Edição nº 1057 16.02 Ver ediçõs anteriores

Inovação da Cidade Baixa ao Pelourinho

Conheça a iniciativa Vale do Dendê, escritório de negócios que pretende agitar a Economia Criativa, em Salvador 

Inovação da Cidade Baixa ao Pelourinho

Paulo Rogério (à esq.) e Rosenildo, sócios do Vale do Dendê (foto: Fafá Araújo/Divulgação)

Nos últimos anos, a região Nordeste vem experimentando taxas de crescimento muito acima da média nacional. De acordo com dados do IBGE, no período 2002-2010, o crescimento do PIB per capita nos estados dessa porção do Brasil foi de 3,12%, ante os 2,22% do Sudeste. De fato, algo digno de nota. Contudo, mesmo neste ambiente de bonança muitos dos problemas estruturais persistem. Um deles é a dificuldade dos agentes públicos, e da sociedade em geral, em fazer com que as melhorias beneficiem a todos. Este quadro é ainda mais desafiante em Salvador.

Apesar de conhecida internacionalmente por sua música, sua culinária e suas belezas naturais, a capital da Bahia carece de iniciativas, em larga escala, capazes de democratizar o acesso às suas riquezas. Isso acontece, de acordo com o professor Hélio Santos, doutor em administração e membro do Conselho do Fundo Baobá, devido à combinação de dois fatores: a opção por um modelo de desenvolvimento incapaz de gerar empregos de alta qualificação e a persistência do racismo estrutural.

O que faz com que tanto os soteropolitanos da base da pirâmide, quanto os mais abonados migrem para o eixo Rio-São Paulo-Brasília em busca de melhores oportunidades.  Na visão de Santos, quaisquer alterações neste quadro dependem da soma de esforços. “Sem a união do poder público, da academia (universidades e outros centros de saber), do setor privado e da população não será possível mudar esta situação”, diz.

A fala do veterano ativista, nascido em Minas Gerais e radicado na capital da Bahia, deu o tom no seminário de lançamento da iniciativa Vale do Dendê, ocorrido na semana passada, em Salvador. O escritório de negócios – que tem entre seus fundadores Santos, o publicitário e empreendedor social Paulo Rogério Nunes e este colunista – surge com a missão de ajudar a criar estas pontes.

“Nossa ambição é trazer para a cidade empresas e projetos capazes de mudar o eixo de desenvolvimento, privilegiando as áreas mais excluídas”, destaca Nunes, pós-graduado em comunicação, jornalismo e novas mídias pela Universidade de Maryland e consultor do Berkman Center, da Universidade Harvard. O Vale do Dendê está sendo estruturado para atuar na viabilização de um ecossistema propício à inovação, nos moldes dos projetos que deram origem ao Vale do Silício, ao Porto Digital, em Recife, o Sapiens Parque, de Florianópolis, e o Ruta N, em Medellin.

Por conta disso, todo esforço nesta primeira fase será centrado em projetos e produtos inovadores, tendo como base as ferramentas de Tecnologia da Informação e da Comunicação (TIC). “De certa forma, Salvador já conta com um ambiente propício à inovação. Mas os projetos e os resultados vêm beneficiando quase que exclusivamente a parte mais rica da cidade”, explica Nunes.

Ele deixa claro que a intenção do trio não é concorrer ou mesmo substituir iniciativas exitosas tocadas por agentes públicos e privados. “Muito de nosso papel será o de articulação das experiências existentes”. Isso será feito especialmente em três vertentes nas quais a vocação da cidade é mais visível: moda, gastronomia e música; e onde as TICs podem se converter em importantes aliadas.

Num passeio pela bela periferia, formada pela Cidade Baixa e o Subúrbio Ferroviário, no qual Nunes nasceu e foi criado, é possível encontrar muitos empreendedores prontos para ganhar o mundo. Em muitos casos faltam apenas ferramentas de gestão e tecnologia para que eles coloquem seus produtos e serviços em escala global. “Nem sempre o maior obstáculo é a falta de recursos”, destaca.

Pelo fato de disporem de características profissionais e formações complementares, o trio Nunes-Ferreira-Santos se dividirá nas funções ligadas ao escritório Vale do Dendê. Enquanto Nunes cuidará da gestão do dia a dia, Ferreira permanecerá em São Paulo fazendo a interlocução com as empresas privadas e Santos fará a ponte com a academia e o segmento institucional.

O lançamento do Vale do Dendê se dá num momento importante para o desenvolvimento da Economia Criativa no Brasil, em geral, e em Salvador, em particular. Pesquisa da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan) indica que a Economia Criativa movimenta R$ 110 bilhões por ano, no Brasil.

Por sua vez, a Prefeitura da capital baiana está concluindo uma série de levantamentos e pesquisas sobre o impacto destes negócios no PIB local. Se forem levadas em conta a criatividade e a inventividade dos soteropolitanos, este número deve ser gigantesco!


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