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As mulheres que reescrevem a história do vinho

Saskia em um dos vinhedos da família Rothschild. No passado, eram pouquíssimas as mulheres no mundo do vinho, e aquelas que chegavam a uma vinícola eram encaminhadas para o setor de atendimento ao público.

As mulheres que reescrevem a história do vinho

No ano passado, ao comemorar os 150 anos da compra do Château Lafite pela família Rothschild, o barão Eric anunciou a chegada da nova geração ao poder do grupo Domaines Baron de Rothschild, com seus 1.200 hectares de vinhedos, espalhados entre a França, a Argentina e o Chile. Assumiu o posto a jovem Saskia de Rothschild, hoje com 32 anos, a primeira mulher a dirigir este premier grand cru de Bordeaux. Ela pertence a uma nova geração de executivas dispostas a transformar essa indústria.

Um ano antes, a também tradicional Marchesi Antinori deu posse a sua nova presidente: Albiera Antinori, da 26ª geração da família que elabora vinhos na Toscana desde 1385. Agora com 51 anos, Albiera, junto com suas irmãs mais novas Alessia e Alegra, formam o trio feminino que comanda rótulos cobiçados como Tignanello e Solaia.

A francesa Saskia e a italiana Albiera assumiram o comando das empresas familiares preocupadas com a gestão de seus negócios e em fazê-los crescer. Sabem, e já deram diversas entrevistas sobre isso, que não podem deitar em berço esplêdido, que é preciso ir atrás de novos consumidores para seus vinhos e entender o público mais jovem. Ao ganharem os holofotes, elas não levantam a bandeira feminista das primeiras enólogas, provavelmente porque não é mais tão necessário assim. No passado, eram pouquíssimas as mulheres no mundo do vinho, e aquelas que chegavam a uma vinícola eram encaminhadas para o setor de atendimento ao público. Eram poucas as exceções, como a Barbe-Nicole Clicquot Ponsardin, a famosa Veuve Clicquot. Ao ficar viúva, ela assumiu a vinícola do marido e revolucionou os champanhes em pleno século 19.

Apesar de não haver dados oficiais sobre a participação feminina entre enólogas, sommeliers e donas de vinícola, é fato que há um número crescente de mulheres neste universo. A partir das décadas de 1980 e 1990, a chegada da tecnologia tirou o empecilho da força física para cuidar das vinhas, dos tanques e das barricas, o que poderia afastar algumas mulheres deste trabalho. E o preconceito vem sendo vendido safra a safra.

Atualmente, a maioria das mulheres discorda que seus vinhos são mais femininos (o que pode ser descrito como elegantes) do que masculinos (aqueles mais potentes). Há aquelas que elaboram vinhos potentes, como a pioneira Susana Balbo, na Argentina, com seus grandes malbecs. Mas são, sempre, vinhos que respeitam o terroir em que são cultivados, como é chamado o conjunto de solo, clima e variedade de uva.

Mesmo assim, elas sentem a necessidade de se unir com outras mulheres de sua profissão. Na França, por exemplo, há pelo menos dez associações de enólogas em diversas regiões produtoras. A mais famosa talvez seja a Femme et Vins de Bourgogne, formada em no ano 2000. Na Argentina, há o Clube de Mulheres Profissionais do Vinho, que reúne 70 enólogas ou agrônomas que ocupam postos de primeira linha nas vinícolas. A ideia, diz María Laura Ortiz, uma das integrantes, é fortalecer a participação das mulheres na indústria do vinho, a capacitação conjunta e seu crescimento em postos de tomada de decisão. Isso sem falar que a crítica mais respeitada no mundo do vinho é uma mulher, a inglesa Jancis Robinson. São todas personagens de uma história que terá seu final feliz quando o debate sobre vinhos e mulheres se tornar obsoleto, uma questão do passado.