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Brasil 2030: o estado de espírito dos líderes empresariais brasileiros

“Estamos cautelosamente otimistas. Mais animados do que há um ano, porém menos do que poderíamos estar,” foi a frase que resumiu o III Fórum CEO Brasil

Brasil 2030: o estado de espírito dos líderes empresariais brasileiros

“Estamos cautelosamente otimistas. Mais animados do que há um ano, porém menos do que poderíamos estar.” Essa frase resume bem o clima que percebi entre diversos líderes, convidados para participar do III Fórum CEO Brasil, promovido e organizado pelo Experience Club. Esse estado de espírito já era evidente desde o voo fretado que nos conduziu de São Paulo para Salvador, de onde fomos diretamente ao local do evento, na paradisíaca Praia do Forte.

Vivemos juntos momentos inesquecíveis. Durante quatro dias intensos de evento tivemos qualidade dos depoimentos, provocação ativa dos palestrantes, reflexões muito bem estimuladas pelos organizadores e conversas descontraídas entre os 170 casais participantes. Esse conjunto de fatores permitiu ao evento gerar um resultado bem instigante, único e emblemático. Alguns temas saltaram aos olhos pela contundência com que foram abordados e discutidos. Transformo-os em provocações para reflexão íntima de cada leitor:

• Qual o prazo de validade da sua empresa? Seu negócio ainda existirá em 2030?

Muitas empresas ainda estão na luta pela sobrevivência no curto prazo, lidando com crises internas e estagnação da nossa economia. Assim, não conseguem visualizar a sua relevância no médio e longo prazo. Além disso, várias estão apegadas a iniciativas bem sucedidas, acreditando que as mesmas atitudes continuarão sendo alavanca do sucesso daqui para a frente. O recado é simples: será um grave erro tentar abrir as portas do futuro com as chaves do passado.

Como afirmei no texto publicado nessa coluna há algumas semanas, “fomos educados para pensar que, entendendo bem o presente, a gente consegue planejar o futuro de forma adequada. O problema é que o mundo mudou de ritmo e de aclive. E não parece mais disposto a esperar por essa forma de pensar e agir”.

Nesse mundo muito veloz parece ter mais eficácia invertermos a ordem do pensamento, adotando uma lógica contrária: se conseguirmos visualizar bem o futuro desejado, a gente consegue planejar melhor o presente. O sucesso residirá na convergência, construindo no presente a excelência do futuro.

• Você faz o dever de casa na sua empresa ou está apenas esperando e torcendo pelas reformas promovidas pelo Governo?

É muito importante o Governo promover os ajustes no macro cenário político-econômico necessários. Entretanto, tão relevante quanto esse movimento é você liderar a reconfiguração empresarial exigida pelo “Mundo 4.0”, promovendo a transformação tecnológica – digital, mecanização, inteligência artificial, data analytics, robótica, entre outras vertentes. Esse processo deve ser acompanhado, consequentemente, de mudança no mind-set e cultura da sua empresa.

Esse o dever de casa que as empresas precisam fazer imediatamente, lembrando que transformação digital não é sinônimo de aplicativos e que, quanto mais sofisticada a tecnologia, maior a necessidade do contato humano.

O Cenário Brasil é pendular e circunstancial. Crises podem demorar, mas os ciclos econômicos sempre se alternarão. Já “Mundo 4.0” não vai voltar atrás e tampouco será cíclico. Veio para mudar as empresas de patamar.

• Sua empresa está (de fato) praticando a diversidade?

Após os emocionantes depoimentos de superação do Konrad Dantas, fundador do Kondzilla; Nina Silva, fundadora da Black Money; e Wellington Vittorino, fundador do Instituto Four, somos obrigados a refletir sobre o Brasil que está na base da nossa perversa pirâmide social e também a respeito da importância da diversidade como fator de competitividade sustentável.

Quantas oportunidades nossas empresas perdem por preconceitos infundados. Continuamos jogando para a plateia, utilizando diversidade como bandeira do “socialmente correto”, mas desperdiçando o enorme potencial que pessoas de diferentes origens podem aportar às empresas. Sem diversidade pra valer não se cria um ambiente de verdadeira inovação.

