Edição nº 1079 20.07 Ver ediçõs anteriores
Emmanuel Macron

Entrevista

O Brasil precisa de um candidato de centro com sensibilidade social

Simone Marinho

O Brasil precisa de um candidato de centro com sensibilidade social

Priscilla Arroyo
Edição 01/12/2017 - nº 1047

Carlos Langoni é um dos mais respeitados economistas de tradição liberal do Brasil. Doutor em economia pela Universidade de Chicago, ex-presidente do Banco Central (BC) e diretor do Centro de Economia Mundial da Fundação Getúlio Vargas (FGV), ele diz estar otimista com a economia. Para Langoni, a recessão já ficou para trás. Em 2018, a economia deve crescer cerca de 3% e o desemprego, hoje em 12,2%, deve voltar a taxas de um dígito. Defensor de uma renovação política, o economista diz que ela se tornaria realidade caso surgisse um candidato parecido com Emmanuel Macron, eleito presidente da França em maio.
“O Brasil precisa ter um equilíbrio entre o econômico e o social. Essa é a fórmula para ganhar a eleição.”, diz ele. A seguir, os principais trechos da entrevista:

DINHEIRO – Muitos economistas já elevaram as projeções de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano para até 1%. O senhor concorda, ou ainda é cedo para afirmar que há uma recuperação da economia?

CARLOS LANGONI – O fim da recessão já é definitivo, e a recuperação está se consolidando, trimestre após trimestre. Minha projeção para o PIB deste ano é de um crescimento entre 0,75% e 1%. O mais importante, agora, é que estamos ganhando a batalha das expectativas. Isso é essencial, pois o que move a economia são expectativas. Os índices de confiança, tanto setoriais como globais, vêm mostrando uma tendência de alta sistemática desde o segundo trimestre do ano passado. E essa tendência não foi interrompida por nenhuma das crises políticas que o País atravessou, o que mostra uma resiliência expressiva da economia real.

DINHEIRO – O que vai estimular esse crescimento? Qual sua projeção para 2018?

LANGONI – A atividade econômica vem sendo impulsionada pelo consumo das famílias, pois o consumo do governo está muito contido, devido à crise fiscal. No ano que vem, poderemos observar uma retomada dos investimentos. Do ponto de vista setorial, a saída da recessão foi pautada, no começo do ano, pela agropecuária e pelas exportações. A partir do segundo trimestre, essa recuperação começou a ser acompanhada, também, pela indústria e pelo comércio. E, a partir do terceiro trimestre, devemos observar a retomada do setor de serviços. Alguns setores importantes, como óleo e gás e o setor elétrico, vão se beneficiar de um marco regulatório mais consistente. Isso vai se traduzir em mais investimentos em infraestrutura, o que, naturalmente, diminui o desemprego e impulsiona o consumo. Diante desse cenário, projeto um crescimento do PIB de cerca de 3% no ano que vem.

DINHEIRO – Haverá riscos de volta da inflação?

LANGONI – A recuperação da economia está sendo acompanhada de um processo de desinflação. A inflação deve ficar perto de 3% neste ano. O IGP-M, que baliza contratos como os aluguéis e é o grande indexador residual da economia brasileira, deve mostrar deflação no ano. Essa combinação de preços ao consumidor baixos e deflação no IGP-M assegura a continuidade de uma inflação baixa também no ano que vem.

DINHEIRO – O sr. espera uma queda no desemprego?

LANGONI – A recuperação da indústria, do comércio e dos serviços deve aumentar a criação de vagas no setor formal da economia. Ao analisar a tendência de geração de empregos formais, acredito que a taxa deve ficar abaixo de 10%. Isso vai ser interessante do ponto de vista eleitoral, porque, a partir do segundo trimestre de 2018, estaremos entrando no período que apelido de tensões pré-eleitorais.

DINHEIRO – O Planalto recomeçou a contar os votos para aprovar a reforma da Previdência, que, já sabemos, será menos drástica do que o proposto anteriormente. Qual a importância da votação neste momento?

LANGONI – A importância é enorme. Essa reforma tem de ser aprovada ainda neste ano, pois, em 2018, o fator político vai voltar a ganhar um peso desproporcional na formação das expectativas. Vale lembrar que, em 2017, observamos um descolamento muito claro entre expectativas econômicas e tensão política. Essa fase tende a se encerrar a partir de abril de 2018, quando vamos ter a confirmação dos nomes que vão concorrer à Presidência. O debate político vai dominar a mídia e, portanto, não há como evitar que ele afete as expectativas. E o que importa na economia são sempre tendências futuras, o que vem à frente.

Campanha do Brexit: mudanças na União Europeia (Crédito:Odd Andersen / AFP )

DINHEIRO – O que acontecerá se a reforma da Previdência for derrotada no Congresso?

LANGONI – Nesse cenário, devemos observar um arrefecimento da expectativa positiva que observamos hoje. A aprovação da reforma da Previdência reforçaria a confiança dos agentes econômicos e serviria como uma espécie de colchão para amortecer os efeitos nocivos do ruído político. A partir de abril, as incertezas políticas vão contaminar as expectativas, e, sem a aprovação da reforma da Previdência, a percepção sobre o Brasil vai piorar. Podemos perder oportunidades em meio a um cenário global favorável.

