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Marcos Haaland, novo presidente da Abril: boa parte do problema da Abril está na Dinap

Entrevista com Marcos Haaland, presidente do Grupo Abril

Marcos Haaland, novo presidente da Abril: boa parte do problema da Abril está na Dinap

O executivo Marcos Haaland, sócio da consultoria Alvarez & Marsal, especializada em recuperação de empresas em crise, recebeu um dos maiores – se não for o maior – desafio de sua carreira: salvar o Grupo Abril de uma dívida de R$ 1,6 bilhão. Ao assumir a presidência da companhia, em agosto, iniciou um profundo ajuste nas três frentes de negócios: a Abril Publicações, a distribuidora de revistas Dinap e a empresa de logística de encomendas Total Express. De imediato, demitiu 800 funcionários, fechou onze títulos – como Arquitetura e Construção, Boa Forma, Casa Claudia, Cosmopolitan, Elle e Minha Casa – e cortou custos em todos os departamentos, de limpeza à segurança. Haaland terá de solucionar também outro problema. Editoras que eram clientes da Dinap na parte da distribuição tiveram suas receitas de venda em banca retidas pela Abril, o que pode causar uma quebradeira no setor. Em entrevista à DINHEIRO, Haaland conta como tentará recuperar a companhia. Acompanhe:

Como o plano de recuperação da Abril tem sido elaborado?
A recuperação judicial é um ambiente muito incerto, até porque a gente está há pouco tempo lá dentro. E estamos com duas funções: a gestão do grupo e a função da recuperação judicial. Num primeiro momento, nosso foco tem sido trazer estabilidade para a companhia, e esclarecer para as pessoas o que está acontecendo. Passado o momento mais dolorido, da redução de custos, da redução de gente e de títulos, agora temos de explicar para os 3 mil funcionários que ficaram quais são as perspectivas. O desafio não é entrar em recuperação judicial, é sair dela. Temos de fazer o equilíbrio da empresa, engajar as pessoas para ajudar a construir a Abril do futuro e levar a proposta da recuperação aos credores.

A Abril pode ser vendida?
Não podemos vender agora. A solução para o pagamento de R$ 1,6 bilhão pode incluir venda de ativos periféricos, mas isso será eventualmente apresentado aos credores. Queremos preservar o núcleo da empresa e suas marcas.

Qual será a solução para a Abril?
Há quase sete anos, nosso trabalho é lidar com empresas em crise. A gente já teve situações muito mais complicadas do que a do Grupo Abril, situações que pareciam que não havia saída. Mas, hoje, essas empresas continuam operando. O desafio na Abril é grande porque a empresa é grande. A dívida de R$ 1,6 bilhão não é a maior que já enfrentei, mas é uma cifra relevante. Nunca lidei com uma empresa que tem um impacto social tão grande, dada a importância dos veículos de comunicação de credibilidade em um ambiente de ‘fake news’.

Por que a dívida chegou a esse tamanho?
A dívida vem se acumulando há muito tempo. Tem vindo de fatores como investimentos em coisas que não deram certo e de déficits recorrentes. Parte das perdas foi tapada com dívida, parte com represamento de pagamentos a fornecedores e parte grande com aporte dos acionistas. Era uma bola de neve. Mas não é um problema só da Abril. O mercado editorial passa pelo mesmo desafio aqui e lá fora. Agora, temos de encontrar um novo modelo que vai sustentar a empresa. Não basta fazer um ‘downsizing’ do negócio. Temos de nos reinventar, de redesenhar o modelo do negócio.

A empresa foi uma vítima da retração do mercado ou de seus erros de gestão?
É difícil fazer um julgamento do passado quando eu não estava presente. É fácil ser profeta do que já passou. O que posso dizer é que a empresa sentiu muito a queda da circulação. Houve uma redução no volume de revistas em circulação, mas também de outras editoras que nós distribuíamos por meio da Dinap. A estrutura de custos não se reduz na mesma proporção da redução de revistas em circulação. Continuamos tendo a mesma redação, o mesmo número de caminhões viajando, mesmo que um pouco mais vazios. Além disso, a receita de publicidade caiu cerca de 40% em cinco anos. Ela não deixou de existir, mas migrou para outros canais, especialmente o digital. A empresa não conseguiu absorver a receita que mudou de lugar. A Abril não estava preparada e não tinha os produtos adequados.

Qual é a chance de o plano de recuperação judicial não ser aceito e a Abril falir?
A chance é muito pequena. O plano é algo construído junto com os credores. Não é imposto a eles. Possui sugestões e ideias daqueles que vão receber o dinheiro. É uma matemática muito transparente. Fazemos uma projeção de caixa para dez anos e fazemos caber a dívida dentro desse número. Não tem mágica. Não vamos propor uma coisa que não poderemos cumprir, e os credores não vão exigir algo que não vai ser possível.

