Negócios

Avanço geek

Movimentando R$ 20 bilhões ao ano, o mercado antes considerado nerd ganha força entre o público e atrai o interesse de empresas.

Crédito: Gabriel Reis


Se, em algum momento, você curtiu histórias de super-heróis, assistiu a uma série americana, jogou videogame ou esperou ansiosamente o lançamento de uma nova edição de história em quadrinho, há uma enorme chance de você ser um geek. Uma versão moderna dos antigos nerds. Mas esqueça aquela imagem clássica do nerd fora de forma, de óculos antiquados, sedentário e com os olhos voltados apenas para a tela do computador. Eles se modernizaram. As empresas entenderam essa mudança e estão atentas a esse público. Hoje, os geeks se dedicam a colecionar, devorar, assistir e acompanhar tudo o que envolve suas histórias favoritas. E consomem muito. No ano passado, o faturamento ligado ao setor de licenciamentos no Brasil, onde estão produtos ligados a filmes e personagens de sucesso, alcançou R$ 20 bilhões, valor maior que o orçamento anual do estado do Espírito Santo. E a tendência é de alta. Para este ano, a perspectiva é de que esse mercado cresça ao menos 5%.

A onda nerd cobre vários segmentos. O cinema é um dos mais fortes. Das 10 maiores bilheterias de cinemas de 2019 no mundo, nove tiveram temáticas geek, seja um longa de animação, fantasia, medieval, de super-herói ou ficção. Só o filme Vingadores: Ultimato, saga da Marvel repleta de heróis – como Homem de Ferro, Capitão América, Hulk e Viúva Negra, lançado no ano passado, faturou quase US$ 3 bilhões, tornando-se o longa mais rentável de todos os tempos. No Brasil, o blockbuster levou às poltronas 19,6 milhões de pessoas e rendeu R$ 353 milhões. Os geeks também gostam de ler. Segundo a Associação de Cartunistas do Brasil (ACB), o mercado de quadrinhos mobiliza cerca de 20 milhões de leitores ao mês. Os games não poderiam ficar de fora. Criado em 2011 e primeiro do gênero do Brasil a ser registrado pelo Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), o Museu Itinerante do Videogame reúne mais de 300 consoles de várias gerações e atrai anualmente 5 milhões de visitantes, somando as cidades por onde passa. Em 2019, foi destaque da London Games Festival, na Inglaterra.

Para Pierre Mantovani, CEO da Omelete Company, organizadora da CCXP (Comic Con Experience), maior feira geek do mundo, o potencial de consumo está muito associado à memória afetiva. “Antes dos anos 2000, a computação gráfica em filmes era muito pobre, não conseguia conquistar as pessoas”, diz. “A partir dos filmes da saga X-Men, houve uma explosão nos cinemas e esse mercado apareceu para valer. Hoje, de certa forma, todo mundo é um pouco consumidor do mercado geek”. Ele destaca que, há duas décadas, o mundo geek era um nicho pequeno, com poucos produtos. Agora, o cenário é outro. “Ser fã de cultura pop é como ser torcedor de futebol. A pessoa faz tudo para ter algo do seu time ou, no caso, do filme predileto. A cultura geek virou mainstream”, afirma Mantovani. Realizada em São Paulo, a edição da CCXP do ano passado gerou 11 mil empregos diretos e indiretos, injetou R$ 265 milhões na economia paulista e atraiu cerca de 280 mil pessoas, mais do que o dobro da Comic Con original, de San Diego, nos Estados Unidos, que teve 135 mil visitantes.

PÚBLICO ADULTO Pesquisa Geek Power 2020, realizada pela O&CO Inteligência em parceria com a Mindminers, detalhou com precisão o perfil dos geeks brasileiros: 63% são homens, 40% estão entre 25 e 35 anos, 72% são solteiros e 42% pertencem às classes A e B. Os filmes Mulher-Maravilha 2 e Viúva Negra e as novas temporadas das séries Stranger Things e A Casa de Papel são as produções mais aguardadas por esse público em 2020. E por quem comercializará produtos licenciados dessas temáticas. Divulgado no ano passado, um estudo da Rakuteng Digital Commerce mostrou que o público geek gasta 40% mais do que a média nacional.