• Você já está desenvolvendo atitude exponencial ou ainda está pensando de forma incremental?

A forma incremental de pensar e agir, com a qual nos acostumamos, foi muito útil durante um longo período, no qual os fatos se moviam em uma velocidade moderada. Tínhamos tempo para analisar todas as variáveis e tomar decisões, após considerar custos e benefícios de todas as possíveis alternativas. Modelos com lógica linear nos ajudavam a decidir e nos impediam de dar salto maior que a perna. Muita análise levou a parálise e inibiu o empreendedorismo. Planejamento estratégico virou sinônimo de projeção estatística do passado. Ou seja, se a empresa está crescendo 3% este ano, que tal crescer 5% no próximo ano?

O mundo atual nos obriga a pensar na escalabilidade do número de clientes, receitas e resultados. Temos que pensar em crescer cinco vezes em vez de apenas 5% ao ano. O mercado de capitais e os jovens Millennials estão mais interessados em empresas unicórnios do que em dinossauros engessados.

• Qual o seu Legado?

As pessoas estão em busca de significado para suas vidas e desejam fazer parte de algo que os orgulhe de pertencer. Os consumidores também não querem apenas comprar um produto ou serviço, pois procuram aderência entre seus valores pessoais e os valores e propósito de uma empresa. Contudo, não podemos nos satisfazer apenas com o enunciado do propósito, considerando que o legado é tão importante quanto o propósito.

Além dessas cinco questões cruciais, os debates do III Fórum CEO Brasil envolveram provocações acerca de muitos outros pontos instigantes. Após digerir todo o conteúdo e as oportunidades de networking, troca de ideias e momentos de descontração com esses líderes, cheguei a uma conclusão muito íntima: o mundo não é mais apenas “V.I.C.A.”, traduzindo para o português o acrônimo utilizado pela primeira vez em 1987, a partir das teorias de liderança de Warren Bennis e Burt Nanus, para refletir as características do mundo pós-Guerra Fria: Volatilidade, Incerteza, Complexidade e Ambiguidade.

De fato, continua sendo tudo isso, mas passei a percebê-lo muito mais como um mundo “T.E.C.H.”: Tecnológico, Exponencial, Complexo e Humano. Explico: o evento tangibilizou, de forma inequívoca, a natureza exponencial e a indispensável competência humana exigidas pelas surpresas da tecnologia disruptiva, que são determinantes dentro do quadro de crescente complexidade que nos angustia.

Ficou muito claro que a tecnologia e seu arsenal natural de ferramentas e instrumentos sofisticados precisam estar a serviço do protagonismo humano, sem se transformar em uma camisa de força para o potencial das pessoas. Assim, se o leitor permitir um ardiloso trocadilho, o mundo será cada vez mais “TECH”, no sentido desses quatro componentes que o diferencia, muito além da visão simplista do “tech”.

Esse turbilhão de reflexões sobre o Brasil 2030 e o futuro das nossas empresas teve momentos de saudável incômodo e questionamentos emocionantes. No voo de volta já percebi um clima de muito maior otimismo, inspiração e, até mesmo, de empolgação.

Finalizo com a provocação inicial na abertura do fórum: “precisamos começar a pensar agora a empresa para 2030 e a desenhar o seu futuro modelo de negócios”, verbalizada por Ricardo Natale, presidente do Experience Club.

Está cada vez mais claro que a missão mais importante de um CEO não é mais, apenas, a de perpetuar o modelo atual de negócios da sua empresa. A condição para longevidade de uma empresa é sua capacidade de reinventar o seu modelo de negócios constantemente. Soluções disruptivas estão destruindo negócios tradicionais da noite para o dia. Como afirmou Tallis Gomes, fundador e CEO do Singu, se antecipe e comece a pensar em criar um negócio que vai substituir o seu próprio negócio atual.

Atenção CEOs! Vou enfatizar esse ponto e ser até um pouco deselegante: se você não o fizer, alguém o fará. E você e a sua empresa perderão a relevância!


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