Edição nº 1109 22.02 Ver ediçõs anteriores

As incertezas do capital

As incertezas do capital

Há um termômetro absolutamente infalível no que se refere à credibilidade de uma economia: o investimento externo. Ele é tanto maior e diretamente proporcional à sensação de estabilidade e perspectiva de retorno de um determinado mercado. Nesse capítulo ocorreu, como todos sabem, uma inversão de expectativas no tocante ao Brasil. Os números agora vêm para comprovar. As inversões estrangeiras tanto na bolsa como nas empresas caíram cerca de 30% entre janeiro e abril deste ano. É o primeiro refluxo em muito tempo, desde a queda do Governo Dilma, que gerou uma recessão destruidora.

Em abril, especificamente, o desempenho foi ainda mais dramático: o volume de recursos de outros países para setores produtivos oscilou em torno de US$ 2,6 bilhões, o menor nível para o mês desde 2006. Isso tem muito a ver, naturalmente, com as proximidades de uma eleição que investidores consideram a mais indefinida e perigosa dos últimos tempos. O capital odeia incertezas. É extremamente volátil e arisco em cenários de política belicosa. Não gosta de candidatos que falam em rupturas e quebra de regras. Lamentavelmente vêm despontando nas pesquisas candidaturas com essa postura.

Em outras palavras, a fuga, mesmo que temporária, de recursos internacionais e, por tabela, as oscilações consideráveis do câmbio estão intrinsecamente ligadas ao cenário nacional. Nosso problema é interno e não externo. Muitos correm a buscar explicações em fatores de fora, como os efeitos da reforma tributária praticada por Trump e o gradual aumento das taxas de juros americanas. São, decerto, motivos a contribuir, embora não com a mesma intensidade dos problemas daqui. O Brasil experimentou um avanço promissor no plano do desenvolvimento desde a troca de guarda, mas como ocorreu em outras ocasiões foi atropelado por revezes de natureza política. O engavetamento da reforma da previdência após a saraivada de acusações sobre o governo Temer delimitou os planos de crescimento.

Eles estão ficando bem aquém do esperado. E não por falta de condições – diga-se de passagem – mas por ausência de disposição parlamentar para auxiliar nessa cruzada. O tombo global propiciado pela guerra entre China e EUA torna a trajetória brasileira ainda mais difícil. O País segue perdendo sucessivas oportunidades de estabilização. Depois de ter amealhado o grau de investimento das agências de risco, o Brasil desabou com as seguidas revelações de corrupção e não consegue sair desse atoleiro, por mais que a sociedade exija. Dolorosamente, estamos voltando mais uma vez para o time das economias emergentes vulneráveis. E pagando um alto preço por isso.

(Nota publicada na Edição 1075 da Revista Dinheiro)


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