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Atrás de petrodólares

Crédito: Alan Santos

O ministro Paulo Guedes encontrou um argumento, digamos, duvidoso para justificar a alegação — falsa, pelos números — de que o Brasil estaria crescendo mais do que a média mundial. Ele esteve em viagem a Dubai com o intuito firme de angariar “petrodólares” para investimentos no País e, visando o objetivo, resolveu apostar na narrativa otimista. Não parece ter convencido muitos, pela reação de desconfiança que despertou na maioria. Junto dele, o próprio presidente Bolsonaro resolveu endossar o coro e disse aos interlocutores árabes que a Amazônia não estaria ardendo em chamas. Ao contrário. Na interpretação dele, a floresta da região estaria quase tão preservada como à época do Descobrimento em 1500. As fanfarras das duas autoridades brasileiras, que soaram como escárnio, não ajudaram no retorno almejado. O presidente Bolsonaro chegou a exagerar nos rapapés, dizendo que a Arábia Saudita seria o parceiro preferido do País. Esqueceu, ou quis estrategicamente esconder, que os chineses, europeus e americanos possuem hoje negócios muitos mais vultosos por aqui do que o Oriente Médio. Os árabes, por sua vez, são, decerto, fortes candidatos a participarem de futuros leilões de óleo e gás no Brasil. Na feira de aviação Dubai Airshow, Guedes ressaltou que o programa de parceria entre o governo federal e o capital privado tende a ser ampliado. Segundo ele, investimentos de R$ 700 bilhões já estão garantidos dentro desses programas de parceria. Em sua versão alvissareira, a corrente de comércio brasileira deverá atingir a marca de meio trilhão de dólares neste ano. Pelos cálculos da pasta, até outubro passado a balança já estaria em US$ 413 bilhões, o maior valor registrado na série histórica iniciada em 1997. Os valores mensais da corrente de comércio variam, mas estão girando na casa de US$ 45 bilhões a cada 30 dias. Para Guedes, o Brasil está se abrindo de novo e os “notáveis” investimentos árabes podem ser uma alavanca extraordinária na retomada. O Brasil já teria investimentos contratados de US$ 100 bilhões em áreas como aeroportos, telecomunicações e portos, se convertendo em “paraíso dos empreendedores”, não mais dos “rentistas” baseados em taxas elevadas de juros, como diz o ministro. Foi um cenário róseo o que ele pintou no circuito pelo Oriente Médio, numa coreografia bem ensaiada e tática. No seu entender, há uma “grande mudança de eixo” em curso no desenvolvimento econômico nacional após a queda, no passado, numa “armadilha de excesso de intervenção estatal”. Para espectadores que assistiram à exposição do ministro, toda a conversa jogada ali foi como se ele estivesse falando de outro País. Contar com dinheiro de fora em um momento como esse não parece ser, de todo o modo, o melhor caminho. O comércio mundial de mercadorias está desacelerando por causa das interrupções de produção e de fornecimento em setores estratégicos. Os recentes choques de abastecimento somados ao congestionamento dos portos provocaram a desaceleração, segundo a OMC. A demanda por bens comercializados também estaria diminuindo e as exportações, caindo. O declínio mais acentuado foi sentido no índice de produtos automotivos. De acordo com a Organização, as perspectivas para o comércio mundial continuam sendo afetadas por riscos consideráveis, como as disparidades regionais, a fraqueza contínua nas áreas de serviços e as taxas desiguais de vacinação, sobretudo nas nações menos desenvolvidas. A Covid-19 ainda desponta como grande ameaça aos negócios e, nesse sentido, o ministro Guedes, o presidente Bolsonaro e todo o governo podem se frustrar muito nas análises que lançam nesses circuitos internacionais.

Carlos José Marques Diretor editorial