Edição nº 1058 23.02 Ver ediçõs anteriores

No Brasil, não!

Ativista dos direitos humanos e econômicos, Joe Beasley diz que não dará trégua às empresas americanas que não adotam políticas de diversidade no Brasil 

No Brasil, não!

Joe Beasley trabalha para ampliar a participação da comunidade negra no mundo econômico

Joseph (Joe) Henry Beasley é um dos mais respeitados interlocutores da comunidade afroamericana quando o assunto é a diversidade no mundo dos negócios. Veterano ativista dos direitos humanos, ele comanda a seção de Atlanta da Rainbow/PUSH (Pessoas Unidas para Servir a Humanidade) Coalition, criada pelo reverendo Jesse Jackson. Joe Beasley, como ele é mais conhecido, também lidera projetos a partir da fundação que leva seu nome e cujo escritório está localizado a menos de um quilômetro da sede da Coca-Cola.

Além de lutar pelos direitos civis nos Estados Unidos, ele tem gastado boa parte de seu tempo para ampliar a participação da comunidade negra no mundo econômico. E isso vale também para o Brasil. “Um dia eu entrei na sede da Coca-Cola para perguntar por que eles não investiam recursos na promoção de negócios comandados por afro-brasileiros”, contou durante discurso na cerimônia de abertura da FLINK Sampa, feira literária que aconteceu no último final de semana no Memorial da América Latina, em São Paulo. O evento é uma das principais iniciativas da Afrobras, a mantenedora da Faculdade Zumbi dos Palmares, da qual este colunista integra o Conselho Consultivo.

Mas o olhar que eu lançava para aquela cerimônia era essencialmente o do jornalista especializado em negócios e sustentabilidade. Daí ter me concentrado no relato de Beasley, com o qual conversei mais tarde. Ele me contou que, desde o início da década de 1970 a intensa pressão de grupos organizados vem funcionando como um importante instrumento para viabilizar as conquistas sociais e a integração econômica dos afroamericanos. O ponto de partida é sempre a construção do consenso, a partir do diálogo. Se não der certo, bem aí, o caldo engrossa com propostas de boicotes, por exemplo.

Ao ouvir o trecho de seu discurso sobre a fabricante de refrigerantes, lembrei-me de que em janeiro de 2014, a subsidiária da Coca-Cola, no Rio de Janeiro, reuniu diversas personalidades afro-brasileiras para anunciar a destinação de R$ 5 milhões para iniciativas sociais e econômicas, por aqui. A cerimônia foi conduzida por ninguém menos que o CEO da Coca-Cola Brasil, Xiemar Zarazúa, e contou com a presença da poderosíssima Lisa M. Borders, presidente da Coca-Cola Foundation. Algumas das ONGs beneficiadas foram: o cursinho pré-vestibular Steve Biko, a Casa da Mídia Étnica (ambas baseadas em Salvador), além de programas de incentivo ao empreendedorismo na área da reciclagem, os Coletivos Coca-Cola. Vale destacar que a fabricante de refrigerantes possui uma longa trajetória na promoção de projetos do tipo no Brasil. Mas a ações iniciadas naquela data, sem dúvida, reafirmaram sua posição de destaque entre as empresas de origem americana nesta seara.

Mas, voltemos ao rápido, porém denso, discurso de Beasley, da Rainbow/ PUSH Coalition e da Beasley Foundation. Após narrar a pressão exercida sobre a fabricante de refrigerantes ele destacou que, agora, é o Vale do Silício que está no radar dos ativistas afroamericanos. Nesta trincheira, contou ele, quem vem liderando as ações é o reverendo Jackson, parceiro do pastor Martin Luther King Jr., na década de 1960.  “Jackson vem mantendo conversas com a Intel, com o Facebook e com outras expoentes da área de tecnologia”, disse. “Não é possível gerar riqueza efetiva, nos Estados Unidos, no Brasil ou em qualquer lugar se não houver integração e diversidade.”

É a patir deste pressuposto que ele diz se espantar cada vez que olha para o Brasil. Um país cuja população é composta por 52% de afrodescendentes. “Em todas as partidas da Copa do Mundo de 2014 reparei que não havia negros nas arquibancadas”, afirmou. “Isso comprova que existe um grande fosso no que se refere à renda destes brasileiros em relação aos demais.”

Por conta disso, Beasley e o próprio Jackson, homenageado no Troféu Raça Negra de 2013, avisam que pretendem intensificar a pressão sobre as empresas americanas que atuam por aqui. “Se elas apoiam a diversidade nos Estados Unidos, tem de apoiar no Brasil”, destacou Beasley.  Pode parecer óbvio, mas não é. Muitas empresas que possuem este fundamento em sua carta de princípios, em termos globais, ignoram solenemente o tema por aqui.

Vejamos, por exemplo, as montadoras de veículos Ford, General Motors e Chrysler, símbolos do setor nos EUA. Quantos não brancos já protagonizaram suas campanhas na TV brasileira? Este colunista não consegue se lembrar de nenhum. E isso vale, também, para anúncios na internet ou na mídia impressa. 

O ponto singular neste debate é que algumas das empresas mais ativas na prática de políticas inclusivas nos Estados Unidos e na Europa usam um discurso diferente quando se trata do Brasil. “Ah, mas aqui é diferente, né!?”, costumam repetir alguns executivos a boca pequena. 
Beasley e Jackson não concordam. Nem um pouco!


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