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Bem mais que a Fórmula 1 dos carros elétricos

Campo de testes para propulsores que não usam combustíveis fósseis, a Fórmula E já atrai mais montadoras que a principal categoria do automobilismo

Crédito: Gregory Lenormand / DPPI

O barulho do motor não lembra o de um carro, exceto aqueles de autorama, com os quais crianças, adolescentes e adultos brincavam décadas atrás. Mas o piloto paulistano Lucas Di Grassi não está para brincadeira. Dirigindo a mais de 200 km/h, ele tenta a ultrapassagem que pode garantir sua vitória no Autódromo Hermanos Rodríguez, na Cidade do México. Na última curva antes da chegada, Di Grassi ameaça ultrapassar pela esquerda, rapidamente joga o carro por dentro, arriscando ser prensado entre o líder e o muro, a pouquíssimos centímetros de sua roda direita, e assume a primeira posição. O brasileiro sagra-se vencedor da quarta etapa da atual temporada de Fórmula E, competição de carros elétricos que ele disputa desde a primeira edição (2014-2015) e da qual foi o campeão na temporada 2016-2017.

A prova disputada no México, em 15 de fevereiro, atraiu um público de 38 mil pagantes — um recorde da categoria criada para ser uma plataforma mais modesta da Fórmula 1. Também organizado pela Federação Internacional de Automobilismo (FIA), o jovem campeonato se tornou rapidamente algo muito maior do que aspirava. Segundo seu idealizador, o empresário e político espanhol Alejandro Agag (sobrinho do ex-primeiro-ministro José María Aznar), a expectativa era chegar a três montadoras disputando as provas nessa quinta temporada. Hoje são 11 equipes na disputa, superando o número de participantes da Fórmula 1, que tem seis décadas de existência e apenas 10 escuderias na temporada 2019.

No primeiro ano da Fórmula E, todos os competidores usavam o mesmo carro, fornecido pela Renault. Até mesmo a equipe Venturi, de Mônaco, que foi formada com o ator Leonardo DiCaprio como sócio, corria com o modelo francês. Além da Venturi, agora com carro próprio, as marcas Audi, Jaguar, BMW, Nissan e Mahindra (indiana) participam das provas. Assim como a Fórmula 1 para os motores a combustão, a Fórmula E se tornou um grande campo de desenvolvimento de tecnologias para o carro elétrico, que promete ser o futuro da indústria e a forma de motorização dominante em diversos países no médio prazo. Nesta temporada, pela primeira vez, os pilotos utilizam apenas um carro com uma carga de bateria para completar a prova. Nas anteriores, precisavam trocar de carro no meio da prova para completar o percurso.

Vencedor: o piloto e empreendedor brasileiro Lucas Di Grassi vence a etapa da Cidade do México (acima) (Crédito:Germain Hazard / DPPI)

As montadoras usam a Formula E para mostrar os avanços que estão conseguindo nos carros. Afinal, isso vai acabar se traduzindo em vendas. Muitas empresas apressaram lançamentos para dar uma resposta à Tesla, empresa do bilionário Elon Musk que é a líder de mercado dos automóveis elétricos de luxo. A companhia sofreu um baque recentemente quando um cliente morreu em um incêndio dentro de um dos seus modelos, depois de bater em uma árvore, em Miami.

Além dos novos Jaguar I-Pace e Audi e-tron apresentados no ano passado, chegam em 2019 ao mercado a família Mercedes-Benz EQ, o Porsche Taycan e o Volvo XC40 EV, aumentando a competição pela mobilidade de ponta. Mas o interesse corporativo pelo campeonato vai muito além das montadoras. Ela aponta caminhos para o futuro das cidades e para outras empresas, de gigantes industriais a mineradoras. “No mundo, três milhões de pessoas morrem por ano em decorrência da poluição atmosférica”, diz Felipe Calderón, ex-presidente do México, durante seminário sobre cidades inteligentes, realizado no mesmo autódromo da corrida. “A chave para o desenvolvimento das grandes metrópoles está em novos sistemas efetivos e seguros de mobilidade, que devem incluir o carro autônomo, VLT, BRT, metrobus, metrô, bicicleta, patinete e o próprio pedestre.”

