Edição nº 1137 09.09 Ver ediçõs anteriores

O empreendedorismo de cada um

O empreendedorismo de cada um

Lincoln Paiva, que está à frente do Instituto Mobilidade Verde

Um dia desses, eu abri um jornal que circula em São Paulo e dei de cara com a seguinte manchete num caderno de empregos e carreiras: “Empresas estimulam o empreendedorismo de seus funcionários”. O enunciado chamava a atenção. Afinal, o empreendedorismo está muito ligado a ações de cunho autoral. Diante disso, é de se imaginar que para fazer jus ao título é necessário se aventurar numa startup ou se associar a um negócio já existente. Afinal, como ser empreendedor quando se está vinculado a uma empresa por meio de um contrato de trabalho ou não se ocupa um cargo de destaque na hierarquia?

Na verdade, o que o autor da reportagem queria mostrar é que não é necessário ser o patrão ou o sócio para ter as preocupações e se imbuir do espírito típico de quem está no comando. É sobre isso que pretendemos falar neste espaço, a cada quinzena, trazendo personagens dos mais variados setores. Tanto aqueles que atuam nas empresas privadas, quanto os que dão expediente nas estatais ou órgãos da administração direta. O mesmo raciocínio vale para aqueles que militam no Terceiro Setor.

Um bom exemplo é o paulistano Lincoln Paiva. Graduado em marketing, ele acabou se interessando pelo estudo da mobilidade urbana no período no qual morou em Lisboa, em 2005. Hoje, cursa especialização em gestão de cidades na Poli-USP e mestrado em arquitetura e urbanismo na Universidade Mackenzie. Contudo, o que interessa aqui não é o seu vasto currículo acadêmico. Mas, isso sim, suas ideias e suas tacadas no mundo do empreendedorismo sustentável.

À frente do Instituto Mobilidade Verde, Lincoln vem se firmando como um lançador de tendências em diversos 
segmentos. Foi ele quem trouxe para o Brasil os Parklets, também conhecidos como Vagas Verdes, que buscam inverter a lógica da ocupação do espaço urbano. Em vez do carro, uma mini praça sombreada com muito verde e equipada com tomada para carregar o smartphone ou o notebook, cuja energia é obtida por meio de placas de energia solar. “Precisamos inverter a lógica que rege cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, nas quais a conveniência se sobrepôs à convivência”, defende.

Interlocutor constante de gestores públicos, como o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, Lincoln defende que a construção de um espaço urbano mais amigável passa por sua ocupação de forma diferenciada e com um olhar mais democrático. Neste contexto, ele enxerga os shopping-centers como antítese de sua tese. “São espaços privados e nada democráticos, pois só têm lugar para quem tem dinheiro”, critica. “Os rolezinhos deixaram claro o caráter privado destes equipamentos.”

Para ele, o futuro de megalópoles, como São Paulo, está na Mobilidade Zero. Ou, em outras palavras, na disseminação do conceito de “caminhabilidade”. Essa reflexão parte da análise de estudos internacionais como o elaborado pela Universidade George Washington, que ranqueou a qualidade de vida das cidades americanas a partir do índice de WalkUp. “São áreas onde seus moradores têm acesso a saúde, ao lazer, a educação e ao trabalho a pé ou de bicicleta”, explica. No total, foram selecionadas 558 WalkUps nos EUA, que correspondem, cada, a cerca de 1% do espaço urbano das cidades, mas que concentram 48% da riqueza produzida no município.

Segundo o presidente do Instituto Mobilidade Verde, o conceito também se aplica a São Paulo. Aqui, os maiores exemplos seriam as avenidas Paulista e Faria Lima, além da região central da cidade. Locais onde a economia pulsa mais forte e, por isso, concentram uma enormidade de serviços públicos e privados. Lincoln se apressa em dizer que o conceito de Mobilidade Zero não deve ficar restrito às áreas consideradas nobres da cidade. Muito ao contrário. O ideal é que seja implantado também na periferia.

Para isso, ele defende a intervenção do poder público em diversos níveis. A começar pela lei de ocupação e uso do solo. “Está na hora de repensarmos os investimentos públicos em todas as áreas”, diz. “O que seria mais viável: insistir em repovoar o centro e gastar milhões em deslocamento, ou incentivar a autonomia dos bairros?”. Segundo Lincoln, empresas e ONGs devem se integrar nesta cruzada, lançando mão de projetos consagrados, como a preferência na contratação de funcionários que vivem no entorno de seus escritórios e fábricas, ou incentivando ações na chamada Economia Criativa.

Uma delas é o Projeto Cozinha São Paulo, capitaneado pelo Instituto Mobilidade Verde e que conta com o suporte do poder público e de empresas privadas. Consiste na implantação de restaurantes contêineres em pontos centrais da cidade, mas que estão “meio largados”. As unidades funcionam como um espaço de exercício de empreendedorismo na área gastronômica. “A moda do food truck só alcança quem tem dinheiro para investir”, diz. “Procuramos dar oportunidades a jovens da periferia que desejam apostar nesta área.” O primeiro deles começou a funcionar no Mirante do Pacaembu, perto da Paulista.

Por meio de uma série de capacitações, práticas e teóricas, ministradas por especialistas renomados vinculados ao Projeto, os chefs e cozinheiros se tornam aptos a investir no mundo da gastronomia. Mais que qualificação, eles ganham um empoderamento e uma visibilidade que jamais teriam se estivessem confinados nos bairros de origem. “Escolhi a gastronomia porque ela gera resultados imediatos e causa impacto em uma cadeia econômica bastante ampla”, defende Lincoln.

Mais empreendedor e mais sustentável, impossível.


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