Ao lado do irmão Vinicius, Felipe Rossetti enxergou esse filão há 10 anos e montou a Piticas, o maior player de produtos geek no Brasil. “Moramos muito tempo nos Estados Unidos e lá essa cultura geek é muito forte. Percebemos que existia um mercado com enorme demanda que ninguém aproveitava no Brasil”, conta. “Daí, surgiu a rede, que vendeu no ano passado 3,2 milhões de camisetas licenciadas de heróis, séries e outros personagens que fazem sucesso. Nosso público é 70% de adultos e 30% de crianças”. A empresa, que conta com 456 franquias, entre lojas e quiosques, faturou R$ 219 milhões em 2019 e calcula crescer 20% este ano, tanto em receita quanto em abertura de lojas.

MAIOR DO MUNDO: Organizada pela Omelete Company, a edição de 2019 da CCXP de São Paulo reuniu 280 mil visitantes, mais do que o dobro da Comic Con original, em San Diego. (Crédito:Georgia Leopoldi )

Para o secretário de Cultura de Santos, Rafael Leal, responsável pelo maior festival geek público do Brasil, que atraiu 75 mil pessoas em 2019, a tendência é de que a cadeia produtiva do setor aumente sua participação nas receitas dos orçamentos municipais. “Algumas pessoas não tinham a dimensão desse mercado e muitas empresas demoraram para perceber a oportunidade. A cidade de Santos conseguiu se destacar por causa do fomento à economia criativa e por aquecer o segmento, além de contar com empresas do ramo audiovisual e de dublagem”, diz Leal. Só no festival do ano passado – que teve como grande atração o ator mexicano Carlos Villágran, intérprete do personagem Quico, da série Chaves –, foram investidos cerca de R$ 1 milhão. Desse valor, R$ 400 mil foram bancados pela iniciativa privada, R$ 300 mil por meio de programa de incentivo à cultura do governo de São Paulo e R$ 300 mil dos cofres públicos municipais. E vem mais evento por aí. Em julho deste ano, Santos sediará o Encontro Anual de Cidades Criativas da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco), evento que ocorre pela primeira vez na América Latina e que fomentará a economia geek brasileira aos players internacionais.

DIVISOR DE ÁGUAS Pesquisa realizada pela Amazon aponta Santos com a quarta cidade mais nerd do Brasil, levando-se em conta as vendas na plataforma de produtos ligados ao segmento geek, atrás de São Caetano do Sul (SP), Niterói (RJ) e Florianópolis (SC). A presidente da Associação Brasileira de Licenciamento (Abral), Marici Ferreira, enxerga a CCXP, que teve sua primeira edição no Brasil em 2014, como um divisor de águas. “Quando os geeks ainda eram os nerds, não tinha gente interessada nesse público. Hoje, não há vergonha em mostrar o gosto por determinação série ou filme e passar esse interesse aos filhos. Por isso, o consumo é grande e as perspectivas de crescimento, significativas”, destaca Marici.


“A partir dos filmes da saga X-Men , houve uma explosão nos cinemas e esse mercado apareceu” PIERRE MANTOVANI, CEO da omelete, organizadora da CCXP. (Crédito:Divulgação)

Os números do setor poderiam ser ainda melhores, não fosse a alta carga tributária, o que, de certa forma, estimula indiretamente o mercado da pirataria. Até a terça-feira 17, a Secretaria-Executiva da Câmara do Comércio Exterior (Camex), do Ministério da Economia, realiza consulta pública sobre a possibilidade de redução de 35% para 20% a alíquota de importação de brinquedos (incluindo bonecos de super-heróis e de personagens ligados a filmes e séries). “O Brasil vai ter de reduzir a carga tributária para aumentar a participação no mercado. Empresários já se movimentam para que essa discussão saia do papel e atenda a esse setor que gera empregos e fatura cada vez mais”, afirma Marici.

Num setor que também depende da importação, principalmente para peças de decoração, canecas e roupas, além dos brinquedos, os impactos do coronavírus e da alta do dólar ainda estão sendo contabilizados. “A alta do dólar atrapalha muito o negócio, porque muitos produtos são importados. Temos dois contêineres parados na China, com 60 mil peças, há 45 dias, que não podem sair de lá por causa da expansão do vírus”, diz Felipe Rossetti, da rede de lojas Piticas. “São, pelo menos, R$ 3 milhões que já poderiam ter entrado na nossa receita”. Apesar dos problemas, ele aposta no crescimento de setores ainda pouco explorados no segmento geek, que são personagens de anime, como Dragon Ball Z e Naruto, para brigar com Marvel e DC Comics, e jogos eletrônicos. Tudo para ampliar o mercado e agradar ao público desse nicho, que, na verdade, já nem é tão nicho assim.

QUICO Festival Geek de Santos, maior evento público do setor no Brasil, homenageou o ator mexicano Carlos Villágran, da série Chaves, e atraiu 75 mil pessoas. (Crédito:Divulgação)