Bitcoin a US$ 1 milhão?

Bitcoin a US$ 1 milhão?

Já escrevi sobre Bitcoin por aqui. À época, em 2019, a commodity negociava abaixo dos US$ 10 mil por unidade após ter atingido o pico de US$ 20 mil no último semestre de 2017. O debate girava em torno do fim (ou não) do que se chamou de “o inverno das criptomoedas”, período de desvalorização e estagnação de preços ocorrido durante 2018 e parte de 2019. O investidor Warren Buffet apelidou o ativo de “veneno de rato ao quadrado” – e o ceticismo do mercado era enorme, considerando a altíssima volatilidade de preço.

Os investidores institucionais e as pilhas de recursos sob sua gestão estavam de fora. Apesar disso, já começavam a surgir sinais dos alicerces fundamentais para que o investidor institucional pudesse participar, com a Fidelity recebendo autorização para oferecer serviços de custódia e negociação. Mesmo assim, o mercado ainda era bastante pequeno.

Meses depois, quanta diferença. Durante 2020, o fundo gerido pelo celebrado Paul Tudor Jones iniciou uma posição em Bitcoin, assim como a Guggenheim. O que de fato virou a chave do ativo, porém, foi o anúncio, em outubro, de que a empresa de meio de pagamentos Square havia investido US$ 50 milhões em Bitcoin. A companhia declarou à época: “acreditamos que o Bitcoin tem o potencial para ser uma moeda mais onipresente no futuro, e à medida que sua adoção cresce pretendemos aprender e participar de uma maneira disciplinada”. Logo em seguida, a PayPal anunciou que estava habilitando seus clientes a comprar, manter e vender Bitcoin diretamente nas contas na plataforma, sinalizando planos de aumentar de maneira significativa a utilização da criptomoeda. “A mudança para moedas digitais é inevitável, trazendo claras vantagens em relação à inclusão financeira e acesso: eficiência, rapidez e resiliência do sistema de pagamentos, além da habilidade dos governos em disponibilizar rapidamente recursos para os cidadãos”, afirmou Dan Schulman, presidente e CEO da companhia.

Aos olhos de hoje, o Bitcoin já não é mais um ativo à margem do sistema financeiro, uma novidade que poucos entendem e menos ainda adotam. O valor de mercado das criptomoedas ultrapassou US$ 1 trilhão no início desse ano. O interesse é crescente e, com ele, a valorização do ativo – e isso é uma tendência. O Bitcoin saiu de US$ 10 mil para fechar o ano um pouco abaixo de US$ 30 mil. Na primeira semana de 2021, chegou a US$ 40 mil. Pipocam no mercado as análises e previsões dos “especialistas”: Bitcoin a US$ 400mil, US$ 1 milhão, US$ 1,5 milhão.



A maioria dessas análises é embasada no fato de que o Bitcoin, assim como o ouro, funciona como um hedge contra a emissão acelerada de moedas ocorrida na última década para combater os efeitos das recessões causadas pela crise de 2008 e pela pandemia do coronavírus. Ou seja: uma espécie de proteção contra inflação. Assim, os analistas pretendem estimar o tamanho do mercado de Bitcoin em relação ao mercado de ouro, e a partir daí derivar um nível de preço. Esse tipo de análise é razoável, mas traz um problema essencial: como estimar essa relação? Bitcoin representará 10% do mercado de ouro? 20%? 50%? Cada um desses níveis justifica um preço bastante diferente. Qual lógica seria adequada adotar nessa análise?

Além disso, o ouro funciona, em geral, como proteção contra as oscilações dos ativos de risco, especialmente em tempos de incerteza. Já o Bitcoin tem suas limitações: quem acompanhou com cuidado a oscilação dos preços no início da pandemia viu que o Bitcoin despencou de preço junto com todos os outros ativos, chegando a negociar a US$ 5mil.

No início da pandemia, o Bitcoin despencou junto com todos os outros ativos de risco (linha branca); já o ouro (linha azul) funcionou como proteção de portfolio

Nos dias de hoje, entretanto, não ter Bitcoin na carteira parece ser mais arriscado do que ter. A cada dia que passa fica mais fácil justificar uma posição no ativo, porque a tecnologia se estabelece de maneira mais forte à medida que o tempo passa. E de fato existe, sim, um potencial de valorização importante proporcional ao crescimento da sua adoção, além de todas as possibilidades de desintermediação no mercado financeiro com o desenvolvimento do ecossistema de DeFi. Sem falar nas outras moedas digitais que ganham cada vez mais espaço, como o Ethereum.

Comprar Bitcoin a US$ 10 mil, porém, é bem diferente do que comprar a US$ 40 mil. Buffet pode ter errado na avaliação do ativo, mas seus princípios de investimento continuam valendo: “tenha medo quando os outros são corajosos, e tenha coragem quando os outros têm medo”. A dinâmica do mercado nos últimos dias me dá a impressão de que o pessoal começou o ano com bastante coragem.

Tão importante quanto montar um bom portfolio é saber calibrar o preço de entrada. Se acreditar no ativo, a melhor estratégia é entrar aos poucos, fazendo preço médio, mesmo que seja para cima. Os mestres do value investing nos ensinam a comprar ativos com uma margem de segurança. A do Bitcoin, pelo menos agora, parece ter diminuído bastante. Ou seja: coragem, mas cuidado.

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Sobre o autor

Norberto Zaiet é economista formado pela Universidade de São Paulo e com MBA pela Columbia Business School, em Nova York. Depois de passagens como executivo pelo banco alemão WestLB e pelo português Banco Espírito Santo de Investimento (BESI), Zaiet foi CEO do Banco Pine. Hoje vive em Nova York, onde é sócio-fundador da gestora de investimentos Picea Value Investors. Com foco no conceito de Value Investing, a Picea Value Investors nasceu em 2019 com alcance global e atuação principal no mercado de ações norte-americano. Mais informações em www.piceavalue.com


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