DINHEIRO – Quais?

LANGONI – A economia mundial está crescendo. Os países desenvolvidos voltaram a crescer, e os emergentes também. Eu diria que 80% do PIB mundial está em expansão. E tudo isso, por enquanto, com inflação baixa, principalmente nos Estados Unidos. Não se sabe até quando esse cenário, tão favorável, vai durar. O maior risco é a pressão inflacionária nos Estados Unidos, que vai surgir pelo mercado de trabalho, uma vez que os americanos têm pleno emprego. E se o presidente Donald Trump conseguir aprovar sua reforma fiscal, o Federal Reserve [o banco central americano] pode antecipar o ritmo de aumento dos juros. A consequência seria uma valorização global do dólar, que afetaria as economias emergentes. O Brasil não escapa disso. Existe essa janela, que não sabemos quanto tempo vai ficar aberta. Por isso é essencial manter positivas as expectativas, para que o País seja beneficiado por esse bom momento.

DINHEIRO – O superávit da balança comercial está em US$ 60,9 bilhões neste ano. Isso continua a sustentar a economia?

LANGONI – Temos uma alavanca de crescimento, que é o comércio mundial. Mas é preciso melhorar nossas relações comerciais. Temos de sentar com a China e ter uma conversa madura. O Brasil não pode ser só um exportador de commodities. Temos de diversificar e abrir espaço para produtos intermediários e manufaturados brasileiros. O Brasil avançou pouco em relação à abertura da economia. No governo de Fernando Henrique Cardoso, as importações e exportações representavam 27% do PIB, e esse percentual não mudou até hoje. Em outras economias emergentes, essa relação é muito maior. Na China são 40%, no México são 50%, e no Chile são 60%. O Brasil não fez nenhum movimento agressivo de política comercial nos últimos anos. O único acordo recente foi trazer a Venezuela para o Mercosul, e houve alguns entendimentos pontuais com Israel. Muitos defendem que o Brasil tem de se tornar competitivo para poder, depois, abrir sua economia. Acredito no contrário: o Brasil, para se tornar competitivo, tem de abrir a sua economia. Falo de uma abertura negociada, de preferência com grandes blocos, por meio de acordos bilaterais.

DINHEIRO – Como fazer isso?

LANGONI – Devemos aproveitar o espaço criado pelo Brexit e pela onda protecionista dos Estados Unidos. Curiosamente, esses movimentos permitem que o Brasil possa, por exemplo, viabilizar um acordo entre o Mercosul e a União Europeia. Acabei de voltar da Europa, onde eu conversei com ministros alemães e com a delegação brasileira da Organização Mundial do Comércio (OMC). Eles afirmam que nunca houve uma oportunidade tão efetiva para o Brasil fazer um acordo comercial com a Europa. A saída da Inglaterra da Zona do Euro fez com que a União Europeia tenha interesse em estreitar seus vínculos comerciais com um bloco econômico latino-americano. Isso deveria estar no topo da agenda do próximo presidente.

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DINHEIRO – Sobre as eleições em 2018, quais seriam as consequências para a economia caso um candidato populista seja eleito no Brasil?

LANGONI – Ainda não sabemos quem serão os candidatos, então há um bom componente de especulação aqui. Mas eu acho pouco provável a vitória de um candidato populista no ano que vem. No segundo trimestre de 2018, a recuperação da economia vai estar mais perceptível, e não apenas do ponto de vista empresarial. O fato de a economia ter inflação e juros reais baixos provoca um efeito de bem-estar. Isso eleva o poder aquisitivo, algo que será sentido pela classe média. A história que poderá ser contada na antevéspera da campanha eleitoral é uma história positiva, da virada econômica brasileira, independente de ter sido feita por um governo impopular. Vai ser difícil contrapor esse cenário a uma aposta na roleta. Acredito no pragmatismo brasileiro. A História mostra que, em geral, o pragmatismo vence a ideologia. Minha convicção é que os candidatos que encamparem melhor a visão de continuidade e de reforço, inclusive na área social, têm mais chance de ganhar. Em última instância, quem define essa eleição é a classe média, que não vai querer assumir riscos.

DINHEIRO – Qual cenário eleitoral pode ser mais apaziguador?

LANGONI – Não tenho nomes, mas acho que é o momento de uma renovação política. Quem será o Macron brasileiro? [Emmanuel Macron foi eleito presidente da França em maio]. O ideal é que aparecesse uma nova liderança política, capaz de mobilizar a opinião pública em torno de uma política econômica voltada para o bem estar e para o crescimento. Sem falsas ilusões e sem demagogia. Esse nome não vi ainda.

DINHEIRO – O Macron brasileiro viria do centro, da centro-direita, da centro-esquerda…

LANGONI – Na França ele se elegeu como um candidato de centro-esquerda, mas, na prática, é um político de centro. Ele tem um lado do partido socialista, mas as políticas que ele apoia têm viés liberal. O Brasil precisa ter um equilíbrio entre o econômico e o social. Essa é a fórmula para ganhar a eleição. Um político que seja reformista, mas que não tenha um perfil conservador no sentido equivocado. O Brasil precisa de um candidato de centro com sensibilidade social. Dois ingredientes são essenciais para esse político: visão positiva e pragmática e um perfil de preocupação social.


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