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“Até 2019, havia mais gente nas prisões do que na bolsa de valores do Brasil”, diz Ricardo Brasil, trader e influencer de finanças

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Para Ricardo Brasil, as pessoas descobriram a bolsa de valores nos últimos anos, mas ainda há um mercado virgem a explorar, já que há, hoje, R$ 1 trilhão investidos em poupança (Crédito: Divulgação)

Ricardo Brasil, publicitário, trader e criador do canal Ganhando a Vida Adoidado no YouTube, é o convidado do novo episódio do MoneyPlay Podcast, programa criado para jogar uma luz sobre o mundo das finanças, apresentado pelo educador financeiro Fabricio Duarte.

Brasil, que fez curso de especialização em Relações com Investidores e pós-graduação em Análise Financeira sobre captação de recursos por meio de Ofertas Públicas (IPOs ou Follow-ons) na Bolsa de Valores, conta como foi a transição da carreira de publicitário para a de trader e como é ser coach financeiro. 

>>> Confira aqui o vídeo na íntegra.

Quando ainda atuava como publicitário em São Paulo, Ricardo Brasil já era apaixonado por finanças, mas quando sua mãe teve câncer, ele largou tudo e voltou para o Rio para cuidar dela. A partir daí, passou a levar mais a sério os investimentos na bolsa, abandonando de vez a Publicidade. “Em um ano fiz seis vezes o que ganhava em agência e que já não era pouco”, justifica.

Ele conta que, na época em que começou a investir na bolsa, havia poucas referências no mercado, como Leandro Stormer, Didi Aguir e Marcio Noronha e que utilizava apostilas do “mercado negro” para aprender o básico, como fazer análises gráficas. Também não havia opções de corretoras como hoje, então ele aplicava seu dinheiro em fundos. 

“Atualmente, é fácil de conseguir materiais e informações e você sabe tudo o que está acontecendo no mercado na palma da mão”, afirma. O que pode ser um problema, em sua opinião: “muita informação acaba atrapalhando. Quanto mais simples, melhor.”

Um “flipper” na bolsa

Quando descobriu os IPOs (Oferta Pública Inicial, em português, quando uma empresa abre seu capital na bolsa de valores), Ricardo Brasil começou a atuar como “flipper”. O nome vem do verbo em inglês “to flip”, que significa virar um objeto rapidamente uma ou mais vezes. Na prática, refere-se a quem compra e vende ações de uma empresa no dia em que ela faz seu IPO. 

“Até 2018, se você comprasse qualquer ação na reserva do IPO e vendesse na abertura, a maior parte dava lucro. Somando o ano inteiro, saía sempre no lucro”, explica. “Quando saquei isso, ganhei muito dinheiro com esse negócio.”

Em apenas dois dias, o trader ganhou R$ 250 mil com “flipagem”, uma média de 10% do valor investido. “Percentualmente é maravilhoso. De todo o dinheiro que fiz na bolsa, 20% foi com IPO”, afirma Brasil. 

Mas este tipo de “player”não é bem recebido no mercado. “As empresas querem uma relação de longo prazo com o investidor”, explica. Brasil conta que houve uma fase em que, se alguém “flipasse” três ofertas seguidas na B3 (bolsa de valores brasileira), não poderia participar de uma quarta. E não é apenas no nosso país que esse tipo de investidor é mal visto. “Nos EUA, só era possível fazer uma vez por mês e você  já entrava numa ‘black list’, pois lá quem decide quem pode comprar açõs em um IPO é a corretora.”

Há espaço para mais IPOs?

Questionado sobre o volume de ofertas iniciais de ações na B3, Brasil acredita que este ano bata em 50 IPOs. “Acho que o mercado está mais maduro do que em 2007, quando teve um boom de IPOs. As empresas também estão mais estruturadas”, diz. “Com quase 2 bilhões de pessoas ativas na bolsa, conseguiríamos fazer um IPO só para pessoas físicas.”

Para o futuro, o trader acredita que, por conta da eleição, as empresas vão tentar abrir capital antes para não correrem risco, mas que depois deve voltar ao ritmo normal. “Faz todo o sentido as empresas  abrirem capital. Sé me preocupa a inflação subindo, pois as pessoas podem voltar para a renda fixa e a bolsa precisa estar aquecida para ter IPO.”

Além disso, Brasil ressalta que as pessoas descobriram a bolsa de valores, mas ainda há um mercado virgem a ser explorado, já que há, hoje, R$ 1 trilhão investidos em poupança. “Até dois anos atrás, tinha mais gente nas prisões do que na bolsa de valores no Brasil”, diz. “É um caminho sem volta e, por conta disso, haverá muitos IPOs no mercado.”

Para quem ainda tem medo de investir além da poupança, ele orienta: “quem ainda não abriu conta em corretora, abra em qualquer uma. Não precisa ir pra bolsa, pode ficar na renda fixa que é melhor do que a poupança, e depois vai testando outros investimentos aos poucos.”

Curto x longo prazo

Apesar da vasta experiência em estratégia de curto prazo, o trader não recomenda começar a investir nessa modalidade sem estudar primeiro. “O pessoal quer fazer milhões, mas quer em um ano. Do dia pra noite não acontece”, afirma. “E está provado que 95% – ou mais – dos day traders (quem opera ativos financeiros apostando na oscilação de preço ao longo do dia) perdem dinheiro.”

“Aplicar em ações não significa que você precisa ser o day trader ‘cracudo’ que fica o dia inteiro ‘cheirando’ ação”, diz Brasil. “Quem quer ter um rendimento interessante não precisa pensar necessariamente em ações, pode ser um fundo.”

Ele aponta outra questão negativa para um trader de curto prazo: toda hora é preciso reavaliar as estratégias. “Quem fala que só ganha na bolsa de valores é mentiroso. Perder dinheiro na bolsa é uma constante”, assume. “Já perdi a Rússia na bolsa, mas ganhei os Estados Unidos. A conta está positiva.” 

Por outro lado, o trader não é muito fã de estratégias de longo prazo. “Mais da metade das empresas que compunham o primeiro índice Bovespa já quebrou”, aponta. “O chamado ‘buy and hold’ (comprar e segurar, em português, ou estratégia de manter uma ação a vida inteira para ganhar dividendos) não é ruim, mas a pessoa precisa rebalancear a carteira dela.”

“A diferença entre o buy and hold e o day trade é que o segundo descobre em um dia o que o primeiro  descobrirá em 20 anos”, compara. “O problema de uma carteira de longo prazo sem rebalancear é que se ela der errado, você só vai descobrir daqui a 20 anos. E eu só tenho uma vida para viver.”

Confira também: primeiro, segundo e terceiro episódios do programa, com o economista Ricardo Schweitzer e os educadores financeiros Patricia Lages e André Massaro.