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O fundo do poço

O fundo do poço

A economia não é uma ciência exata, muito menos no Brasil, onde até o passado é incerto. Por isso, fica difícil apostar com 100% de certeza que chegamos ao fundo do poço em 2016, após dois anos de recessão e com doze milhões de desempregados. Nesta terra abençoada pela natureza e devastada há séculos por muitos cidadãos inescrupulosos, aprendemos que tudo sempre pode piorar. Mas sejamos otimistas. Um sinal de que chegamos ao piso da queda livre do PIB foi a decisão surpreendente do Banco Central, que, na semana passada, aumentou o ritmo de redução da taxa básica de juros mais do que se esperava e cortou a Selic em 0,75 ponto percentual, para 13% ao ano. Foi uma boa notícia, apesar de os juros continuarem escandalosos.

Por definição, o BC é uma entidade conservadora, ainda mais sob o comando de Ilan Goldfajn, um economista ortodoxo que resgatou a credibilidade perdida pelo BC na gestão do antecessor, Alexandre Tombini. Se o guardião da moeda age com determinação para estimular a economia com juros mais baixos é porque a crise continua grave e não há risco relevante de o afrouxamento monetário provocar alta da inflação. Como esta ficou um pouco mais comportada em 2016, ao atingir 6,29% (resultado acima dos 4,5% da meta, mas abaixo do teto máximo permitido, de 6,5%), criaram-se condições para um corte mais ambicioso da Selic.

Os preços não devem subir mais que o esperado por uma razão simples: falta de demanda. Enquanto o consumidor estiver deprimido e inseguro para gastar, as empresas não têm espaço para aumentar preços. Nos últimos anos, houve queda do poder aquisitivo da população, seja por falta de reajustes salariais compatíveis com a alta dos preços, seja por motivo de demissões e fechamento de vagas no mercado de trabalho. Outro componente importante da inflação, a desconfiança na moeda, está sendo equacionado com a adoção do teto dos gastos públicos e as demais medidas de ajuste de longo prazo nas contas federais e estaduais, incluindo a questão da previdência social.

Ponto para o governo Temer e sua equipe econômica, com Henrique Meirelles, Ilan Goldfajn & cia. Aos trancos e barrancos, o Brasil avança devagar e a economia deve voltar a crescer com mais força em 2018, apesar dos solavancos políticos no caminho. Quanto ao fundo do poço, tudo indica que não há um alçapão aqui embaixo. As contas externas vão bem, graças aos investimentos estrangeiros diretos. Os mercados de crédito, aqui e lá fora, começam a fornecer novo oxigênio financeiro às empresas, como a Petrobras e algumas construtoras envolvidas na Lava Jato.

Se Donald Trump não atrapalhar muito, o que é um risco, a economia mundial irá crescer em torno de 3% e ajudará a elevar as exportações brasileiras. Enquanto isso, pode ser que algumas estatísticas ruins saiam da geladeira, como o aumento do desemprego e a quebra de empresas que não conseguiram fazer a travessia oceânica da recessão. Como as mexidas do BC na taxa básica de juros levam ao menos seis meses para surtir efeito prático na economia real, quem sobreviver verá a saída do poço a partir do segundo semestre. 


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