da entrevista:

DINHEIRO – Muitos economistas já elevaram as projeções de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano para até 1%. O senhor concorda, ou ainda é cedo para afirmar que há uma recuperação da economia?

CARLOS LANGONI – O fim da recessão já é definitivo, e a recuperação está se consolidando, trimestre após trimestre. Minha projeção para o PIB deste ano é de um crescimento entre 0,75% e 1%. O mais importante, agora, é que estamos ganhando a batalha das expectativas. Isso é essencial, pois o que move a economia são expectativas. Os índices de confiança, tanto setoriais como globais, vêm mostrando uma tendência de alta sistemática desde o segundo trimestre do ano passado. E essa tendência não foi interrompida por nenhuma das crises políticas que o País atravessou, o que mostra uma resiliência expressiva da economia real.

DINHEIRO – O que vai estimular esse crescimento? Qual sua projeção para 2018?

LANGONI – A atividade econômica vem sendo impulsionada pelo consumo das famílias, pois o consumo do governo está muito contido, devido à crise fiscal. No ano que vem, poderemos observar uma retomada dos investimentos. Do ponto de vista setorial, a saída da recessão foi pautada, no começo do ano, pela agropecuária e pelas exportações. A partir do segundo trimestre, essa recuperação começou a ser acompanhada, também, pela indústria e pelo comércio. E, a partir do terceiro trimestre, devemos observar a retomada do setor de serviços. Alguns setores importantes, como óleo e gás e o setor elétrico, vão se beneficiar de um marco regulatório mais consistente. Isso vai se traduzir em mais investimentos em infraestrutura, o que, naturalmente, diminui o desemprego e impulsiona o consumo. Diante desse cenário, projeto um crescimento do PIB de cerca de 3% no ano que vem.

DINHEIRO – Haverá riscos de volta da inflação?

LANGONI – A recuperação da economia está sendo acompanhada de um processo de desinflação. A inflação deve ficar perto de 3% neste ano. O IGP-M, que baliza contratos como os aluguéis e é o grande indexador residual da economia brasileira, deve mostrar deflação no ano. Essa combinação de preços ao consumidor baixos e deflação no IGP-M assegura a continuidade de uma inflação baixa também no ano que vem.

DINHEIRO – O sr. espera uma queda no desemprego?

LANGONI – A recuperação da indústria, do comércio e dos serviços deve aumentar a criação de vagas no setor formal da economia. Ao analisar a tendência de geração de empregos formais, acredito que a taxa deve ficar abaixo de 10%. Isso vai ser interessante do ponto de vista eleitoral, porque, a partir do segundo trimestre de 2018, estaremos entrando no período que apelido de tensões pré-eleitorais.

DINHEIRO – O Planalto recomeçou a contar os votos para aprovar a reforma da Previdência, que, já sabemos, será menos drástica do que o proposto anteriormente. Qual a importância da votação neste momento?

LANGONI – A importância é enorme. Essa reforma tem de ser aprovada ainda neste ano, pois, em 2018, o fator político vai voltar a ganhar um peso desproporcional na formação das expectativas. Vale lembrar que, em 2017, observamos um descolamento muito claro entre expectativas econômicas e tensão política. Essa fase tende a se encerrar a partir de abril de 2018, quando vamos ter a confirmação dos nomes que vão concorrer à Presidência. O debate político vai dominar a mídia e, portanto, não há como evitar que ele afete as expectativas. E o que importa na economia são sempre tendências futuras, o que vem à frente.

Campanha do Brexit: mudanças na União Europeia (Crédito:Odd Andersen / AFP )

DINHEIRO – O que acontecerá se a reforma da Previdência for derrotada no Congresso?

LANGONI – Nesse cenário, devemos observar um arrefecimento da expectativa positiva que observamos hoje. A aprovação da reforma da Previdência reforçaria a confiança dos agentes econômicos e serviria como uma espécie de colchão para amortecer os efeitos nocivos do ruído político. A partir de abril, as incertezas políticas vão contaminar as expectativas, e, sem a aprovação da reforma da Previdência, a percepção sobre o Brasil vai piorar. Podemos perder oportunidades em meio a um cenário global favorável.

DINHEIRO – Quais?

LANGONI – A economia mundial está crescendo. Os países desenvolvidos voltaram a crescer, e os emergentes também. Eu diria que 80% do PIB mundial está em expansão. E tudo isso, por enquanto, com inflação baixa, principalmente nos Estados Unidos. Não se sabe até quando esse cenário, tão favorável, vai durar. O maior risco é a pressão inflacionária nos Estados Unidos, que vai surgir pelo mercado de trabalho, uma vez que os americanos têm pleno emprego. E se o presidente Donald Trump conseguir aprovar sua reforma fiscal, o Federal Reserve [o banco central americano] pode antecipar o ritmo de aumento dos juros. A consequência seria uma valorização global do dólar, que afetaria as economias emergentes. O Brasil não escapa disso. Existe essa janela, que não sabemos quanto tempo vai ficar aberta. Por isso é essencial manter positivas as expectativas, para que o País seja beneficiado por esse bom momento.

