Investidores

Até onde pode chegar o dólar?

Incerteza eleitoral no Brasil e aumento da aversão a risco no mercado global obrigam o BC a aumentar sua atuação no câmbio

Crédito: Fabio Motta/Estadão

Casa de câmbio no Rio de Janeiro, na quinta-feira 7: turbulência no mercado fez cotações disparar (Crédito: Fabio Motta/Estadão)

Se fosse necessário resumir a turbulência da semana no mercado financeiro com apenas um número, seria este: na quinta-feira 7, a B3 registrou um recorde absoluto de negócios tanto nas ações quanto nos derivativos de câmbio e juros. Foram 4,66 milhões, ante um recorde anterior de 3,7 milhões, no dia 29 de maio deste ano. Além de chegar a R$ 3,98 no mercado futuro, e a R$ 4,08 no mercado turismo, o dólar assustou pela volatilidade: a diferença entre a cotação máxima e mínima do dia chegou a 5%. As causas para isso podem ser reduzidas a duas. A primeira, e mais importante delas, é a indefinição eleitoral. Uma pesquisa de intenção eleitoral do site Poder360 mostra que o preferido é Jair Bolsonaro (PSL), com 25% das intenções de voto, seguido por Ciro Gomes (PDT), com 12%.

Outra pesquisa, da XP Investimentos, realizada apenas junto a investidores, mostra que 48% deles apostam em uma vitória de Bolsonaro e 31% cravam o nome de Geraldo Alckmin (PSDB). Esse resultado é uma inversão exata dos números da pesquisa anterior, divulgada no fim de maio. A polarização entre Bolsonaro, que ainda não apresentou um programa econômico claro, e Ciro Gomes, que defende políticas populistas como a extinção do teto de gastos do governo, apavora os investidores, o que afeta os juros, o câmbio e os preços das ações. “Ninguém sabe calcular o risco desse cenário de extremos que está se desenhando para a eleição”, diz Karel Luketic, analista-chefe da XP Investimentos.

O Ibovespa cai 3.34% no ano. Em um único pregão, as empresas perderam R$ 57 bilhões em valor de mercado (Crédito:Renato S. Cerqueira/Futura Press)

A outra causa é a mudança no cenário internacional. Até o primeiro trimestre deste ano havia a convicção entre os investidores de que a economia global permaneceria com juros baixos, dinheiro abundante e crescimento sustentável. Porém, a elevação da inflação nos Estados Unidos agora faz prever uma alta dos juros por lá. A remuneração dos títulos referenciais de dez anos do Tesouro americano chegou a ultrapassar 3,1% ao ano no mercado futuro. Na quinta-feira 7, a taxa havia recuado para 2,94%, mas os prognósticos são de alta. “O Federal Reserve já anunciou que vai retirar US$ 1,5 trilhão da economia americana ao longo dos próximos dez anos”, diz Bruno Foresti, gerente de câmbio do banco Ourinvest. Um movimento semelhante deve ocorrer do outro lado do Atlântico, promovido pelo Banco Central Europeu, diz Foresti. Não por acaso, o dólar não subiu apenas para os brasileiros. Mexicanos e sul-africanos puderam observar o mesmo fenômeno, com desvalorizações superiores a 3% em suas moedas apenas nos sete primeiros dias de junho (observe o quadro).

A soma de uma eleição indefinida com investidores internacionais reticentes foi a receita para a crise da semana passada. O fato de Ilan Goldfajn, presidente do Banco Central do Brasil (BC), ter convocado às pressas uma entrevista coletiva na noite da quinta-feira 7, mostra como o mercado está intranquilo. Banqueiros centrais falam pouco, pois sabem do efeito de suas palavras sobre preços e expectativas. Porém, Goldfajn não se furtou a ser enfático ao comentar os acontecimentos do dia. “A situação internacional mudou nas últimas semanas, o que se refletiu em uma mudança dos fluxos de capital, que agora são atraídos pelas economias avançadas, em especial os Estados Unidos”, disse ele. E aproveitou para mandar um recado: especular contra a moeda brasileira fará mal à saúde financeira. “O Banco Central vai colocar até US$ 20 bilhões de dólares em swaps cambiais no mercado para prover liquidez”, disse ele. “Não temos preconceito em usar qualquer instrumento para garantir o bom funcionamento do mercado, isso depende só da necessidade.”

