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Sem tapumes

Quinta edição da ArtRio enfrenta a austeridade de tempos de crise, mas consolida projeto de doação a museu público 

Sem tapumes

Art Fair: Booth #4 The Price, 2013, obra de Eric Fischl, exibida no stand da Victoria Miro Gallery na ArtRio

Rio de Janeiro, segunda semana de setembro. Neste cenário e momento acontece um dos três picos de vendas no calendário anual do mercado de arte brasileiro. A ArtRio está entre as feiras internacionais de arte em que as galerias brasileiras tradicionalmente fecham seus melhores negócios. As outras são a SP-Arte, que acontece em abril, e a Art Basel Miami Beach, em dezembro.

Este ano, a quinta edição da ArtRio abriu no dia fatídico em que o Brasil perdeu o grau de investimento na classificação de crédito da Standard & Poor’s. Impossível, portanto, blindar o evento do baixo-astral que se abateu com a notícia. Ainda assim, dizer que o desempenho das vendas da feira teria acusado o golpe, seria uma análise simplista, pois a crise não é novidade, nem surpresa.

Na semana anterior à ArtRio, com a divulgação dos resultados da 4ª Pesquisa Setorial sobre o Mercado de Arte Contemporânea, ficou claro que os efeitos da instabilidade econômica se fizeram sentir no mercado de arte brasileiro já em 2014.

Segundo a pesquisa conduzida pela Dra. Ana Letícia Fialho para o programa Latitude da Abact (Associação Brasileira de Arte Contemporânea) o percentual de crescimento do setor apresentado em 2014 – mesmo que ainda seja considerado alto – foi de 51,2%, ou seja, sensivelmente menor que o de 2013, que foi de 90%, e o de 2012, quando o mercado de arte brasileiro cresceu 81%.

Instabilidade do país, carga tributária, dificuldades de acesso a colecionadores institucionais (museus), dificuldades de gestão, entre outros, foram apontados pelos galeristas como os principais obstáculos ao crescimento. Vale destacar que a instabilidade, que havia sido apontada na pesquisa de 2013 como o 7º obstáculo em importância, passou ao primeiro lugar.

No principal dia de vendas da ArtRio 2015 – a abertura para convidados vips, dia 9 –, a ausência de colecionadores importantes dispostos a investir foi sentida na carne tanto por galerias emergentes, quanto por galerias brasileiras de grande porte, e, especialmente, pelas galerias estrangeiras. A alta do dólar praticamente inviabilizou seus negócios. Se, neste ano, tivemos número bem menor de estrangeiras; quem veio, lamentou.

É natural, portanto, que o desempenho de uma das três principais feiras de arte para as galerias brasileiras tenha ficado abaixo da expectativa. Ainda assim, há quem acredite que a crise econômica traz boas oportunidades de negócios. Um galerista brasileiro disse à seLecT que a crise não chegou ao bolso de colecionadores que estão no topo da pirâmide. “Nesses casos, a crise é psicológica”, disse ele. Segundo essa tese, no atual contexto, artistas consagrados continuam vendendo bem e artistas emergentes nem tanto. Quem se retrai nesse contexto são os colecionadores mais jovens, com menor poder aquisitivo, que começam a enfrentar dificuldades em seus negócios e consequentemente adotam uma política de austeridade.

Ainda que alguns dos maiores colecionadores de arte brasileiros não tenham dado o ar da graça na ArtRio 2015, a visita do casal Mera e Don Rubell, diretores da Rubell Family Collection, uma das mais importantes coleções dos EUA, garantiu a confiança de que o Brasil continua na mira dos grandes players internacionais. ESte ano, o casal esteve duas vezes no Brasil – em abril em São Paulo, para a SP-Arte, e agora no Rio –, a fim de incrementar sua coleção de arte brasileira. “Nossa primeira aquisição no Brasil foi uma obra de Cildo Meireles, nos anos 1970. Agora, mais de 30 anos depois, voltamos para uma pesquisa que está nos deixando fascinados”, diz Mera Rubell.

#doearte

Mas se as vendas não mantiveram os altos índices de anos anteriores, o que parece ter se firmado entre os galeristas e frequentadores da feira carioca foi o hábito de doar obras de arte a coleções públicas brasileiras. Foi entusiasta a adesão à “wish list” do Museu de Arte do Rio (MAR), que, na figura de seu diretor artístico Paulo Herkenhoff, “tagueou” 100 obras de arte ao longo dos quatro pavilhões da ArtRio. Até o último dia da feira, 50 obras foram doadas ao museu – por galerias, como Luciana Caravello e Galeria Vermelho, fundos ou doadores anônimos –, atingindo a meta almejada por Herkenhoff.

Durante os cinco dias, a prática foi incentivada por campanhas disseminadas espontaneamente nas redes sociais. “É um prazer e orgulho podermos formar a coleção de um Museu tão importante para nossa cidade e país”, escreveu a galerista Luciana Caravello em sua timeline no FB. 


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