Edição nº 1134 19.08 Ver ediçõs anteriores

Tecnologias que brotam na floresta

Tecnologias que brotam na floresta

Cleinaldo de Almeida Costa foi eleito reitor da UEA em 2014 (foto: Joelma Sanmelo/Divulgação UEA)

No livro O Estado Empreendedor, a economista italiana Mariana Mazzucato faz uma série de provocações aos liberais. A principal delas diz respeito ao papel do Estado no desenvolvimento econômico e tecnológico. Aliás, segundo ela, não fosse a ação vigorosa do Estado e seu apetite ao risco não contaríamos, hoje, com gadgets como o iPhone, o iPad ou o iPod. Tampouco existiriam os painéis que estão tornando a energia solar mais competitiva e mais eficiente nos Estados Unidos. De fato, demonizar um lado ou alçar o outro à condição de vestal empobrece o debate. E não seria exagero dizer que foi esta forma arcaica de enxergar o mundo, em geral, e a pesquisa acadêmica, em particular, que fizeram com que o Brasil ficasse atrasado em relação ao que acontece em diversas áreas e em inúmeros países. 

Contudo, no que depender de uma parte expressiva da academia, a situação deverá mudar. E rápido, pelo que pude observar em minha mais recente andança por Manaus. A capital da “floresta Amazônica” vive uma situação sui generis, a partir da união do antigo e do novo na busca por construir pontes que garantam o desenvolvimento sustentável da região. No primeiro time poderíamos incluir o Centro da Indústria do Estado do Amazonas (CIEAM), cujo vigor depende fortemente do que acontece no Polo Industrial de Manaus (PIM), o coração da Zona Franca. Do outro, está a Universidade do Estado do Amazonas (UEA). 

“Nunca faltou dinheiro para a área de pesquisa e desenvolvimento, aqui no Estado”, diz Cleinaldo de Almeida Costa, 50 anos, reitor da UEA, referindo-se às leis que destinam parte da arrecadação do Polo para a universidade. “O problema era o ranço de preconceito de alguns acadêmicos em relação ao setor privado.” Eleito em 2014, Costa vem imprimindo um ritmo frenético em todos os departamentos. E os resultados já começam a aparecer. No sábado em que visitei o campus situado no Parque Dez de Dezembro, bairro de classe média da região central, estava rolando um desafio de startups patrocinado pelo Google. 

O evento acontecia dentro do Samsung Ocean, laboratório de tecnologias móveis e inovação, financiado pela fabricante sul-coreana de aparelhos eletrônicos, e no qual serão investidos R$ 40 milhões em cinco anos. A verba é oriunda dos programas de incentivo existentes no Estado. O prédio possui um jeitão descolado e foi erguido em apenas 70 dias. É confortável e funcional e foi decorado com móveis e objetos de arte típicos da região, feitos com madeira recolhida de embarcações inutilizadas. “A inovação só será uma realidade se contarmos com a parceria do setor privado, especialmente da indústria”, destaca o reitor. 

No Ocean também acontecem cursos destinados a capacitar empreendedores em tecnologias voltadas à comunicação móvel. Em menos de dois anos, os jovens que passaram por esta unidade do Ocean já produziram 56 aplicativos (apps) e 23 jogos licenciados para usuários de celulares da linha Galaxy. Apenas para efeito de comparação, o Ocean de São Paulo (que funcionava na região da Faria Lima e, na quinta-feira 14/4, foi transferido para a Escola Politécnica da Universidade de São Paulo), não desenvolveu nenhum. 

Fiel a sua filosofia de que é preciso administrar o ambiente acadêmico como uma empresa privada, Costa vem se impondo pelo estilo competitivo. Apesar de ter se graduado em medicina, e atuar com cirurgia vascular, ele é um apaixonado pela tecnologia. Quando soube que a subsidiária da Microsoft iria descontinuar um dos seus laboratórios, entrou na disputa com 17 universidades brasileiras para receber o material. E levou a melhor. Para instalar os equipamentos estão sendo aplicados R$ 1,2 milhão em infraestrutura. Com isso, ele acredita que será possível ampliar a venda de serviços para o setor privado. Especialmente na área de testes, como os de resistência de aparelhos celulares a situações extremas. 

O reitor também tem investido fortemente em treinamento de professores e alunos. Para isso, fez parcerias com 43 centros acadêmicos espalhados em diversos cantos do planeta. Na Universidade Estadual do Amazonas as aulas em inglês, comandadas por professores convidados, fazem parte do currículo de disciplinas eletivas. “Já recebemos a visita de professores de Harvard e da Universidade da Coreia do Sul, sem contar as palestras com acadêmicos de diversos países”, conta o reitor Costa. Um dos conferencistas foi o bioquímico americano Bruce Alberts, da Universidade da Califórnia, vencedor do Prêmio Nobel. Uma curiosidade acerca do caráter cosmopolita da UEA é que tanto a revista quanto os demais órgãos oficias de comunicação da instituição são escritos em português e em inglês. 

Mas a pequena grande revolução comandada pelo reitor não se refere apenas ao que acontece do portão para dentro. Tampouco se limita a atender os interesses das empresas instaladas no PIM. “Não podemos ficar como os padres de antigamente que rezavam a missa em latim, de costas para os fieis.” Por conta disso, as pesquisas são orientadas para lidar com problemas típicos da região. 

A lista inclui desde projetos envolvendo a produção de novos materiais a partir do descarte de insumos industriais, passando por próteses de madeira (de espécies nativas) que substituem as de fibra de carbono, além de tecnologias assistivas para deficientes auditivos e visuais. Todas elas estão perto de chegar ao mercado. “São produtos e tecnologias que se utilizam de insumos amazônicos, possuem forte demanda e um custo competitivo para o usuário final”, destaca o reitor da UEA. No pipeline de pesquisas constam, ainda, as tecnologias “para vestir” e projetos ligados à internet das coisas.  

*O colunista viajou a Manaus a convite do CIEAM


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