Como projetar receita para daqui dez anos se não é possível saber como será mercado nem no ano que vem?
É difícil. Tem muita incerteza no meio do caminho, mas eu preciso ter uma base. O que fazemos é uma estimativa baixa. Se tudo der muito certo, temos mecanismos de antecipar pagamentos a todos. Mas todo mundo vai ter que sofrer. A empresa sofreu, reduzindo seu quadro de pessoal, reduzindo de tamanho. O acionista sofreu porque a Abril hoje está sob o julgo dos credores, que vão decidir o futuro da empresa. E sofrem os credores, porque vamos ter de alongar dívida, diminuir taxas de juros e receber num prazo muito maior.

Como vai pagar?
Vamos apresentar a proposta em 18 de outubro. Será a primeira proposta para os credores. Eles irão olhar, analisar, fazer comentários e dar sugestões. A próxima etapa será convocar uma assembleia depois de três ou quatro meses. A Abril Publicações, a Dinap e a Total Express tiveram um faturamento combinado de R$ 1,5 bilhão. Então, a dívida de R$ 1,6 bilhão é quase um para um.

Vai demitir e fechar outros títulos?
Não. O que tinha de fazer, já fizemos. Até porque demissão custa caro. Essas demissões a gente vai ter que pagar dentro do plano. Os títulos que ficaram e os que saíram foram decisões pragmáticas em termos de rentabilidade e consumo de capital de giro. Os títulos que foram descontinuados poderão, de alguma forma, passar para um terceiro, um licenciamento para, de repente, trazer um formato diferente, uma versão online. Nada está engatilhado no curto prazo, mas elas podem voltar.

A Associação Nacional dos Editores de Revistas (Aner) e algumas editoras que eram clientes da Abril, não credoras, estudam entrar na Justiça para resolver o que elas consideram ser uma apropriação indébita de dinheiro de bancas, recolhido pela Abril e não repassado às editoras. Qual sua posição sobre isso?
Esse é um ponto importante. Tenho conversado com a Aner sobre a interpretação disso. Existe uma certa zona cinzenta, que tem fugido um pouco da minha compreensão. Temos uma equipe de advogados estudando qual tratamento será dado ao caso. Não temos uma solução, mas é algo que vamos resolver de forma muito rápida. O problema está latente e sabemos como isso está prejudicando todo o mercado. Está insustentável tanto para a Abril quando para as editoras que dependem desse dinheiro.

Mas por que não foi pago?
A Dinap distribui títulos de terceiros e tem que pagar para as editoras o dinheiro das vendas das revistas. Então, há uma interpretação de que a gente recebeu esses títulos em compra. Mas, pela recuperação judicial, que foi protocolada em 15 de agosto, todas as dívidas e compromissos da empresa são congelados naquela data. E, por lei, não posso pagar nenhum credor, sob risco de estar favorecendo algum deles. Pode se caracterizar uma fraude. Por outro lado, existe uma leitura de que aquilo não é uma venda, é simplesmente uma maneira do produto circular na cadeia. Esse é um tema que está em aberto ainda. Eu mesmo tenho conversado com a Aner sobre como vamos resolver isso. A cadeia do setor parou de repassar os valores para a Abril. Temos represado nos distribuidores um valor muito elevado. A Abril tem muito mais a receber do que a pagar. A Aner sabe disso.

O sr. tem consciência que editoras podem quebrar sem esse dinheiro?
Sim. E esse é o mesmo argumento que temos adotado com os nossos distribuidores. Eles receberam o dinheiro da venda de nossas revistas e não estão nos repassando. Importante destacar que boa parte do problema da Abril está na Dinap. O modelo de negócio não é sustentável. A Dinap, quando faz o recolhimento do que foi vendido, repassa o dinheiro para as editoras e fica com uma parte como remuneração. O que não é vendido, a Dinap recolhe e devolve às editoras, sem cobrar nada por isso. Então, ela faz um serviço de levar e buscar sem ser remunerada. E o custo logístico é imenso. O segundo problema é que a Dinap absorvia a inadimplência da cadeia. O que não recebe dos distribuidores, cobre e paga às editoras. Então, o rombo da Dinap é gigantesco.

A Dinap vai fechar?
Não sei. Vai ter que mudar o modelo de negócio. Teremos de continuar distribuindo as nossas revistas. Era um monopólio em que ninguém ganhava dinheiro. A Dinap só tinha ônus, não tinha bônus.

Qual o futuro da mídia impressa?
O negócio da Abril, que é geração de conteúdo e de informação, vai continuar existindo por muito tempo. As pessoas precisam se informar e se entreter. Não estamos trabalhando num negócio que está morrendo. Nós não estamos morrendo. O que está mudando são as formas de acesso a essa informação e as formas de monetização. Isso pode ser no papel ou no digital. Por um bom tempo, teremos um mercado misto entre o impresso e o digital. Minha filha tem 23 anos e só consome o digital. Então, mais do que o canal, precisamos aprender a monetizar com esse novo formato. Estamos olhando muito os exemplos lá de fora, que têm dado certo com um misto de conteúdo de qualidade com receita de assinaturas.