Economia

Bolsonaro não tira a mão das estatais


Em mais uma demonstração de estelionato eleitoral, o presidente dito liberal insiste em interferir na gestão das empresas públicas – e gera dor de cabeça para a economia e para os investidores.

Crédito: Fotomontagem

Como uma criança mimada, birrenta, que dá vexame em público e que não aprendeu a dividir, o presidente Jair Bolsonaro tem causado confusão às estatais brasileiras com uma ingerência raramente vista na história do País. Em seus primeiros meses de governo, telefonou fora de hora para o presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco, para determinar a suspensão dos reajustes da gasolina e do diesel – no dia seguinte, a companhia perdeu R$ 32,4 bilhões em valor de mercado nas bolsas de São Paulo e Nova York. Ainda em 2020, irritado, ele também ordenou ao presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Gustavo Montezano, a abertura da “caixa-preta” da instituição – algo que custou a R$ 48 milhões em honorários a uma auditoria independente. A resposta dada ao presidente em um laudo foi a de que não havia irregularidades. Na semana passada, Bolsonaro disse que demitiria o presidente do Banco Brasil, André Brandão, após o executivo anunciar um plano de redução de custos de R$ 2,7 bilhões até 2025. A decisão incluía o fechamento de agências, postos de atendimento e o corte de 5 mil funcionários com um Programa de Demissão Voluntária. Resultado: as ações caíram 5% e a empresa perdeu R$ 6 bilhões em valor de mercado.

A repercussão negativa, tanto entre os 92,5 mil funcionários do BB quanto na bolha bolsonarista nas redes sociais, resultou em um xilique no Palácio do Planalto. Depois de um rápido coaching do ministro da Economia, Paulo Guedes, e do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, o chefe do Executivo voltou atrás, e o enxugamento do BB foi mantido. O problema é que, diferentemente de uma criança que cresce e amadurece, o Brasil tem um presidente com síndrome de Peter Pan, e sua postura infantil no trato com os comandantes das estatais, muitas vezes com traços claros de bipolaridade, tem sido visto como uma fonte de instabilidade para investidores, e a razão pela qual o empresário Salim Mattar, empresário e braço-direito de Guedes na secretaria de Desinvestimento e Desestatização, caiu na real, pediu para sair e voltou para casa em agosto do ano passado. Em suas palavras: “Não querem privatizar. Não há interresse do Estado em servir o cidadão”, disse Mattar, ao justificar a decisão de pular do barco furado, depois de 18 meses em Brasília. “Temos um Leviatã [monstro associado ao diabo, citado no Velho Testamento] bem maduro aqui no Brasil.” Das 698, entre estatais de controle direto, subsidiárias, coligadas e investidas, Mattar se livrou de apenas 14.

VETOR DE TRANSMISSÃO Além de espalhar incertezas em companhias em que a palavra de ordem é a estabilidade, como Banco do Brasil, Correios, BNDES e Petrobras, o comportamento estatista de um presidente eleito sob a bandeira liberal expõe uma das maiores fraudes eleitorais de sua campanha. A redução do Estado, o estímulo ao livre-mercado e as privatizações são hoje metas cada vez mais improváveis. Segundo o economista Paulo Duarte, analista da corretora Valor Investimentos, é improvável que algo mude. “Qualquer interferência é muito ruim. Isso afeta o valor dos papeis e prejudica os acionistas”, disse. “Aos olhos do investidores estrangeiros, a retórica política e um adicional de turbulência nas estatais do País, seja qual for o governo.”

Para Leo Monteiro, analista da Ativa Investimentos, a fantasia de liberal vestida por Bolsonaro na campanha não é apenas uma performance teatral, mas beira o crime eleitoral. “A ingerência de Bolsonaro fere a governança das estatais”, afirmou. “O que aconteceu deixou bem claro que o presidente do BB não tem autonomia suficiente para exercer qualquer projeto e sempre terá de passar por essa questão política.”

Cada vez mais, o presidente releva sua vocação keynesiana, aquilo que mais criticou nos últimos anos. Para o sócio da Consultoria GO Associados e professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), Gesner Oliveira, a interferência no BB poderia ser comparada às práticas do governo do PT. “Se o banco toma a decisão de implementar um plano de racionalização de custos, mas não pode, por causa de uma interferência do presidente, fica claro que Bolsonaro é contrário a tudo aquilo que pregou na campanha.”

O especialista relembrou que o Banco do Brasil é uma sociedade de economia mista, com ações negociadas em bolsa. Por isso, deveria seguir as regras de governança do Novo Mercado. “Esse tipo de ingerência fere as melhores práticas de governança e contraria a filosofia econômica proposta pelo governo”, afirmou Oliveira. “O que se espera é que a gestão do BB seja tocada de forma técnica, sem ingerência política, pois há um risco de que as decisões políticas não sejam as melhores para uma sociedade de economia mista.” Como bem disse Salim Mattar, em desabafo pós-Brasília, “os liberais puro-sangue do governo cabem num microônibus”. E, certamente, Bolsonaro não está dentro dele.

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