Economia

As mil e uma noites de Bolsonaro

Com pouco mais de 1001 dias de governo, Bolsonaro vive em tour pelo Oriente Médio o enredo do livro de contos do século 18. A cada dia, para se manter relevante, uma nova história.

Crédito: Alan Santos

VIAGEM OFICIAL Encontro entre Bolsonaro e o Rei do Bahrein, Hamad bin Isa Al Khalifa. “Temos tudo para somar”, disse o brasileiro. (Crédito: Alan Santos)

Datado de 1703, o livro Mil e Uma Noites é uma compilação de contos que envolvem riqueza, luxúria, mistérios e polêmicas. No mote principal, o sultão Shahriar, da Pérsia, tinha o hábito de convidar mulheres ao seu quarto à noite e mandar matá-las no dia seguinte. Para evitar a morte, Sherazade decide contar uma história ao rei e promete outra na noite seguinte. Curioso, o líder persa não manda matá-la, pois espera o próximo enredo. Com Bolsonaro, as histórias, as palavras e as promessas também o sustentam. E o tour ao Golfo Pérsico, pano de fundo das histórias de Sherazade, configurou mais um conto. Entre os ouvintes, reis, chefes de Estado e empresários. E na história de Bolsonaro, a Amazônia não pega fogo, a economia está decolando e há comprometimento fiscal.

Com alguns tímidos acordos e promessas de petrodólares, o saldo da viagem que começou no dia 13 de novembro foi apenas a garantia de mais uma noite para pensar no próximo conto. O tour começou por Dubai, nos um dos destinos favoritos da trupe palaciana. Há alguns meses, o filho Eduardo Bolsonaro mais o vice-presidente Hamilton Mourão foram à cidade buscar investimentos. Mas desta vez a comitiva foi ainda mais imponente. A começar por ministros como Paulo Guedes (Economia); Walter Braga Netto (Defesa); Augusto Heleno (Segurança Institucional); Carlos França (Relações Exteriores); Bento Albuquerque (Minas e Energia); e Gilson Machado (Turismo). O Secretário da Cultura, Mário Frias e os filhos Eduardo e Flávio. Sabe de onde sai a dinheirama, né?

Por lá, Bolsonaro se encontrou com Mohammed bin Rashid Al Maktoum, vice-presidente e primeiro-ministro dos Emirados Árabes Unidos, que também é emir de Dubai. No encontro, segundo a imprensa árabe, foram assinados memorandos de entendimento para cooperação em educação, repatriamento de prisioneiros e um esboço de acordo para cooperação internacional entre o Centro de Estudos Estratégicos e Pesquisa dos Emirados e Fundação Alexandre Gusmão, do Brasil. Foi nessa etapa da viagem que o presidente também afirmou, para potenciais investidores, que a floresta amazônica não pega fogo por ser úmida e que ela é a mesma desde 1500. Para completar o conto Guedes afirmou que o Brasil foi uma das economias que “voltaram mais rápido, criaram mais empregos, e cresce acima da média mundial”. A fala veio um dia antes de o próprio ministério rever para baixo a projeção de crescimento em 2022 e para cima a inflação.

TUDO ESTÁ MUITO BEM Ministro Paulo Guedes diz que Brasil crescerá mais que a média mundial. (Crédito:Divulgação)

Marco Dias Rushad, ex-diplomata brasileiro com passagens pelos Emirados Árabes nos anos 1990, conta que o encontro não foi tão frutífero quanto poderia ser. “Há uma contaminação generalizada da imagem do Brasil, até mesmo em países que se mostram mais alinhados ideologicamente com o atual governo”, disse. E o motivo, claro, é o capital. Ainda que haja um interesse grande da comitiva em atrair recursos oriundos do petróleo, que foi chamado de “petrodólares”, pelo ministro, o caminho não é assim tão óbvio. “Os fundos soberanos de investimentos são cautelosos. Ninguém arriscaria vir em ano de eleição com essa indecisão política.”

Na terça-feira (16) o presidente foi para Manama, no Bahrein, segunda parada da viagem ao Oriente Médio. Por lá Bolsonaro foi recebido pelo Rei Hamad bin Isa Al Khalifa. O encontro foi a oportunidade de abrir uma embaixada brasileira no país e, segundo o presidente brasileiro, “a chance de aproximar os países que tanto tem para oferecer e trocar”. Entre as pautas dos dois líderes, está a ampliação das exportações de produtos agrícolas e de defesa, além da atração de recursos para concessões de infraestrutura. Durante a assinatura de um acordo bilateral cujos termos exatos não foram divulgados, o presidente fez uma piada ao apontar para Frias, secretário de Cultura, e dizer que “apesar de ator, ele é hétero”. Em Bahrein o presidente também ostentou em suíte de hotel. A diária, que custa R$ 46 mil, foi morada de grandes líderes mundiais e tida como o sinônimo da riqueza do país do Golfo Pérsico.

Por fim, a comitiva termina o tour no Catar, na cidade de Doha. Por lá, o maior encontro realizado no país foi uma “motociata”. Segundo o presidente, que gravou um vídeo em uma rede social, “a febre das motociatas no Brasil se espalhou pelo mundo todo”, disse em uma rede social, avisando que faria parte da comitiva sob duas rodas. Bolsonaro também encontrou, fora da agenda oficial, o presidente da Fifa, Gianni Infantino. Talvez o encontro renda boas histórias para que o presidente prepare o conto de amanhã.

NÃO TÃO LONGE DALI…

Divulgação

Enquanto Bolsonaro segue o tour pelo Golfo Pérsico, o ex-presidente Lula também tem sua jornada particular a milhas e milhas do Brasil. Com uma agenda na Europa, o petista participou de eventos solenes no Parlamento Europeu e encontrou chefes de Estado. Na quarta-feira, dia da motociata do presidente Bolsonaro, Lula teve um estratégico encontro com Emmanuel Macron, presidente francês, no Palácio do Eliseu, em Paris.

Macron é um dos mais duros críticos ao governo Bolsonaro da União Europeia e tem sido responsável por dificultar o acordo comercial entre o Bloco e o Mercosul. Ao abrir sua agenda para o ex-presidente, o francês que é considerado de centro-direita dá sinais de um diálogo com políticos que orbitam em outros espectros. Além da França, Lula teve agenda na Alemanha, Bélgica e Espanha. Outro encontro importante foi com o futuro chanceler alemão, Olaf Scholz. Em todos os encontros o ex-presidente falou sobre potenciais acordos em temas sensíveis aos europeus: o meio ambiente. Também falou sobre um comércio internacional mais racional, erradicação da pobreza e o papel dos países desenvolvidos no combate aos problemas climáticos e compensação ambiental. Em especial do Fundo Amazônia, que foi suspenso por países como Noruega e Suécia na gestão Bolsonaro por falta de clareza na aplicação dos recursos. Enquanto Bolsonaro arma o conto do dia seguinte, Lula articula para o final de 2022.