Negócios

Avianca procura um novo destino

Centenária e endividada, companhia aérea colombiana define plano de reestruturação com redução de frota e renegociação com credores. Tudo isso para evitar o mesmo desfecho da falida Avianca Brasil

Crédito: Juan Barreto / AFP

“Se fosse piloto, seria como assumir o comando da aeronave em pleno voo, no meio de uma tempestade.” A declaração exemplifica com precisão o desafio que o holandês Anko Van der Werff tem à frente do grupo colombiano Avianca Holdings. Ex-executivo de companhias como Aeromexico, Air France-KLM e Qatar, ele se tornou o novo CEO há 50 dias com a missão de tirar a empresa de uma das piores crises dos seus 100 anos de história. A dívida da Avianca Holdings (que não inclui a falida Avianca Brasil) supera US$ 5 bilhões, principalmente com bancos. Nos últimos meses, a companhia começou a atrasar pagamentos a fornecedores e enfrentou uma batalha interna entre acionistas, que resultou na troca de presidentes. O principal acionista e controlador, Germán Efromovich, com 51,5% do capital, teve de deixar o conselho administrativo, a contragosto. “Estamos fazendo tudo para reequilibrar as contas, não apenas para tirar a empresa da atual situação de dificuldade, mas dando condições para que ela possa existir por mais 100 anos”, afirma Van der Werff.

Efromovich perdeu todas as suas cadeiras no conselho da companhia após a sócia United Airlines pressionar pela reestruturação. A decisão da companhia americana ocorreu após a Avianca divulgar, em maio, prejuízo de US$ 67,9 milhões no primeiro trimestre de 2019. No trimestre seguinte, o prejuízo subiu para US$ 408 milhões, provocado principalmente pela forte variação cambial. A United havia feito, no ano passado, empréstimo de US$ 450 milhões para Efromovich e tinha como garantia as ações dele na Avianca. O contrato previa que, caso as ações se desvalorizassem, a United teria o direito de voto dos papéis de Efromovich. Aconteceu.

Anko Van Der Werff, Ceo Da Avianca Holdings: “Estamos fazendo tudo para reequilibrar as contas e dar condições para que a empresa possa existir por mais 100 anos” (Crédito:Divulgação)

Assim, o empresário, que nasceu na Bolívia e fez carreira na Colômbia e no Brasil, continua como controlador, mas sem poder de decisão na companhia. No dia da queda de Efromovich, as ações da Avianca em Nova York dispararam 28,57%. “Os investidores e os acionistas sabiam que o início da recuperação da empresa dependia da saída de Efromovich, que resistia a fazer mudanças em decisões equivocadas, as quais ele mesmo implementou”, disse Karin Bjorn, analista de investimentos na América Latina no Kantonal Bank de Zurique, na Suíça. Efromovich entrou com um processo contra a United Airlines e a Kingsland Holdings em um tribunal de Nova York para impedir que as empresas assumam sua fatia na aérea.

Nas mãos de Van der Werff, o plano para reerguer a companhia já está desenhado. Ele tem cinco pilares: negociar a extensão do prazo das dívidas de curto prazo em, pelo menos, mais três anos; reestruturar a frota, reduzindo o número de aviões e substituindo os mais velhos por modelos mais econômicos; repensar a malha de voos, acabando com trechos com baixa rentabilidade e de alta concorrência, como Bolívia, Chile e Peru; desinvestir em algumas frentes de negócios, terceirizando serviços não essenciais; e, por fim, recuperar a reputação da companhia junto aos clientes, aumentando a pontualidade e a qualidade dos serviços a bordo. Por enquanto, está decidida a venda de 39 aviões. Vão sair de circulação modelos Embraer E190, Airbus A380 e Airbus A320. A frota será de 158 aviões ao final deste ano, segundo a companhia. “A empresa deu um passo maior que as pernas para crescer a qualquer custo. Mas não podemos, e não quereremos, disputar em preço e volume com as low costs porque não queremos ser low service”, diz o CEO. “Temos que nos focar em voos de alta demanda e rentáveis, que estejam em sintonia com nosso perfil de operação.”

Irmãos em apuros: com 51,5% do controle da Avianca, Germán Efromovich teve de deixar o conselho administrativo. Jose (à dir.), aguarda a falência da Avianca Brasil (Crédito:Ana Paula Piva/ Agencia Istoe e Gabriel Reis )

ROTAS BRASILEIRAS O plano de priorizar voos de alta demanda e rentáveis passam, curiosamente, pelo Brasil, onde a Avianca Brasil — que não integra o grupo colombiano, mas pertence ao irmão de Germán, Jose Efromovich — fechou as portas e está prestes a ter sua falência decretada. Além de ampliar a frequência entre Porto Alegre, Rio de Janeiro e São Paulo a Bogotá, a Avianca vai negociar acordos codeshare (compartilhamento de voos), com a Gol e a Azul, segundo Van der Werff. As parcerias são peças-chave na estratégia de dar mais musculatura às operações em uma região dominada pela Latam, de capital brasileiro e chileno. “O que aconteceu com a Ocean Air (razão social da Avianca Brasil) prejudicou o nome da empresa no mercado brasileiro, mas sabemos que no médio e longo prazo, com melhores serviços e um modelo de negócios mais coerente com o mercado brasileiro,  isso será melhor absorvido pelos clientes”, garante Van der Werff.

Credora: dona de quase 30% da Avianca, cujas ações subiram 28,57% após a queda de Germán Efromovich, a United pretende injetar mais US$ 250 milhões na aérea colombiana (Crédito:Divulgação)

Não é só pela falência da Avianca Brasil que o novo CEO tem dado explicações. O ex-presidente do grupo, Roberto Kriete, deixou o cargo declarando publicamente que a empresa está quebrada. “Foi uma frase muito infeliz. Infeliz e complicada. Mas creio que se tratou de uma força de expressão para se referir à situação difícil da companhia e aos esforços que estamos fazendo para seguir adiante. A intenção dele era transmitir o sentido de urgência”, diz Werff. “Ele escolheu as palavras erradas em um momento informal. Alguém se aproveitou disso para viralizar e espalhar esse conteúdo. Não estamos, não pensamos em estar e não queremos pensar em qualquer processo de quebra ou recuperação judicial.”

Além do plano de reestruturação orquestrado por Van der Werff, a sustentabilidade das operações da Avianca Holdings depende de aportes de investidores e sócios. A United Airlines, dona de quase 30% dos papeis da companhia colombiana, se dispôs a injetar US$ 250 milhões. A Kingsland Holdings, com 21,9% do capital, anunciou na semana passada empréstimo de US$ 50 milhões. “Desde que começou a transformação da Avianca, junto à United Airlines, temos depositado uma enorme confiança na junta diretiva e na nova administração da empresa, liderada por Anko van der Werff”, justificou o controlador da Kingsland, ex-CEO e presidente do conselho, Roberto Kriete. “Estamos comprometidos a apoiar a companhia, não apenas com respaldo financeiro, mas também com uma equipe de experts na indústria. Estou seguro de que a Avianca chegará ao topo e será a melhor companhia aérea da América Latina”. Um otimismo exagerado para quem deixou a empresa dizendo que ela estava quebrada.