Edição nº 1149 02.12 Ver ediçõs anteriores

Visão de futuro

Visão de futuro

 André (à esq.) e Leonard são or fundadores da grife de óculos GIV.ON

Neste momento, enquanto você, caro internauta, percorre com os olhos este texto um grupo formado por jovens empresários, ativistas sociais e pessoas comuns está no centro de uma grande agitação, num dos pontos mais movimentados da Favela da Rocinha, no Rio de Janeiro. A visão do maior aglomerado urbano de baixa renda da América Latina, encravado entre a Gávea e São Conrado, bairros de altíssima renda, não deixa dúvidas de que vivemos num país desigual. 

Para muitas pessoas se trata de mais um problema social a desafiar as autoridades. O carioca André Povoleri Caiaffa e o paulistano Leonard Tang, ambos de 34 anos, no entanto, enxergam lugares como a Rocinha como um grande laboratório para a vertente mais bacana de sua grife de óculos de sol GIV.ON, criada em novembro. 

Hoje, por exemplo, ao longo de todo o dia, acontece a primeira sessão de distribuição de óculos de grau para pessoas que sofrem de problemas de visão e não dispõem de recursos. Ops, distribuição gratuita? Mas não estamos falando de uma empresa? Claro que sim. Mas de um tipo totalmente diferente de empreendimento, que nasceu e espera prosperar ligado a um novo tipo de capitalismo. “Para nós, a solução de problemas sociais é uma oportunidade de crescimento, com a vantagem de podermos trabalhar em projetos sustentáveis e nos quais acreditamos”, destaca André. 

Cada par de óculos doado é resultado da venda de um produto novo a partir do site ou nas popup stores montadas pela GIV.ON. Até agora já foram duas: numa feira cultural, em São Paulo, e no réveillon em Fernando de Noronha. A expectativa para esta quinta-feira, 28/1, é destinar entre 150 e 200 óculos para os moradores da Rocinha. 

Faz tempo que a lógica por trás do modelo de negócios da grife brasileira vem sendo adotada nos Estados Unidos, berço de nove entre 10 empresas comandadas por empreendedores-ativistas. Este movimento, aliás, foi mapeado no livro “De Dentro para Fora”, do jornalista, escritor e palestrante Alexandre Teixeira. Assim como a dupla André-Leonard, outros tantos brasileiros vêm se dedicando a empreendimentos nos quais o propósito é o componente central do negócio. Porém, pode-se dizer que a GIV.ON inaugura um novo patamar nesta seara ao vincular a compra de um produto de consumo de larga escala a uma ação social direta, na proporção de 1 para 1. 

Mas não se engane, a dupla toca um negócio com ambições fundamentalmente capitalistas e cujos objetivos são: crescer de forma exponencial e gerar resultados financeiros. Aliás, mantras incorporados à mente de André quando ele trabalhou na Ambev, da qual saiu, no final de em 2014, para fundar a GIV.ON. A ideia é chegar ao primeiro ano de operação com a venda de 10 mil óculos de sol (e a consequente distribuição desta quantidade de óculos de grau). O produto custa R$ 321 e é apresentado em 11 modelos. A produção é terceirizada para empresas locais, que são supervisionadas constantemente pelos sócios, para avaliar as condições de trabalho no local. “Praticamos um preço justo e alinhado com o mercado, por conta disso, nosso grande desafio é incluir nesta equação a doação dos óculos de grau”, destaca.

O embrião da GIV.ON surgiu em 2012, durante o MBA na Fuqua School of Business, da Universidade Duke, nos Estados Unidos, quando os dois conheceram experiências semelhantes e acabaram se tornando amigos. De volta ao Brasil, Leonard foi contratado como CEO da subsidiária da Easy Taxi. “Desfrutávamos de uma posição de destaque no mercado, mas não estávamos satisfeitos com o rumo de nossas carreiras”, recorda André. “Foi aí que fiz uma avaliação do que queria para minha vida e descobri que todos os meus modelos de pessoas bem-sucedidas eram empreendedores sociais.” 

A partir daí, ele conversou com o amigo e decidiram largar tudo para seguir nesta trilha. Como só dispunham do dinheiro da indenização trabalhista e de algumas economias, tiveram que repensar o estilo de vida. O carioca André, que vive há 10 anos em São Paulo, por exemplo, acabou indo morar de favor na casa de amigos, para economizar. A rotina de baladas, jantares em restaurantes caros, foi para o espaço. O empreendedor não revela quanto investiu na empreitada. Explica, no entanto, que a GIV.On recebeu aportes de pequenos investidores e até de um investidor mais parrudo, sem citar nomes.   

O marketing de engajamento direto na causa foi escolhido como mote por se tratar de uma ferramenta de fácil assimilação e que possibilita uma ação direta de quem deseja ver um problema minorado, ou mesmo resolvido. São pessoas como a dupla André-Leonard, que criticam o formato de ONGs tradicionais, as quais vivem de doações, e a visão assistencialista do Estado, nas questões sociais. “Nosso modelo é sob medida para aqueles que desejam se engajar socialmente, mas não têm tempo ou nem sabem como fazê-lo de forma mais eficiente”, diz. 

André deixa claro, contudo, que não pretende substituir o Estado. Sua intenção é deixar um legado social a partir de um negócio, e auxiliar pessoas que desejam o mesmo. Por conta disso, todas as ações da GIV.ON são feitas a partir de parcerias. Para viabilizar a ação de hoje à tarde, ele acionou contatos do Terceiro Setor (Rede Coletiva da Rocinha) e do governo local (Subprefeitura da Gávea). No processo de distribuição dos óculos de grau, definidos a partir de exames feitos na hora por especialistas, a empresa conta com a parceria da Renovatio, uma empresa social, sem fins lucrativos, criada por alunos do Insper. 

Além de receber os óculos, os moradores da Rocinha também deverão, em breve, ser inseridos no processo produtivo da GIV.ON. André está conversando com uma cooperativa de costureiras do local para contratá-las para a produção dos “cases” para armazenar os óculos. Aliás, os fundadores da grife acreditam que dentro da plataforma cabe uma centena de produtos. “Começamos com os óculos a partir da constatação de que algo considerado trivial era tido como impossível para milhões de brasileiros. Mas vamos diversificar nosso portfólio para todos os produtos passíveis de serem comercializados no processo 1 por 1”. 


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