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Bradesco prevê real mais forte em 2020

Equipe de economistas do banco aponta apreciação da moeda brasileira diante de cenário de crescimento da economia doméstica enquanto incertezas no mercado global vão persistir no próximo ano

Bradesco prevê real mais forte em 2020

Salvo algum risco político no Brasil ou nos Estados Unidos e lembrando que previsões para câmbio são as mais voláteis e frágeis do mercado financeiro, a equipe de economistas do Bradesco considera que o dólar deverá fechar em R$ 4,15 neste final de ano e em R$ 4 no encerramento de 2020. “A gente continua vendo espaço para o câmbio se apreciar no próximo ano”, diz o economista-chefe do Bradesco, Fernando Honorato.

CENÁRIO DE MERCADO Bradesco estima que juros básicos da economia brasileira ficarão em patamares historicamente baixos em todo o ano de 2020 e convergindo ao padrão internacional (Crédito:Egberto Nogueira)

Quanto à taxa básica de juros (Selic), Honorato manteve a expectativa de 4,25% ao ano para 2020. “Mas há um chance de 50% de ficar em 4,50% ao ano”, afirma. A ata do Comitê de Política Monetária (Copom) na terça-feira 17 deverá trazer mais informações sobre o rumo da Selic no próximo ano.

Questionado pela DINHEIRO sobre a tendência para investimentos dentro desse cenário, o economista-chefe respondeu que gradativamente as famílias brasileiras vão adicionar mais riscos em suas aplicações. “A renda fixa continuará sendo muito relevante para as reservas financeiras, com bastante liquidez, mas aos poucos, as famílias buscarão maiores retornos ao diversificar parte de seu patrimônio (financeiro) em aplicações de maior risco como ações e multimercados”, diz.
Honorato argumenta que a política econômica que começou em 2016 com a aprovação do teto dos gastos, reforma trabalhista e a criação da taxa de longo prazo (TLP) do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) teve sequência em 2019 com a reforma da Previdência Social e a Lei da Liberdade Econômica. “Agora a iniciativa de privatizações ganha tração e tudo isso começa a produzir efeitos na economia”, afirma.

Na visão dele há uma convergência da taxa de juros brasileira para padrões internacionais. “Na taxa de 10 anos, temos um juro nominal que era de 14% em 2016, e 7% nos emergentes, a nossa, o dobro dos emergentes. E hoje, nosso juro está apenas uns 0,60 ponto da média dos emergentes. Isso tem implicações inúmeras para a economia, para a melhora de valuation das empresas. E essa queda de juros é fundamental na equação econômica do ministro da Economia, Paulo Guedes, pois à medida que se reduzem os gastos públicos, diminuindo o BNDES, você precisa do setor privado como agente de financiamento da infraestrutura”, afirma.

Segundo a equipe de economistas do banco, também formada por Fabiana D’Atri e Constantin Clemens Jancso, o crédito privado deve ser o motor do crescimento nos próximos anos. Com os juros baixos, o acesso ao crédito se amplia muito, o Brasil tem hoje 70% do PIB incluindo o mercado de capitais, enquanto outros países emergentes têm algo como o dobro disso, tanto para empresas como às famílias. Ou seja, na visão do Bradesco, o setor privado tomará mais crédito para financiar seu crescimento. “Isso não é novidade, pois aconteceu em todos os países onde as taxas de juros caíram, tanto é que no mercado global, o grande tema é a dívida corporativa que temos no mundo”, diz Honorato.

“Essa queda de juros é fundamental para a equação do ministro Paulo Guedes, pois à medida que se reduzem os gastos públicos, se precisa do setor privado no investimento ” Fernando Honorato economista-chefe do Bradesco (Crédito:EGBERTO NOGUEIRA)

“Os próximos anos serão de deslavancagem do setor público e de alavancagem do setor privado. Isso já tem acontecido em alguma medida no mercado de capitais. Quando se olha a transição que estamos vivendo nos últimos anos, se deixou de ter o BNDES como o principal financiador para ter a dívida doméstica privada como principal motor”, afirma o economista-chefe.
Honorato contou em encontro com a imprensa realizado em São Paulo que se intrigava muito com o fato do crédito bancário somado ao volume de mercado de capitais estar crescendo 20% no final do primeiro semestre, enquanto a economia não reagia. “O PIB do terceiro trimestre finalmente parece mostrar uma compatibilização. As empresas estão alongando suas dívidas, mas deixando o dinheiro em caixa” diz. “Há espaço para as famílias terem mais crédito. Isso vem do menor comprometimento de renda que a gente espera da queda dos juros. Na medida em que o estoque de crédito for se renovando com taxas mais baixas, cairá o comprometimento de renda com dívidas. Parte da nossa aposta devido ao avanço do emprego é no crédito imobiliário, onde as taxas são mais baixas”, afirma.

CONJUNTURA Honorato também lembrou que a inflação de novembro subiu por três fatores, mas que ainda está abaixo do centro da meta. “Nós revisamos nosso IPCA para cima, 3,60% neste ano, basicamente associado aos três choques: aumento do preço das loterias, a bandeira vermelha 1 na energia em novembro e essa antecipação do impacto da febre suína na China nos preços da carne brasileira”, diz o economista.