Bed Bath and Beyond: um caso clássico de Value Investing

Bed Bath and Beyond: um caso clássico de Value Investing

Já escrevi sobre a Bed Bath and Beyond (BBBY) aqui no blog em dezembro do ano passado. À época, as ações da empresa (que atingiram o pico em 2013 ao redor de US$ 80), estavam sendo negociadas a cerca de US$ 12. O mercado refletia o passado – uma queda de mais de metade do lucro operacional da companhia entre 2015 e 2018 – e não via valor nenhum no futuro.

Esse tipo de situação chama a atenção para quem é adepto do ‘Value Investing’: uma queda brusca de performance de uma empresa operando num setor da economia que cresceu mais de 12% no mesmo período. Olhando o balanço, os sucessivos anos de baixa performance não haviam colocado a empresa em uma posição irreversível: o endividamento da companhia era alto, mas de longo prazo, e a posição de caixa sustentava o balanço.

Eliminado o cenário de ruptura, o próximo passo era identificar se a companhia poderia gerar valor no decorrer do tempo. No caso da BBBY, o analista que se aprofundasse no caso encontraria uma série de medidas simples que, se implementadas, gerariam valor imediato.

A primeira era que a empresa operava (e ainda opera) outras marcas e lojas fora do seu negócio principal. Na sua grande maioria, empresas que foram compradas ao longo do tempo sem grande critério. Algumas, inclusive, pertenciam aos filhos dos fundadores da companhia. A venda dessas marcas periféricas destrava valor na medida em que libera capital, gera caixa e mantém o foco da gestão da empresa no seu negócio principal.

Outra medida clara era a otimização da gestão do estoque. Apesar do seu tamanho, a BBBY ainda fazia a compra de produtos através de intermediários e de maneira descentralizada. Cada loja tinha certa autonomia para comprar seu estoque, o que eliminava ganhos de escala. Além disso, o uso desses intermediários destruía valor. Juntando injuria à infâmia, a empresa não investia em marcas próprias (de maior margem), e tinha uma quantidade e variedade de produtos em estoque absolutamente desnecessária. Como consequência, além do mau uso do capital, as lojas ficavam bagunçadas e desarrumadas, tornando o processo de compra uma experiência desagradável. A experiência online era igualmente ruim. Além disso, parecia claro que a empresa precisava diminuir a quantidade de lojas e rever a localização de várias delas.

Reprodução/site

Todas essas medidas eram o que se chama de “low hanging fruit”, ou seja, iniciativas fáceis de serem implementadas e com alta geração de valor.

Além de um balanço que a sustentava no curto prazo, a BBBY já havia começado um processo de turnaround. Ativistas de boa reputação haviam adquirido participações importantes na empresa, e estavam forçando um choque de gestão absolutamente necessário. Havia clareza de que, além de todas essas medidas de arrumação da casa descritas acima, o foco adiante tinha que ser na venda online. A rede de lojas tinha que ser usada para oferecer ao cliente a melhor experiência omnichannel no setor de utensílios domésticos.

O executivo Mark Tritton, que era Chief Merchandising Officer da Target, assumiu o cargo de CEO em novembro de 2019. O sinal era claro: a eficiência na gestão dos estoques, lojas e produtos estava no radar. A partir daí, e até mesmo com todos os problemas de 2020, Mark conseguiu atrair um time de primeira categoria e investiu firme em todas as frentes descritas acima. A onda estava a caminho.

A pandemia acelerou o movimento. No último trimestre, depois de períodos sucessivos de queda em same store sales, a BBBY mostrou seus primeiros sinais de recuperação: as vendas online cresceram quase 90%. Negócios paralelos começaram a ser vendidos, lojas começaram a ser fechadas e estoques, racionalizados. O mercado começou a sentir o gosto do que seria a nova Bed Bath and Beyond.

Em março desse ano, a ação chegou a ser negociada abaixo de US$ 4. Hoje, vale acima de US$ 25. Acredito que esse movimento ainda continuará, e não me espantarei se a BBBY ultrapassar os US$ 35 nos próximos meses. Com execução certeira, como tem sido até agora, o potencial existe para preços ainda maiores.

Buscar alternativas de investimento como essas é o papel principal de um value investor. Em poucas palavras: encontrar valor onde o mercado (ainda) não vê. Como esse, existem muitos outros exemplos. Fique de olho – vou continuar escrevendo sobre eles por aqui.

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Sobre o autor

Norberto Zaiet é economista formado pela Universidade de São Paulo e com MBA pela Columbia Business School, em Nova York. Depois de passagens como executivo pelo banco alemão WestLB e pelo português Banco Espírito Santo de Investimento (BESI), Zaiet foi CEO do Banco Pine. Hoje vive em Nova York, onde é sócio-fundador da gestora de investimentos Picea Value Investors. Com foco no conceito de Value Investing, a Picea Value Investors nasceu em 2019 com alcance global e atuação principal no mercado de ações norte-americano. Mais informações em www.piceavalue.com


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