Um swap cambial é uma operação financeira em que as duas partes trocam (swap, em inglês) a variação do dólar pela dos juros. Quem compra o swap recebe a diferença da alta do dólar e paga ao BC os juros durante a vigência do contrato. Nos últimos anos, o BC vem vendendo quantidades maiores ou menores desses contratos. Antes da turbulência, havia o equivalente a US$ 8 bilhões em aberto. Ao anunciar que vai vender mais US$ 20 bilhões, o BC mostra uma sinalização clara de que vai jogar pesado para evitar maiores trancos no câmbio.

Ilan Goldfajn disse que o BC vai colocar até US$ 20 bilhões em Swaps cambiais no mercado (Crédito:Valter Campanato/Agência Brasil)

Há razões para essa atuação firme do BC. O mercado financeiro não mostrava tanto nervosismo desde a divulgação da gravação da conversa entre o presidente Michel Temer e o empresário Joesley Batista, em maio de 2017. Além da alta do dólar, as ações desabaram. O principal índice da Bolsa fechou a 73.851 pontos, nova mínima do ano. No acumulado de 2018, a baixa é de 3,34%. A reversão das expectativas em relação ao desempenho da economia neste ano também estimulou as vendas. Em janeiro, os analistas mais otimistas cravavam um crescimento de até 3,5% no Produto Interno Bruto (PIB). Nas últimas semanas, os mais pessimistas dizem esperar magros 0,8%. Crescimento baixo significa arrecadação de impostos em queda, o que eleva a preocupação de que o governo não consiga fechar suas contas em dia neste ano. Governo que não arrecada dinheiro tem de imprimi-lo. Isso provoca inflação e pode levar o BC a elevar os juros.

Nada disso aconteceu ainda, mas os investidores já se anteciparam. As taxas de juros futuros dispararam e bateram nos limites máximos de oscilação permitidos pela Bolsa. A taxa dos contratos de juros futuros com vencimento em janeiro de 2019 subiu de 6,975% ao ano, para 7,575% ao ano, maior nível desde os 7,82% ao ano de setembro de 2017. Na coletiva realizada no BC, Goldfajn teve de descartar a hipótese de uma reunião extraordinária do Comitê de Política Monetária, o Copom, para elevar os juros, rumor que havia começado a circular já na tarde da quarta-feira 6. “Os fundamentos da economia brasileira são sólidos e as perspectivas de inflação para os próximos 12 meses estão abaixo da meta”, disse ele, sinalizando que não vê espaço para alta de juros. O presidente do BC deixou claro que não vai mudar a Selic para conter oscilações no câmbio. Segundo ele, o efeito da alta do dólar sobre os preços será mitigado pela ociosidade da economia e pela expectativa de inflação sob controle. Mesmo assim, parte do mercado começou a apostar em um aumento de 0,50 ponto percentual na próxima reunião do Copom, marcada para 20 de junho.

Nesse cenário, a recomendação para os investidores é evitar, ao máximo, o risco. Se houver alguma vocação para especular, a sugestão é tentar aproveitar a alta dos juros para travar uma remuneração elevada. No entanto, será difícil. Na manhã da quinta-feira, o Tesouro Direto suspendeu as negociações com títulos públicos devido à volatilidade dos preços e não se descartam movimentos semelhantes nos próximos dias. “O investidor deve agir com racionalidade e procurar evitar os riscos”, diz Raphael Figueiredo, analista da casa de análise independente Eleven.