INFRAESTRUTURA Dentro dessa visão, é essencial uma nova infraestrutura. Para carros elétricos, isso significa a disponibilidade de equipamentos de recarga. E algumas empresas já se alistam para fazer esse trabalho. A sueca-suíça ABB, gigante centenária de produção de equipamentos de distribuição de energia, automação comercial e robótica, já é líder global em carregadores de alta velocidade. Eles seriam os equivalentes às bombas de combustível atuais e capazes de recarregar a bateria do carro em oito minutos para que ele possa percorrer 200 km. Mais de 8,7 mil deles já estão em operação pelo mundo. No Brasil, estão nas Rodovias Anhanguera e Bandeirantes, no estado de São Paulo, e na eletrovia do Paraná, que interliga Paranaguá a Foz do Iguaçu.

Na tomada: os carregadores da ABB foram adaptados para serem usados na Fórmula E e na Jaguar I-Pace, que tem a piloto Katherine Legge, vencedora no México (Crédito:Francois Flamand / DPPI | Zak Mauger)

Não por acaso, a companhia se tornou a principal patrocinadora da Fórmula E. Pela segunda temporada seguida, o campeonato se chama ABB FIA Fórmula-E. O acordo é de sete anos e tornou a categoria a única da FIA a vender seus “naming rights” para uma empresa. A ABB também é responsável por fornecer os recarregadores elétricos dos carros, equipamentos que também utilizados nas corridas Jaguar I-Race, com carros elétricos da montadora Jaguar. “A Fórmula E apresenta o desempenho que vai chegar ao mercado”, diz Greg Scheu, presidente da ABB para as Américas. “Sempre vai haver quem tenta preservar o mundo como ele é, mas as mudanças de mercado vão acontecer, é uma evolução. Vemos até mesmo as empresas de petróleo e gás colocando carregadores elétricos em seus postos, para manter a presença dos consumidores que compram em suas lojas de conveniência.”

Outra patrocinadora que chama a atenção é a brasileira CBMM (Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração), sediada em Araxá (MG) e controlada pela família Moreira Salles. Ela é a principal marca das etapas do México e de Cingapura, e co-patrocinadora em Berlim. Segundo Rodrigo Amado, gerente-geral da divisão de mobilidade da companhia, o interesse é demonstrar as possibilidades do nióbio, mineral que extrai no País, em avanços tecnológicos que envolvam eletrificação e sustentabilidade. A CBMM já entregou à FIA carta de intenção para patrocinar uma etapa da Fórmula E no Brasil. Aqui, diferentemente do que acontece no México, a prova deve ser nas ruas.

EMBAIXADOR Apesar da ainda incipiente presença do carro elétrico no Brasil e a concorrência que enfrentará com veículos flex, a categoria deve atrair interesse dos brasileiros. O País é um celeiro de pilotos desde sempre e já domina a Fórmula E com quatro estrelas do volante: Lucas Di Grassi, Felipe Massa, Nelson Piquet Júnior e Felipe Nasr. Com um título na categoria e novamente cotado entre os favoritos a vencer a atual temporada, Di Grassi combina talento nas pistas a uma boa visão de negócios e do futuro da tecnologia. Por isso, é uma espécie de embaixador do carro elétrico.

“Estamos acompanhando uma virada depois de 100 anos de domínio dos motores a combustão”, afirma o piloto. “E, em 10 anos as baterias, que hoje tem um pouco de lítio, cobalto e manganês serão de grafeno, ficando mais eficientes e menos poluentes. O problema dos veículos atuais, que representam apenas entre 10% e 15% da poluição global, é como afetam o ar das cidades. E ainda têm maior custo de manutenção do que os elétricos, incluindo gastos com combustível, óleo e o maior desgaste de disco de freio.” O brasileiro também é o CEO da Roborace, categoria de corridas de carros autônomos, ainda sem data de lançamento, que acontecerá nos mesmo circuitos da Fórmula E. Essa será a próxima revolução sobre rodas.