Economia

As moedas no vermelho

Pressionada por um tuíte de Donald Trump, a Turquia mergulha em mais uma tormenta econômica e revive o temor de uma nova crise nos países emergentes

Crédito: Chris McGrath/Getty Images

Peso no bolso: a lira turca perdeu 40% de seu valor em relação ao dólar em um ano e o preço da moeda americana disparou nas casas de câmbio (Crédito: Chris McGrath/Getty Images)

Uma nova onda de desconfiança contra a Turquia foi deflagrada num episódio insólito de desgaste com os americanos. Em meio a um impasse diplomático em torno da prisão do pastor americano Andrew Brunson , detido por forças turcas, o presidente Donald Trump, que pedia sua libertação, decidiu intervir. Anunciou, pelo Twitter, que iria subir as tarifas sobre aço e alumínio de 25% e 10% para 50% e 20%, respectivamente. Brunson não tem nenhuma relação com os metais nem com comercio exterior. Foi preso acusado de participar do golpe militar malsucedido em 2016, respondido de forma implacável pelo presidente turco, Racep Erdogan. Porém, as taxas foram a forma encontrada pela administração Trump de pressionar a Turquia. “Nossas relações com a Turquia não são boas neste momento!”, escreveu o presidente americano no Twitter, em 10 de agosto. Embora os dois produtos representem apenas 6% das exportações, o efeito simbólico teve eco entre investidores e a lira turca caiu 10% somente no dia da publicação de Trump, acentuando uma crise cambial que dura meses e sinalizando um caminho insustentável que leva temor aos demais emergentes. Será a origem de uma nova crise global?

Não fosse a manobra de Erdogan para antecipar em pouco mais de um ano as eleições, dificilmente ele teria condições de se confirmar no cargo como conseguiu em junho. A Turquia é o exemplo mais extremo da situação atual de economias emergentes. Com descontrole de gastos, contas externas negativas e incertezas políticas crescentes, o país vem sendo visto cada vez mais com desconfiança por investidores que temem a capacidade do governo em honrar seus compromissos. O fluxo de saída de dólares, observado em outros emergentes devido à alta de juros nos Estados Unidos, é intensificado pela falta de ação das autoridades locais e de problemas políticos. O resultado é uma desvalorização abrupta da moeda, com consequentes impactos na inflação e na dívida externa. A lira turca já perdeu 41,4% do seu valor ante ao dólar em um ano e a inflação alcançou 15,85%. Como grande importadora de petróleo, a Turquia também sofre com a cotação do barril, hoje próximo de US$ 70. Erdogan tenta se apoiar em parceiros menos tradicionais, como o Qatar, que aprovou um empréstimo de US$ 15 bilhões aos turcos.

Um quadro complexo como esse demandaria uma resposta por meio de uma alta de juros, para evitar o avanço da inflação e para conter a saída de dólares, mas Erdogan recusa a jogar a cartilha ortodoxa e impõe a sua influência sobre a economia, criando regras para tentar restringir a fuga da moeda americana e convocando a população a defender a lira turca. Ao promover mudanças recentes nas normas do banco central, ele garantiu, por exemplo, a ingerência do governo sobre a autoridade monetária. O ministro das Finanças, Berat Albayrak, é seu genro. Eleito primeiro-ministro em 2003, Erdogan tornou-se presidente em 2014. O político, ligado a movimentos nacionalistas muçulmanos, ampliou sua influência na última década, prendeu opositores e jornalistas, fazendo uso de manobras judiciais polêmicas. A popularidade foi garantida graças aos investimentos públicos, a maioria em construção, registrando crescimento no PIB de 7% em 2017. Mas o risco da solidez da economia já vinha sendo levantado há meses por investidores, o que foi intensificado pelo tuíte de Trump.

Tensão emergente: o presidente turco, Racep Erdogan (à esq.), reagiu às tarifas americanas pedindo um boicote a produtos dos EUA. Na Argentina, o governo de Maurício Macri (centro), subiu os juros para 45%. Já no Brasil, o ministro da Fazenda, Eduardo Guardia, reforçou as blindagens do País (Crédito:AP Photo | Reprodução | Marcelo Chello/CJPress)

A resposta de Erdogan a Trump foi na mesma linha, com o anúncio de tarifas sobre produtos americanos importados: 140% sobre bebidas alcoólicas, 120% sobre carros e 60% sobre tabaco, além de um pedido de boicote contra outros produtos dos EUA. “Se eles têm o iPhone, existe a Samsung”, afirmou Erdogan, durante um discurso em Ancara, capital da Turquia, na terça-feira 14. A troca de farpas entre os dois países é preocupante para o resto do mundo. “Usar a política econômica para fins claramente políticos só piora o ambiente geral para a economia mundial”, diz Lívio Ribeiro, economista da Fundação Getulio Vargas (FGV). Enquanto o jogo de retórica segue firme, a população turca sofre com a alta dos preços. Cálculos de consultorias locais estimam uma alta de 2% na inflação a cada 10% na depreciação da lira.

RISCO DE CONTÁGIO Apesar do PIB modesto de US$ 900 bilhões, a situação turca preocupa pelo efeito que a crise pode trazer tanto para a Europa quanto para o bloco dos emergentes. As dívidas feitas para obras de infraestrutura foram com bancos europeus, especialmente espanhóis. “A exposição de bancos espanhóis à Turquia equivale a cerca de 6% do PIB da Espanha, grande parte devido à participação do BBVA no banco Garanti, o segundo maior banco privado da Turquia”, afirma em relatório Andrew Kenningham, economista da consultoria britânica Capital Economics. Para os emergentes, a instabilidade gera uma aversão geral a risco e uma busca por blindagem em mercados mais seguros. O movimento afeta as moedas do México, da África do Sul, do Brasil e da Argentina. Na segunda-feira 13, o banco central argentino aumentou a taxa de juros de 40% para 45%, reforçando a inglória liderança mundial nesse quesito.

O nível de reservas internacionais, de US$ 380 bilhões, assim como um déficit externo baixo, de menos de 1% do PIB, deixam o Brasil menos exporto às tormentas internacionais. “Isso torna o Brasil mais resistente ao tipo de volatilidade que estamos observando nessas semanas, no caso da Turquia”, afirmou Eduardo Guardia, ministro da Fazenda, na segunda-feira, 13. Nem por isso os índices locais ficam ilesos ao terremoto. Na quarta-feira 15, o Ibovespa recuou 1,9% e o dólar fechou em
R$ 3,91, acumulando alta de 4,22% no mês (leia mais aqui). Para o Brasil, o agravante é a fragilidade fiscal e as incertezas eleitorais. Combinadas à cena adversa externa, o desafio das reformas torna-se mais complicado. “O azar brasileiro é que não fizemos o dever de casa direito, temos um problema fiscal e crescimento baixo”, afirma Ribeiro da FGV. “Não sabemos quem será presidente em seis meses nem sua política econômica.” Serão dias de emoção aos investidores locais.