Edição nº 1134 19.08 Ver ediçõs anteriores

O empreendedorismo é uma farsa!

O empreendedorismo é uma farsa!

Guto Ferreira, cuja palestra mais concorrida chama-se "A mentira do empreendedorismo no Brasil"

Quem assiste a uma das apresentações do paulistano Guto Ferreira, 35 anos, nos eventos sobre empreendedorismo tem a nítida impressão de que os organizadores contrataram um “quinta coluna”. Afinal, um os pontos altos da fala de Guto é exatamente contra o empreendedorismo. Parece loucura, mas é isso mesmo. “As pessoas insistem em dizer que o empreendedorismo está dando certo no Brasil, mas isso não é verdade”, pontua. “Isso só vai acontecer no dia em que conseguirmos construir uma verdadeira cultura empreendedora, pois não existe transformação social sem educação.”

E para não dizer que vive da crítica e não da solução do problema, Guto vem direcionando ainda mais para a educação o trabalho do Confia Empreendedorismo – organização criada em 2001 para atuar como “banco social” e da qual é o atual CEO. Para ele, mais eficiente que apenas distribuir recursos ao microempreendedor é preciso capacitá-lo para lidar com ferramentas básicas de gestão. Nesta jornada, ele conta com inúmeros parceiros tanto na área empresarial, quanto nos bairros da periferia da cidade de São Paulo, base para a atuação do “banco”. Em 15 anos, mais de 40 mil pequenos comerciantes tiveram aulas de educação financeira, empreendedorismo e marketing pessoal.

Apesar de básicos (os cursos duram apenas de 8 a 12 horas), eles são vistos como um ponto importante no processo de qualificação dos clientes. Tanto que a partir deste ano, o Confia passou a oferecer os cursos mesmo para quem não pretende obter empréstimos. Para atrair especialmente as mulheres que incrementam a renda a partir da venda de produtos de alimentação, ele fez uma parceria com uma grande fabricante de eletrodomésticos, para entregar itens de cozinha como forma de ajudar no início do negócio. O objetivo é capacitar nove mil mulheres neste ano.

“A educação financeira é o nosso foco, porque se o dono do bar precificar o cafezinho de forma incorreta o negócio quebra em pouco tempo.” Mas ao tentar inverter a lógica que tem vigorado na relação entre agentes de microcrédito convencional (como os bancos de fomento e os bancos comerciais que apenas repassam recursos governamentais a juros subsidiados) Guto pagou um preço elevado.

O fim das parcerias com a Prefeitura de São Paulo e BNDES, em 2013, afetou o volume de recursos captados no mercado. Resultado, o Confia teve de fazer uma reformulação radical em sua estrutura a começar pela drástica redução no número de agências, de 31 para as atuais cinco unidades. O volume de desembolsos que já chegou a R$ 75 milhões, em 2011, atingiu R$ 12 milhões no ano passado. Mas Guto não desanima. Graças a uma parceria com o mercado financeiro o Confia terá até R$ 30 milhões para investir neste ano. Com isso, ele espera abrir mais sete agências até dezembro. Segundo o CEO do “banco social”, neste período de transição o público não foi perdido. “Atuávamos e continuamos atuando na base da pirâmide, onde a demanda é cada vez mais elevada. A diferença é que investimos mais em gestão”, explica.

Quem cuida do atendimento em todas as agências são funcionários arregimentados em bairros periféricos como Cidade Tiradentes, Jardim Ângela e Freguesia do Ó. Eles são treinados e a contratação é pelo regime de CLT. Pelo caráter social do empreendimento, a liberação dos empréstimos depende da formação de uma rede na qual são necessários quatro fiadores. A taxa de juros varia entre 2,5% e 3,9%, teto máximo definido por lei. “Não se trata apenas de uma transação comercial, mas sim de uma relação de confiança entre todos os agentes. Daí o nome Confia”, conta Guto. Isso explica porque a taxa de inadimplência, mesmo num período difícil, como o atual, é de apenas 3,1%.

Guto é o tipo de empreendedor que jamais se deixou abater pelas dificuldades. Quando tinha 28 anos, ele sofreu um AVC e ficou oito meses sem falar. “Para compensar, falo pelos cotovelos”, brinca. Jornalista de formação, Guto acabou migrando para a política, assessorando parlamentares em São Paulo e em Brasília. O mundo do empreendedorismo surgiu a partir de convite do economista Marcos Cintra, secretário de Desenvolvimento e Trabalho na gestão do prefeito Gilberto Kassab. Foi trabalhar na coordenadoria de empreendedorismo e em 2012 assumiu o Confia. Depois se especializou no tema, no Brasil e nos Estados Unidos, e hoje também leciona em alguns cursos como professor convidado de empreendedorismo e novos negócios.

Ah, sabe qual é o título da palestra de Guto mais concorrida? “A Mentira do Empreendedorismo no Brasil”.


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