Economia

As sombras de Bolsonaro

Diante da formação de um bloco de oposição mais organizado após a soltura de Luiz Inácio Lula da Silva, governo precisa se preparar para a “sombra” que a esquerda pretende ser daqui para frente ao presidente Jair Bolsonaro e seus ministros

Crédito: Nelson Almeida / AFP

FESTA EM SÃO BERNARDO Ex-presidente Lula realiza seu primeiro ato político após ter deixado a Superintendência da Polícia Federal, em Curitiba (PR) (Crédito: Nelson Almeida / AFP)

Depois de 11 meses de governo Bolsonaro, a oposição promete entrar em campo. Ou pretende. E a estratégia tem dois eixos: ser dura e focar na economia. “Não faremos como eles [oposição] que não aceitaram a vitória da Dilma em 2014 e articularam um golpe. Vamos lutar democraticamente e mostrar à população que há outra política possível, outro caminho viável, e ele não maltrata os mais pobres.” Foi esse o tom do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no sábado 9 ao discursar no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo (SP), um dia após ser solto. Ele movia ali sua primeira peça de xadrez no jogo político brasileiro após sair da superintendência da Polícia Federal, em Curitiba.

Com o objetivo de mapear de perto as ações do governo de Jair Bolsonaro, começa a se desenhar no horizonte a figura de um gabinete paralelo, um conjunto de políticos e especialistas experientes que prometem divulgar propostas alternativas aos planos apresentados pela atual gestão da República. O termo gabinete paralelo, ou governo paralelo, vem da expressão britânica Official Opposition Shadow Cabinet que, na tradução livre, significa Gabinete Sombra da Oposição Oficial. A iniciativa, apesar de comum em alguns países da Europa, aconteceu poucas vezes na América Latina, uma delas no Brasil. Em 1990, conduzida pelo próprio Lula. Após perder a corrida eleitoral para o ex-presidente Fernando Collor de Melo, o PT criou um gabinete paralelo para esclarecer o que queria a esquerda. “Agora, conhecedores da máquina pública, os políticos envolvidos terão maior poder de comunicação com as massas”, afirmou, sob condição de anonimato, uma fonte próxima ao ex-presidente Lula.

Ainda em um processo de discussão de termos, condições e estratégias, o desenho de um governo paralelo parece agradar parte da esquerda, inclusive partidos menos alinhados com o PT, mas dispostos à unificação. “O discurso do ex-presidente Lula na sede do Sindicato dos Metalúrgicos, foi um aceno claro para as forças progressistas”, afirma Eleonor Caetano, cientista política EDEDEDEDEDE, que estava no encontro. Na avaliação da especialista, mais que incitar a resistência, o ex-presidente chamava a militância para a ação. “Apesar de parecer um discurso inflado e que estimulava o conflito, o objetivo era convidar as pessoas e parlamentares progressistas a agir, em vez de apenas se defender”, diz.

Essa sensação também foi sentida pelo time de figuras públicas presentes no ato político. Os deputados Marcelo Freixo (PSOL-RJ) e Jandira Feghali (PCdoB-RJ) eram exemplos dessa tentativa conciliatória. Freixo disse que o movimento foi forte, importante e intenso. “O Lula tem uma potência muito grande na rua, e agora vamos tentar unificar todo o campo progressista para deter o retrocesso. Nós perdemos a eleição, mas temos um país em disputa”, disse Freixo. O deputado cravou sua candidatura à prefeitura do Rio de Janeiro em 2020, movimento chancelado pelo ex-presidente.

O sentimento de que é hora de reconstruir permeava o cenário. E de reconstrução de pontes na própria esquerda. Gerson Tavares, ex-assessor parlamentar do PT em Brasília e hoje consultor independente, avalia que o PT cometeu alguns erros importantes ano passado. “E isso pode ter custado a eleição. Agora, o desafio é encarar a esquerda de cabeça erguida, mas sem a prepotência que afastou o Ciro [Gomes] do partido em 2018.”

Sobre as alianças, o caminho ainda é longo. Segundo uma fonte próxima ao ex-presidente, o plano é lançar nas próximas semanas um projeto efetivo de oposição, que será dividido em algumas frentes: “Atuação dos nossos deputados e senadores em Brasília, trabalho de base encabeçado por Lula, que sairá em caravana pelo País, e aproximação com líderes da esquerda”, afirma Tavares. Com relação à criação de um gabinete da sombra, especulam-se no PT nomes graúdos, e de partidos distintos, para composição deste time. Apesar de uma relação mais harmoniosa com o PSOL e PCdoB, o objetivo do PT é abrir o diálogo com outros partidos. No final de semana Lula externou o desejo de um encontro com Ciro Gomes (ver boxe), candidato à presidência em 2018 pelo PDT e que disputa o eleitorado nordestino com os petistas. “Apesar do aceno acho difícil uma pacificação com Ciro Gomes neste momento”, afirmou um parlamentar do PT, que preferiu não ser identificado.

