Edição nº 1099 07.12 Ver ediçõs anteriores

Habib anuncia fábrica sem os chineses para produzir o JAC T5

Presidente da JAC Motors acha que o mercado vai cair para menos de 2 milhões de carros, cerca de 3.000 concessionárias serão fechadas e só em 2024 a indústria voltará aos números de venda que tinha em 2012 

Habib anuncia fábrica sem os chineses para produzir o JAC T5

Habib: nova fábrica da JAC será menor e terá investimentos de R$ 200 milhões

O dramático encolhimento do mercado brasileiro de automóveis levou o presidente da JAC Motors, Sergio Habib, a tomar uma decisão incomum: convenceu os sócios chineses a sair do negócio e seu próprio grupo, o SHC, construirá sozinho a fábrica da marca na Bahia. Habib disse hoje em São Paulo que até o carro já está definido: será o crossover T5, que é fabricado na China como JAC S3. A nova fábrica, que teria investimentos de R$ 800 milhões e teve sua inauguração adiada devido à crise econômica, será bem mais simples e custará R$ 200 milhões. Na verdade, a fábrica vai ter apenas a linha de montagem final, pois o carro virá praticamente pronto da China, em sistema CKD (Completely Knock-Down), inclusive já pintado. A capacidade de produção, que seria de 100 mil carros/ano no projeto inicial, será de apenas 20 mil carros/ano. A inauguração da fábrica será no início de 2017.

Sergio Habib não teve muitas dificuldades para convencer os chineses. Como a JAC Motors tem participação do governo da China, a operação brasileira teria de contar com auditores, diretor financeiro e uma série de entraves burocráticos caros que inviabilizariam uma atividade de apenas 20 mil carros/ano. Mesmo produzindo apenas 10 mil unidades do T5 no primeiro ano, a JAC brasileira conseguirá se livrar do grande empecilho que tem atualmente: a cota de importação limitada em 4.800 carros/ano. Pelo novo acordo, o grupo SHC (que engloba concessionárias das marcas JAC Motors, Volkswagen, Jaguar e Citroën) pagará royalties para a Jianghuai Automobile Corporation (JAC), que enviará engenheiros e ferramental para a nova fábrica.

Apesar do anúncio da produção do JAC T5 no Brasil, Habib continua extremamente pessimista com relação ao futuro do mercado automotivo nos próximos anos. Não é para menos. A JAC Motors, que chegou a vender 38.217 carros no País em 2011, caiu para 8.416 em 2014 e no ano passado licenciou apenas 5.026 unidades. A Chery, que inaugurou recentemente uma fábrica com capacidade inicial de 50 mil unidades/ano, vendeu apenas 3.948 carros no ano passado (muito pouco para quem chegou a emplacar 30.311 automóveis em 2011). Já a Lifan, que tem uma fábrica no Uruguai, caiu somente 6,5% no ano passado e registrou 5.006 unidades em 2015, sendo 3.082 do crossover X60. Foi inspirado no relativo sucesso desse carro que Habib decidiu fabricar o T5. Mas não quis esperar a construção da fábrica e vai iniciar em março a comercialização do T5 importado. Até os preços são parecidos. Enquanto o Lifan X60 tem duas versões de R$ 61.990 e R$ 65.990, o JAC T5 estreará custando R$ 59.900 e R$ 64.900. A chegada do crossover T5, que pretende tirar vendas do Renault Duster e do Ford EcoSport, mudará também o mix de vendas da JAC Motors. O T5 deverá vender cerca de 200 unidades/mês, ou seja, metade da previsão mensal da marca. Isso reduzirá a participação do hatch J2, do sedã J3 Turin e do crossover T6, que são os modelos mais vendidos até o momento. Nenhum carro da marca sairá de linha.

Mercado em queda livre

Conhecido por fazer previsões polêmicas sobre o mercado, o empresário Sergio Habib não foi diferente ao anunciar a produção do T5 na Bahia. “Acho que o mercado não chega a 2 milhões de carros este ano. Vai fechar entre 1,900 e 1,950 milhão sem caminhões e ônibus”, disse. Em 2015, o Brasil comercializou 2,067 milhões de automóveis e comerciais leves, contra 2,718 milhões em 2014. Ele afirma também que os preços vão subir: “O preço do carro vai aumentar mesmo com o mercado recessivo, porque no ano passado houve uma alta que não foi repassada nos custos de matéria prima, energia elétrica, mão-de-obra e câmbio da moeda”.

