Edição nº 1134 19.08 Ver ediçõs anteriores

Verde dos pés à cabeça

Verde dos pés à cabeça

Cassius fundou e comanda a grife sustentável Green Co. (foto: Regiane Estima)

“(…) Seria mais fácil fazer como todo mundo faz,
O milésimo gol, sentado na mesa de um bar (…)”

Os versos da música Outras Frequências, da banda Engenheiros do Havaí, criticam aquelas pessoas que demonstram muita disposição para “resolver” os problemas do mundo enquanto estão numa roda de conversa, mas que dificilmente arregaçam as mangas para colocar suas ideias em prática. Contudo, nem sempre as promessas, os acordos e as pequenas grandes revoluções se esvanecem quando acaba a euforia etílica. A literatura empresarial reúne inúmeras iniciativas que surgiram no ambiente descontraído de bares e restaurantes.

No Brasil, alguns dos casos emblemáticos são: o EcoSport e a Granbio. O projeto do carro que “salvou” a Ford Motors do Brasil começou a ganhar forma nos “rabiscos” feitos em um guardanapo de papel pelo engenheiro Luc de Ferran, durante uma rodada de chope com colegas da montadora. Por sua vez, a empresa que se tornou pioneira na produção de etanol celulósico, na América do Sul, nasceu a partir de anotações e diagramas feitos, também em guardanapos, em um happy hour reunindo o empresário Bernardo Gradin e um grupo de cientistas da Unicamp.

Na lista de negócios e tacadas empresariais nascidas na mesa de bar podemos incluir, ainda, a grife mineira Green Co. Foi em 2006, durante um bate papo num barzinho da Savassi, bairro boêmio de Belo Horizonte, que Cassius Pereira da Silva, fundador de uma empresa de turismo, se tornou o criador de uma das mais descoladas grifes de moda sustentável do País. “Estava conversando com um colega da faculdade sobre meu interesse em investir no setor. Em meio ao bate papo, decidimos lançar a marca”, recorda. O amigo em questão é Daniel Guimarães, cuja família possui experiência no segmento de moda. No entanto, ele acabou deixando a sociedade com Cassius, em 2008, quando a Green Co. ainda se mostrava uma promessa difícil de vingar.

A grife, que nasceu a partir de um investimento de R$ 10 mil, deve fechar o ano com receita de R$ 2,6 milhões. Trata-se de um aumento de 15% em relação a 2014. A meta para 2016 é ainda mais ambiciosa. Adicionar seis pontos-de-venda à rede composta por quatro lojas (duas em BH, uma em Campo Grande e outra em Búzios, todas no sistema de franquia) e quase decuplicar as vendas para o patamar de R$ 25 milhões.

Para chegar neste ponto, no entanto, Cassius diz que foi preciso superar muitos desafios.

O primeiro deles está ligado ao próprio DNA do negócio, baseado na filosofia do Comércio Justo. “Nunca comprei nada vindo da China, de Taiwan ou Bangladesh, países sobre os quais recaem denúncias de abusos contra trabalhadores e outras irregularidades” diz o empresário. Por conta disso, um dos grandes entraves foi encontrar fornecedores. Uma questão que começou a ser resolvida a partir 2007, quando ele iniciou a peregrinação por eventos globais do setor como a Ethical Fashion Show, que ocorre em Paris, e a Pure London, na capital inglesa. “O networking gerado nestes eventos abriu as portas de fornecedores certificados nas mais diferentes áreas,” lembra.

Hoje, a participação de empresas brasileiras nesta lista chega quase a 100%. Os tecidos (de PET e algodão reciclados) são fabricados em Joinville, enquanto a costura é feita por parceiros baseados em Belo Horizonte. Agora, Cassius está desenvolvendo um QR Code pelo qual os clientes terão acesso a textos e vídeos sobre a origem da matéria prima de cada peça de roupas, calçados ou acessórios (como os óculos de sol, cuja armação é feita de madeira reaproveitada). A transparência total nos remete ao trabalho do estilista belga Bruno Pieters*, dono da Honest By, com quem eu conversei no ano passado.

Loja 100% sustentável

Mas Cassius está longe de se contentar com o que já conseguiu. Para firmar ainda mais a Green Co. como uma marca sustentável, ele desenvolveu um modelo de loja a partir da estrutura de um contêiner naval. A primeira Green Co.ntainer foi inaugurada em 15 de dezembro na capital de Mato Grosso do Sul. De acordo com o empreendedor, trata-se de um projeto 100% sustentável. Como exemplo cita o fato de que a estrutura é autossuficiente em energia elétrica, obtida a partir de painéis fotovoltaicos (energia) e solares (para aquecimento da água). Além disso, a água da chuva é armazenada e usada na limpeza, enquanto o esgoto é reciclado.

Cada unidade tem custo de estimado em R$ 380 mil, montante menor que o gasto na implantação de um ponto-de-venda convencional: R$ 500 mil, no caso de uma loja de 80 m² de área de vendas, dentro de um shopping-center. “Um dos meus objetivos é desmistificar a ideia de que tudo que é sustentável tem de custar mais caro”.

Toda esta agitação chamou a atenção do mercado para o trabalho de Cassius, levando-o a ser convidado a integrar o time da iniciativa Top Five do projeto Contextualizar Moda II – resultado de uma parceria entre o Instituto Nacional de Moda e Design (In-Mod) e o Sebrae Nacional. O programa garante consultoria às grifes selecionadas e a possibilidade de desfilar na passarela do SP Fashion Week, em 2016. A Green Co. foi indicada pelo Sebrae-MG. Com isso, o engenheiro ambiental, que se converteu num gestor de empresas vai, cada vez mais, cedendo espaço para o diretor criativo de moda sustentável.

E pensar que tudo começou na mesa do bar.

Leia mais sobre moda sustentável:

Tecido pela criatividade

Moda transparente

  

 


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