SINAL AMARELO Depois do discurso inflamado de Lula, o presidente Jair Bolsonaro e os ministros Paulo Guedes (Economia) e Sérgio Moro (Justiça) devem modular a forma de reação – se mais branda, para não polarizar e aproveitar o bom momento de relacionamento com o Congresso e “emplacar medidas estruturantes na economia”, informam assessores da presidência, ou se mais combativa, que é o estilo Bolsonaro.

Dentro deste contexto de reformas, o governo promete se aliar tanto com conservadores quanto liberais, em uma agenda para reformar o estado brasileiro. Para Evaristo Petroni Júnior, coordenador de estudos econômicos da L&P Associados, “até agora a maior oposição ao governo foi o próprio governo, então talvez com a criação de uma resistência opositora haja um ambiente mais amistoso entre as forças aliadas à agenda liberal de Paulo Guedes”. Petroni diz que o êxito de um gabinete paralelo só se dará se a situação econômica brasileira seguir fraca. “A população não tem mais paciência. Já são quatro anos de estagnação ou retração. Se as ações voltadas para o emprego não surtirem efeito, se a queda da Selic não for sentida na ponta e a renda não aumentar, o governo vai sentir.”

Nessa mesma linha de pensamento o professor de economia e ex-consultor econômico do governo do estado de São Paulo entre 2006 e 2010 Frederico Hupfawer entende que a melhor saída – para a economia e governo – é se afastar de polêmicas. “Se a economia reagir, o mérito é do governo. Se piorar, o ônus também”, afirma. “A política do quanto pior, melhor foi usada com a Dilma, depois Temer, e agora com Bolsonaro. O problema é que isso não é bom para o País. Os dois lados desta polarização criaram um ambiente hostil ao outro. Hoje não adianta criticar a esquerda por torcer contra o Bolsonaro se os atuais apoiadores do presidente, em 2015, estavam torcendo contra o País para ver a saída da presidente.”

Radicalizar ou não parece a pergunta-chave. Para o doutor em ciências políticas e professor convidado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (RFRGS) César Longo a melhor solução para Bolsonaro é deixar que o PT radicalize. “Se Bolsonaro entrar na política da radicalização, vai inflamar o discurso petista. Quanto menos o presidente tratar desse assunto, menos combustível dará para a esquerda”, afirma. O acadêmico ressalta ainda que Lula deve focar o discurso na figura do ministro Sérgio Moro. Outra prioridade, afirma Longo, é organizar a base para aprovar as reformas.


“Comigo? Nem pensar!”

Mateus Bonomi / AGIF

Importante líder da esquerda e competidor direto por votos do PT na Região Nordeste, o ex-ministro Ciro Gomes (PDT) tem afastado toda e qualquer chance de formar uma ampla frente da esquerda ao lado do Partido dos Trabalhadores. Em entrevistas recentes, Ciro reconhece o ex-presidente Lula como um amigo, mas afirma que não fará parte ~de uma farsa~ sobre uma eventual candidatura do petista – hoje impedido de concorrer a qualquer cargo eletivo em função de Lei de Ficha Limpa.

Após a saída do ex-presidente da Superintendência da Polícia Federal em Curitiba, no Paraná, Ciro demorou alguns dias até se manifestar sobre a soltura, ainda que Lula tenha externado seu desejo de conversar com o ex-aliado e amigo de longa data. Durante os 580 dias que estava preso, Ciro não visitou o ex-presidente, e pretende manter essa relação. O pedetista, que tem corrido o Brasil já de olho nas eleições de 2022, diz não descartar a possibilidade de uma quarta corrida presidencial apostando, justamente, no vácuo entre Lula e Jair Bolsonaro. “Para não ficar entre o coisa ruim e o coisa pior, escolhe um candidato novo.”

Sobre o processo que levou o ex-presidente à prisão, Ciro diz não ter dúvida sobre a suspeição do ministro da Justiça, Sérgio Moro, enquanto era o juiz responsável pela Lava Jato, mas também não crê que Lula seja inocente.