As mulheres estão em quarentena – e muitas, em risco

As mulheres estão em quarentena – e muitas, em risco

O alerta foi dado por ONG’s atuando na China, enquanto o novo coronavírus mantinha os moradores da província de Hubei dentro de casa: os casos de violência doméstica contra mulheres triplicaram no mês de fevereiro, com 90% deles de alguma maneira ligados ao confinamento.

Nos Estados Unidos, onde a violência doméstica responde por um terço dos casos de violência em geral reportados, um dos maiores serviços sociais de proteção notou, nas últimas semanas, que minguaram as chamadas das mulheres que mantém sob monitoramento – isso porque as vítimas estão agora vigiadas 24 horas por dia, trancadas com seus agressores. O mesmo aconteceu na França. No primeiro fim de semana de quarentena no Rio de Janeiro, houve um aumento de 50% nos casos de agressões dentro de casa registrados no Plantão Judiciário.

Com esse cenário se desenhando, grupos de defesa dos direitos humanos já elevaram o tom do alerta e da mobilização. A Human Rights Watch, ONU e ONU Mulheres mostraram sua preocupação em documentos que recomendam, entre outras medidas, que o atendimento e o apoio às vítimas nos lugares afetados pelo coronavírus não podem parar de funcionar, e devem ser tratados como serviços essenciais. Porque nem sempre são: na China, houve protestos quando as denúncias de agressões domésticas simplesmente pararam de ser atendidas, com a polícia mais ocupada em deter quem estava sem máscara nas ruas (a violência doméstica é considerada crime por lá desde 2016).

Há um consenso de que os números da violência doméstica contra mulheres são subnotificados no mundo todo – por medo, vergonha, impotência, falta de recursos financeiros ou de acesso a canais de denúncia. Nas localidades em quarentena, com todas as atenções voltadas para a contenção da doença e o isolamento valendo como regra, é fácil imaginar que essa subnotificação poderá ser ainda maior. Mas basta ver os números que sobem à superfície para entender como são monstruosos, em vários sentidos. Pela abrangência, números de pandemia.

Para ficar no caso brasileiro: dados do Ministério da Saúde compilados pelo jornal Folha de S.Paulo no ano passado falam em uma mulher agredida a cada 4 minutos, 70% delas dentro da própria casa. Essas, sobreviveram. O feminicídio soma mais uma a cada 7 horas nas estatísticas. Um estudo feito pela Universidade Federal do Ceará, com dados da Lei Maria da Penha e do IBGE, estimou em mais de R$ 1 bilhão por ano as perdas geradas pelas faltas ao trabalho no Brasil em decorrência de agressões. Nessa conta, não está a perda de produtividade. Nem os gastos com emergências médicas, internações, terapias e medicamentos. Nem os dramas pessoais, para a vida toda.

Os números são monstruosos, sim. E numa emergência como a que estamos vivendo, quando tudo parece meio fora de lugar, o instinto de sobrevivência coletivo manda fazer o que funciona: manter abertas as portas dos serviços públicos e oficiais de proteção às mulheres vítimas de violência enquanto muitas outras vão estar fechadas. Estimular os serviços privados e do terceiro setor, garantindo que possam continuar também. Garantir ainda que as medidas protetivas necessárias sejam emitidas pela Justiça mesmo em meio a um certo caos, com menos papel e mais ação. E dar acolhimento para as mulheres (muitas vezes com os filhos) que tiverem de sair de casa para preservar a vida, quando todos estamos sendo orientados a permanecer nela pelo mesmo motivo.

Neste momento, é tão simples e eficiente como (re)aprender a lavar as mãos.

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Sobre o autor

Junia Nogueira de Sá é jornalista, consultora de comunicação estratégica e conselheira de empresas e organizações sociais; é também delegada brasileira no Women20 do G20, associada à WomenCorporateDirectors e ao movimento Mulheres Investidoras Anjo. Estuda, pesquisa e escreve sobre o universo feminino há mais de 10 anos.


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