Edição nº 1083 17.08 Ver ediçõs anteriores

A mudança de rumo da Ford

Disposta a tornar-se uma empresa de soluções de mobilidade, a companhia que inventou a indústria  automobilística tem de se reinventar

A mudança de rumo da Ford

Em vez de simplesmente tentar vender mais carros, a montadora quer tornar-se parte da solução e buscar alternativas para o trânsito 

A Ford inventou a indústria automobilística e agora está se reinventando. Acaba de comprar um serviço de vans online chamado Chariot, que opera na região de San Francisco, na Califórnia, e define suas rotas a partir das necessidades dos usuários. Também tornou-se sócia da Motivate, empresa que compartilha bicicletas em onze cidades dos Estados Unidos e em Melbourne, na Austrália.

Há três anos, escutei o então diretor de sustentabilidade da companhia, John Viera, anunciar no Sustainable Brands San Diego que a Ford migraria seu posicionamento estratégico de fabricante de carros e caminhões para uma empresa de mobilidade de pessoas e bens. As primeiras evidências concretas dessa mudança começam a aparecer.

Na semana passada, a Ford anunciou ainda que está criando um time que irá trabalhar com diversas cidades ao redor do mundo, propondo soluções para o trânsito. Em março, a companhia já havia criado a Ford Smart Mobility, subsidiária localizada no Vale do Silício, dedicada a  investir em startups promissoras que explorem novas soluções de transporte.

O CEO Mark Fields reconhece o óbvio: cidades congestionadas afetam o principal negócio da companhia e, portanto, em vez de simplesmente tentar vender mais carros, o lógico é tornar-se parte da solução e buscar alternativas para o trânsito nas metrópoles.

É importante enfatizar que essa não deve ser encarada como uma decisão compensativa ou paliativa da Ford ou de qualquer dos demais fabricantes de automóveis. Trata-se de uma mudança estratégica para a sobrevivência do negócio. Do contrário, a sociedade se encarregará de estabelecer limites, seja por meio de decisões de consumo, seja por maior regulação.

Esse é o motivo pelo qual relativizo as notícias recorrentes de encolhimento da indústria automobilística no Brasil ou em qualquer outra parte do mundo. No curto prazo, é verdade, há perdas importantes na atividade produtiva e na geração de emprego.

Um olhar mais ampliado, porém, nos permite entender que essa é uma conta parcial e incompleta, pois não considera todos os impactos ambientais e sociais da produção e do uso dos automóveis: a poluição ambiental, a perda de dinheiro em congestionamentos, a demanda por mais infraestrutura viária, os custos da saúde e da violência no trânsito etc. Na matemática vigente, os ganhos ficam do lado privado e as perdas pertencem ao público, em última análise, à sociedade.

Claro, sempre precisaremos de transporte, mas de um transporte inteligente, que atenda às necessidades das pessoas e das cidades, que contribua para a qualidade de vida, em vez de prejudicá-la.

Essa é uma dimensão de política pública na qual ainda estamos engatinhando no Brasil. Um exemplo gritante recente foram as constantes medidas do Governo Federal de redução de IPI da indústria automobilística para promover o aquecimento da economia, colocando milhões de carros nas ruas das grandes cidades brasileiras e deixando prefeitos, muitas vezes aliados, descascarem o abacaxi da mobilidade urbana.

Vamos acompanhar esse movimento da Ford, torcendo para que ele tenha consistência e se aprofunde. Também é bom aguardar como essa estratégia vai se desdobrar por aqui. Afinal, a indústria automobilística também é pródiga em ter maravilhosas estratégias na matriz e operações predatórias nos países distantes – entre eles, o Brasil. 

Leia também:

A reinvenção das montadoras


Mais posts

O alvo agora é o plástico, o próximo pode ser o seu negócio

As imagens chocantes de ilhas de plástico e de animais mortos por ingerirem todo tipo de resíduo são chocantes. Qual será o próximo [...]

Hora de fortalecer o capital social a partir do propósito e da adesão aos ODS

Como as empresas podem atuar e gerar valor em um mundo polarizado? Por meio do fortalecimento de seu capital social. Isto é possível a [...]

O mau negócio da polarização social

Condenação ou perseguição do Lula, Estado máximo ou Estado mínimo, liberação do consumo de drogas ou repressão ao crime organizado, [...]

Por que empresas silenciaram diante da morte de Marielle?

Empresas são instituições centrais na sociedade moderna, com recursos e influência, em muitos casos, superiores aos do poder público e [...]

Evoluir ou game over

No jogo dos negócios sustentáveis, empresas estão sem crédito com a sociedade para avançar de fase
Ver mais
X

Copyright © 2018 - Editora Três
Todos os direitos reservados.

Nota de esclarecimento A Três Comércio de Publicaçõs Ltda. (EDITORA TRÊS) vem informar aos seus consumidores que não realiza cobranças por telefone e que também não oferece cancelamento do contrato de assinatura de revistas mediante o pagamento de qualquer valor. Tampouco autoriza terceiros a fazê-lo. A Editora Três é vítima e não se responsabiliza por tais mensagens e cobranças, informando aos seus clientes que todas as medidas cabíveis foram tomadas, inclusive criminais, para apuração das responsabilidades.