DINHEIRO – O superávit da balança comercial está em US$ 60,9 bilhões neste ano. Isso continua a sustentar a economia?

LANGONI – Temos uma alavanca de crescimento, que é o comércio mundial. Mas é preciso melhorar nossas relações comerciais. Temos de sentar com a China e ter uma conversa madura. O Brasil não pode ser só um exportador de commodities. Temos de diversificar e abrir espaço para produtos intermediários e manufaturados brasileiros. O Brasil avançou pouco em relação à abertura da economia. No governo de Fernando Henrique Cardoso, as importações e exportações representavam 27% do PIB, e esse percentual não mudou até hoje. Em outras economias emergentes, essa relação é muito maior. Na China são 40%, no México são 50%, e no Chile são 60%. O Brasil não fez nenhum movimento agressivo de política comercial nos últimos anos. O único acordo recente foi trazer a Venezuela para o Mercosul, e houve alguns entendimentos pontuais com Israel. Muitos defendem que o Brasil tem de se tornar competitivo para poder, depois, abrir sua economia. Acredito no contrário: o Brasil, para se tornar competitivo, tem de abrir a sua economia. Falo de uma abertura negociada, de preferência com grandes blocos, por meio de acordos bilaterais.

DINHEIRO – Como fazer isso?

LANGONI – Devemos aproveitar o espaço criado pelo Brexit e pela onda protecionista dos Estados Unidos. Curiosamente, esses movimentos permitem que o Brasil possa, por exemplo, viabilizar um acordo entre o Mercosul e a União Europeia. Acabei de voltar da Europa, onde eu conversei com ministros alemães e com a delegação brasileira da Organização Mundial do Comércio (OMC). Eles afirmam que nunca houve uma oportunidade tão efetiva para o Brasil fazer um acordo comercial com a Europa. A saída da Inglaterra da Zona do Euro fez com que a União Europeia tenha interesse em estreitar seus vínculos comerciais com um bloco econômico latino-americano. Isso deveria estar no topo da agenda do próximo presidente.

Compras na Black Friday: aumento do poder aquisitivo

DINHEIRO – Sobre as eleições em 2018, quais seriam as consequências para a economia caso um candidato populista seja eleito no Brasil?

LANGONI – Ainda não sabemos quem serão os candidatos, então há um bom componente de especulação aqui. Mas eu acho pouco provável a vitória de um candidato populista no ano que vem. No segundo trimestre de 2018, a recuperação da economia vai estar mais perceptível, e não apenas do ponto de vista empresarial. O fato de a economia ter inflação e juros reais baixos provoca um efeito de bem-estar. Isso eleva o poder aquisitivo, algo que será sentido pela classe média. A história que poderá ser contada na antevéspera da campanha eleitoral é uma história positiva, da virada econômica brasileira, independente de ter sido feita por um governo impopular. Vai ser difícil contrapor esse cenário a uma aposta na roleta. Acredito no pragmatismo brasileiro. A História mostra que, em geral, o pragmatismo vence a ideologia. Minha convicção é que os candidatos que encamparem melhor a visão de continuidade e de reforço, inclusive na área social, têm mais chance de ganhar. Em última instância, quem define essa eleição é a classe média, que não vai querer assumir riscos.

DINHEIRO – Qual cenário eleitoral pode ser mais apaziguador?

LANGONI – Não tenho nomes, mas acho que é o momento de uma renovação política. Quem será o Macron brasileiro? [Emmanuel Macron foi eleito presidente da França em maio]. O ideal é que aparecesse uma nova liderança política, capaz de mobilizar a opinião pública em torno de uma política econômica voltada para o bem estar e para o crescimento. Sem falsas ilusões e sem demagogia. Esse nome não vi ainda.

DINHEIRO – O Macron brasileiro viria do centro, da centro-direita, da centro-esquerda…

LANGONI – Na França ele se elegeu como um candidato de centro-esquerda, mas, na prática, é um político de centro. Ele tem um lado do partido socialista, mas as políticas que ele apoia têm viés liberal. O Brasil precisa ter um equilíbrio entre o econômico e o social. Essa é a fórmula para ganhar a eleição. Um político que seja reformista, mas que não tenha um perfil conservador no sentido equivocado. O Brasil precisa de um candidato de centro com sensibilidade social. Dois ingredientes são essenciais para esse político: visão positiva e pragmática e um perfil de preocupação social.


