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Shark Tank, mas pode chamar Jurassic Park

A ideia de colocar empreendedores e suas ideias diante de investidores vorazes realimenta conceitos envelhecidos sobre o mundo dos negócios

Shark Tank, mas pode chamar Jurassic Park

Chegou com sete anos de atraso à televisão brasileira o programa Shark Tank – Negociando com Tubarões, no canal por assinatura Sony, e essa defasagem torna os conceitos e mensagens sobre empreendedorismo uma espécie de Jurassic Park.

Para quem ainda não viu a versão brasileira ou a americana, a dinâmica do programa é simples: empreendedores apresentam seus produtos e serviços para uma banca de investidores. Há tensão e suspense. Desde a sabatina dos investidores, a eventual disputa pela compra de participação até a negociação sobre o valor da fatia do empreendimento a ser adquirida.

Tudo isso seria um bom entretenimento, se não tivesse apoiado e, sobretudo, replicasse um modelo mental que já não se encaixa na atual cena do empreendedorismo. A começar pelo estereótipo do investidor voraz, feroz, um tubarão capitalista. Nos dias de hoje, quantos empreendedores querem mesmo submeter seus sonhos e ideias a esse tipo de sócio?

É claro que esses investidores existem e seguramente dominam o mercado, mas o que se vê nesta década são empreendedores mais e mais mobilizados em função de um propósito, um negócio que tenha um significado maior do que simplesmente explorar um mercado e gerar um bom lucro. Sem ingenuidade, o dinheiro é necessário e muito bem-vindo, mas o entendimento de que ele é um fim em si deixou de ser um campeão de audiência.

Shark Tank segue a mesma linha de pensamento em declínio que sustentou o reality show O Aprendiz, apresentado nos Estados Unidos pelo candidato à presidência Donald Trump. Buscavam-se ali jovens profissionais com “sangue nos olhos” para serem bem-sucedidos no mundo dos negócios.

A banca de Shark Tank é formada por profissionais competentes, bem intencionados, que evidentemente são capazes de oferecer uma boa mentoria aos empreendedores sobre gestão, finanças e marketing, além de alavancar frentes como comércio digital, distribuição etc. O que falta é colocar tudo isso a serviço do mundo real, da solução dos verdadeiros problemas da sociedade, que não são poucos, e onde estão as oportunidades de negócios do futuro.

O primeiro episódio já foi esclarecedor: três investidores se apressaram a entrar no negócio de papinhas congeladas Gourmetzinho, sem questionarem muito a utilização de produtos orgânicos, procedência e possibilidade de ampliação do abastecimento; por outro lado, abriram mão de participar do Revo Foot, que desenvolve próteses ortopédicas a custo mais acessível. O motivo: o empreendedor usaria o recurso para também buscar a aprovação da Anvisa, o que pode demorar dois anos. Não se comoveram com a imensa lacuna de mercado, o benefício social, tampouco com a paixão de um jovem engenheiro já premiado pelo MIT.

grand finale do episódio foi o empreendedor que desenvolveu o produto Bosta em Lata, que se propõe a vender adubo orgânico para uso doméstico em latas de alumínio tipo leite em pó, com uma rotulagem bonitinha num design que me lembrou o espírito da marca de sorvetes Ben & Jerry’s. Ouviu críticas pelo fato da embalagem custar mais que o produto, não recebeu investimento, mas foi elogiado pela proposta divertida e sua capacidade de marqueteiro. Depois dessa, como não associar o nome do produto ao programa?


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