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As lições do 7 a 1

Passados quatro anos, pode-se concluir que a Copa do Mundo do Brasil, sob a ótica dos problemas, ainda não acabou. Resta, agora, depositar o otimismo na conquista do hexa

As lições do 7 a 1

Quatro anos atrás, nessa mesma época, grande parte dos brasileiros parecia entorpecida pela euforia da Copa do Mundo do Brasil e com a provável conquista do hexacampeonato em casa. Tudo indicava que o Mundial seria uma oportunidade para limpar o trauma do Maracanaço, de 1950, e uma forma de divulgar o País ao mundo. Apesar da crise já instalada na economia, em 2014, a esperança de que tudo começaria a mudar – para melhor – dominava os lares e o ambiente corporativo. Mas, como todos devem se lembrar, as coisas não saíram como planejadas. A derrota humilhante para a Alemanha se mostrou apenas o trágico capítulo de um enredo que até hoje não terminou. O Brasil ainda vive os efeitos de uma sequência de equívocos políticos e econômicos, erros que levaram o País a mergulhar em uma recessão que encolheu em 7,2% PIB total e em quase 10% o PIB per capita. A “pinguela” criada pós-impeachment da presidente Dilma Rousseff não se mostrou capaz de oferecer a segurança necessária para conduzir a travessia da economia para o crescimento – e ameaça ruir.

Mesmo aqueles que seriam os grandes legados da Copa, os projetos urbanísticos e de infraestrutura, não passaram de enormes fiascos, em sua maioria. Apesar do fantasma do apagão logístico não ter entrado em campo, somente 88 das 167 obras programadas para a Copa foram entregues antes da abertura dos jogos. E o pior: 45 foram inauguradas antes de serem concluídas, e 11 foram simplesmente descartadas por “falta de dinheiro” ou inviabilidade de engenharia. Indiscutivelmente, a má gestão dos recursos foi a grande marca registrada na nossa Copa, e o tempo, agora, endossa essa constatação. Os gastos do País com o torneio e com a Olimpíada Rio 2016, de R$ 66 bilhões, segundo o Ministério dos Esportes, foram equivalentes ao que se investiu nas Copas do Japão/Coreia, da Alemanha e da África do Sul juntas – e metade dessa dinheirama saiu dos cofres públicos.

Uma conta simples mostra que o dinheiro gasto na Copa e na Olimpíada seria suficiente para cobrir em mais de 20 vezes a renúncia fiscal de mais de R$ 3,4 bilhões por mês do governo federal por conta da redução de R$ 0,46 no litro do diesel – até o fim do ano, os subsídios custarão cerca de R$ 14,7 bilhões. A mesma quantia poderia cobrir também a metade do déficit no orçamento da União em 2017, de R$ 124 bilhões. Parte do valor ainda foi desperdiçada em obras de mobilidade urbana que ficaram inacabadas ou tiveram problemas estruturais. Em capitais como Cuiabá, Recife e Fortaleza, corredores e trilhos planejados para transporte rápido de passageiros não ficaram prontos a tempo da Copa e permanecem abandonados até hoje.

As críticas à Copa do Mundo no Brasil não representam gritos de uma torcida de orgulho ferido nem sugerem que o País detém o monopólio da corrupção mundial. As obras de preparação das cidades-sedes da Rússia estão cheias de mistérios e suspeitas de superfaturamentos, camuflados por um governo que controla o judiciário e reprime a imprensa. O moderno estádio de Sochi, cidade-sede da Seleção brasileira, é apontado como o principal “elefante branco” russo – e o investimento mais injustificável até agora. Mesmo assim, segundo o governo russo, o custo total do evento será de 683 bilhões de rublos – equivalentes a quase R$ 44 bilhões no câmbio atual, de R$ 3.70.

Passados quatro anos, pode-se concluir que a Copa do Mundo do Brasil, sob a ótica dos problemas, ainda não acabou. A economia ainda patina, políticos e empresários continuam respondendo a processos – em casa, com tornozeleiras ou na cadeia – e a esperança de ver o País voltar a crescer foi reduzida a índices mínimos. Resta, agora, tiradas as lições do 7 a 1 econômico, depositar o otimismo na conquista do hexa. Será bom para o moral e bom para o País.