Entrevista

Leonardo de Morais, presidente da Anatel

Leonardo de Morais, presidente da Anatel

"O consumidor tem de ser um agente regulador do mercado"

Homem forte da agência de telecomunicações defende a redução dos entraves burocráticos e a autorregulação do setor, mas é taxativo: melhorar a qualidade do serviço implica empoderar o cliente


Economia

Angra 3: Brasil volta ao clube nuclear

Urânio

Angra 3: Brasil volta ao clube nuclear

Militares querem finalizar Angra 3 e retomar a exploração de urânio em escala industrial

Trump entre a economia e o muro

EUA

Trump entre a economia e o muro

Shutdown provocado por birra de Donald Trump já custou US$ 3,6 bilhões, pode reduzir a zero o PIB do trimestre e custar mais caro que o muro na fonteira mexicana

O que está por trás do rombo da Previdência

contas públicas

O que está por trás do rombo da Previdência

Distorções históricas nas regras de aposentadoria geram concentração de renda e desigualdade. Não faltam propostas para resolver os desequilíbrios


Negócios

Bom pra cachorro

mercado pet

mercado pet

Bom pra cachorro

A Cobasi chega ao seu primeiro bilhão de faturamento e agora planeja intensificar sua operação online


Finanças

Necton vai oferecer serviços a outras empresas do setor

Corretora

Necton vai oferecer serviços a outras empresas do setor

Necton, corretora resultante da fusão entre Spinelli e Concórdia, chega ao mercado para oferecer serviços a outras empresas do setor

Decreto sobre armas derruba ações da Taurus

Mercado financeiro

Decreto sobre armas derruba ações da Taurus

Quais são as oportunidades da Bolsa?

Alta recorde

Quais são as oportunidades da Bolsa?

Ibovespa atinge a máxima histórica e deve continuar o ritmo de alta. Saiba quais ações podem acompanhar - ou superar - o índice


Estilo

Iate italiano made in Brazil

embarcações exclusivas

embarcações exclusivas

Iate italiano made in Brazil

O estaleiro da italiana Azimut em Santa Catarina lança o Grande 30 metri, maior barco de luxo construído no país, e aposta agora em embarcações ainda mais exclusivas


Mercado Digital

#Experiência

tecnologia

tecnologia

#Experiência

Seja no e-commerce ou em lojas físicas, a tecnologia tem o papel de levar ao varejo o grau máximo de imersão para o novo consumidor


Colunas


O dinheiro vesta farda?

editorial

O dinheiro vesta farda?

Multilaser agora fala mandarim

moeda forte

Multilaser agora fala mandarim

A China é crucial na estratégia da Multilaser de oferecer um portfólio de 3,5 mil produtos a preços que caibam no bolso dos consumidores brasileiros

Santuário de elefantes recebe nova hóspede

sustentabilidade

Santuário de elefantes recebe nova hóspede

A Amazon quer jogar

dinheiro & tecnologia

A Amazon quer jogar

Tiffany agora identifica origem de todos os seus diamantes

cobiça

Tiffany agora identifica origem de todos os seus diamantes


Artigo

Seu novo celular fará você pagar mais pela Netflix

por edson rossi

por edson rossi

Seu novo celular fará você pagar mais pela Netflix

O smartphone com tela dobrável vai atacar seu bolso, mas estará vinculado também a seus hábitos de consumo


Publieditorial

Gestão de Produção é uma exigência para o futuro da indústria. Como atender?

Fundação Vanzolini apresenta:

Fundação Vanzolini apresenta:

Gestão de Produção é uma exigência para o futuro da indústria. Como atender?

Corporações só tem a ganhar com transformação digital

Dedalus apresenta:

Dedalus apresenta:

Corporações só tem a ganhar com transformação digital

O momento é de reinvenção, independentemente do segmento de atuação

Gestão de Produção é uma exigência para o futuro da indústria. Como atender?

Fundação Vanzolini apresenta:

Fundação Vanzolini apresenta:

Gestão de Produção é uma exigência para o futuro da indústria. Como atender?

X

Copyright © 2019 - Editora Três
Todos os direitos reservados.

Nota de esclarecimento A Três Comércio de Publicaçõs Ltda. (EDITORA TRÊS) vem informar aos seus consumidores que não realiza cobranças por telefone e que também não oferece cancelamento do contrato de assinatura de revistas mediante o pagamento de qualquer valor. Tampouco autoriza terceiros a fazê-lo. A Editora Três é vítima e não se responsabiliza por tais mensagens e cobranças, informando aos seus clientes que todas as medidas cabíveis foram tomadas, inclusive criminais, para apuração das responsabilidades.