O presidente da JAC acredita que, num cenário com inflação de 7%, os carros deverão subir em média 12%. “Metade do preço dos carros fabricados no Brasil está ligado ao câmbio, por causa do aço, do vidro, da borracha e do plástico, que são indexados em dólar”, explica. “Devido a um aumento de custo gigantesco que foi represado, com repasses de apenas 4% ou 5%, teremos queda do poder aquisitivo, crescimento do desemprego e aumento do preço do carro.” Apesar desse cenário, ele disse ser contra soluções mirabolantes para aumentar a venda de automóveis. “Isenção fiscal momentânea não vai resolver nada”, diz. “Enquanto o Brasil não fizer sua lição de casa, não voltará a crescer.” Para Habib, um dos maiores problemas do País (e do setor) é que as exportações representam apenas 10% do PIB brasileiro, enquanto na Coreia, por exemplo, elas ficam na casa de 45% e, num cenário de maxidesvalorização da moeda, mantêm a economia estável.

“Não estou prevendo o caos, mas sim que voltaremos aos volumes de 2005”, disse. “As redes terão que se adequar.” Segundo a Fenabrave (entidade que reúne os revendedores de veículos), houve em 2015 o fechamento de 800 das cerca de 10 mil concessionárias do setor. Habib acha que a informação está lenta e que este número já está em torno de 1,5 mil, prevendo ainda outros 1 mil a 1,5 mil fechamentos para este ano, totalizando 3 mil. Segundo ele, só o Grupo SHC reduziu no ano passado o número de concessionárias JAC de 31 para 22 lojas e da Citroën de 35 para 23. “Quando houve a crise nos Estados Unidos, em 2008, o mercado caiu de 17 milhões de veículos para 10 milhões e levou sete anos para voltar ao nível que tinha, mas nesse período 1/3 da rede fechou”, afirmou Habib. Pelas suas previsões, o mercado brasileiro só retomará a confiança em 2019 e, mesmo que passe a ter um crescimento de 10% ao ano, só em 2024 ou 2025 atingirá o patamar que apresentava em 2012, que era de 3,8 milhões de veículos – ou seja, doze anos depois.

O novo JAC T5
O crossover T5 é chamado de S3 na China, onde passou recentemente por um face-lift. O carro que será vendido no Brasil a partir de março já chega com as modificações visuais (principalmente alguns ajustes no design da parte dianteira). Ele mede 4,325 m de comprimento, tem motor 1.5 flex de 125/127 cavalos (gasolina/etanol) e torque de 15,5/15,7 kgfm. O câmbio é manual de seis marchas. No segundo semestre chega uma versão com câmbio automático CVT e piloto automático. Ele é produzido apenas com tração dianteira (4×2). Já submetido ao teste de etiquetagem do Inmetro, conseguiu nota C de consumo no geral e A na categoria Utilitário Esportivo Compacto. Com gasolina, o T5 faz 9,6 km/l na cidade e 12,2 km/l na estrada. Com etanol, ele consegue 6,8 km/l na cidade e 8,2 km/l na estrada. A emissão de CO2 é de 126 g/km.

A versão de R$ 64.900 será a mais vendida e vem com ar-condicionado digital automático, faróis de LED, bancos de couro, chave com controle remoto, controle de tração/estabilidade, assistente de partida em subida, sistema isofix para cadeirinhas, sensor de estacionamento, câmera de ré, tela multimídia de 8”, bluetooth, entrada USB e entrada HDMI com espelhamento de smartphone. As rodas serão de liga leve aro 15. Já a versão de R$ 59.900 não terá sistema de áudio nem os faróis de LED. Segundo a JAC, o T5 chega a 194 km/h e acelera de 0-100 km/h em 12,3 segundos com gasolina ou 10,8 segundos com etanol.


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